Bolsonaro defende uso de vermífugo contra Covid-19 e cita estudo brasileiro

Pesquisa encomendada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia mostrou que o Annita reduz a carga viral, mas não os sintomas da doença

atualizado 05/01/2021 10:11

Presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores sem máscara de proteçãoIgo Estrela/Metrópoles

Em publicação na manhã desta terça-feira (5/1), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a defender o uso do medicamento nitazoxanida, vermífugo comercialmente conhecido como Annita, no tratamento da Covid-19. Ele citou dados de um estudo encomendado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) que indicou que o medicamento reduz a carga viral da Covid-19.

O estudo, publicado no fim de dezembro no European Respiratory Journal, revista científica internacional, mostrou que o antiviral é capaz de reduzir a quantidade de vírus em pacientes com até três dias de confirmação da doença no organismo. Para isso, deve ser administrado na dosagem de 500 mg, de 8 em 8 horas, durante 5 dias.

No entanto, o vermífugo não reduz os sintomas da Covid-19. Os testes apontaram que, após cinco dias de terapia, não houve diferença significante na resolução dos sintomas da doença entre o grupo que recebeu a medicação e os voluntários que tomaram as doses de placebo.

Também não há comprovação científica de que a quantidade de vírus no organismo faça diferença na transmissão ou no desenrolar da doença. Há estudos que mostram essa associação apenas em casos graves.

De acordo com o infectologista Alberto Chebabo, do Laboratório Exame, os pesquisadores procuravam uma redução de febre e tosse, sintomas leves, nos primeiros cinco dias, e redução da carga viral. Não houve diferença nos sintomas nesse intervalo, mas sim em sete dias.

“É um estudo interessante, mostra que o remédio tem atividade antiviral, mas em termos de tratamento, não muda nada. Precisamos de uma droga que mude o desfecho grave, de paciente que precisa de oxigênio, de ser intubado. Uma droga que reduz febre não muda muito a história natural da doença”, explica o especialista.

Segundo ele, a diminuição da carga viral propagandeada pelo governo pode ser interessante se houver comprovação de que há diminuição na transmissão. “O estudo infere, mas não existe comprovação”, afirma. “Até o momento, a droga tem resultados muito pouco importantes”, diz.

O estudo é assinado por 29 pesquisadores, coordenados pela professora Patrícia Rocco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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Número de mortes na África

Na publicação, Bolsonaro também inferiu que o baixo número de mortes por Covid-19 em países da África pode ter relação com a distribuição em massa da Ivermectina. O remédio é comumente usado no tratamento de infestações por parasitas, como piolho e sarna.

A eficácia da ivermectina contra a Covid-19 ainda não é comprovada cientificamente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Infectologia.

Pesquisadores creditam a baixa taxa de contaminação no continente a pelo menos quatro fatores, um deles é a capacidade de resposta a epidemias, como o ebola, o que fez com que muitos países africanos tivessem planos de emergência.

Um segundo fator está relacionado à imunidade da população, afetada por outras doenças. “Porque as pessoas que sofrem daquela forma acabam por criar certas imunidades, por causa do tratamento de doenças como a malária, que tem muita prevalência na região, e de outras”, explicou à Agência Brasil o pesquisador do Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Cris-Fiocruz) Augusto Paulo Silva.

A terceira possibilidade é o fator etário, ou seja, a população africana é mais jovem do que a média mundial e a Covid-19 tem demonstrado uma incidência maior entre pessoas mais velhas.

Por fim, o baixo desenvolvimento de muitos países, principalmente na região central do continente, leva essas regiões a terem poucas conexões internacionais.

“A quarta explicação é que muitos países não têm aquela intensidade de comunicação e contato com o exterior. Se for ver o número de casos nesses países, são mais elevados nos que têm maior índice de desenvolvimento, como a África do Sul, o Egito, a Argélia. O que significa que o nível de desenvolvimento permite o contato com o exterior e o contágio é feito por meio dessas ligações e comunicações com o exterior”, explica Silva.

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