André Mendonça pede vista e trava julgamento sobre política ambiental

Ministro indicado por Bolsonaro pediu mais tempo após duro voto de Cármen Lúcia, que declarou inconstitucional a política do governo

atualizado 06/04/2022 18:44

O ministro do STF, André Mendonça, em sua sabatina no Senado. Ele fala num microfone, olhando para frente e usando terno - MetrópolesHugo Barreto/Metrópoles

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, interrompeu, com um pedido de vista, o julgamento de duas ações que pedem a condenação do governo de Jair Bolsonaro (PL) por falhas na política ambiental.

O pedido de vista, feito no final da tarde desta quarta-feira (6/4), ocorreu após duro voto da ministra Cármen Lúcia, que declarou “estado inconstitucional” das políticas ambientais brasileiras e determinou prazo para a apresentação de novos e efetivos planos.

“Espero poder trazer alguma coisa que possa agregar ao tratamento adequado da matéria”, disse Mendonça, que é ex-ministro de Bolsonaro e foi indicado pelo presidente da República ao Supremo.

A ministra Cármen Lúcia votou pela procedência de duas ações que tratam da conservação do meio ambiente e de medidas para frear o desmatamento no país. Relatora das ações, Cármen começou seu voto em 31 de março e o concluiu em sessão realizada nesta quarta-feira. Essas são as primeiras duas ações dentro de um “pacote verde” em análise no STF.

Após o pedido de vista, os demais ministros elogiaram o voto da relatora, mas decidiram não antecipar seus vereditos e disseram que vão esperar Mendonça trazer o assunto de volta à pauta.

A procedência no voto de Cármen Lúcia é para que seja reconhecido o estado de coisas inconstitucionais dentro de políticas para preservação da Amazônia e para a apresentação de um plano, em até 60 dias, de preservação do meio ambiente e redução da destruição no país. O plano deve conter recursos previstos, objetivos de aferição, de ação. Devem estar ainda definidas metas até 2023 de cumprimento da taxa máxima de desmatamento.

O plano efetivo de prevenção ao desmatamento na Amazônia deve estar assinado pelo Ministério do Meio Ambiente e órgãos federais como Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Fundação Nacional do Índio (Funai). Com plano específico de fortalecimento dessas instituições.

Em seu voto, a ministra citou a omissão a direitos fundamentais  e o estado de coisas inconstitucionais. Cármen Lúcia citou dados e elencou quatro itens para embasar sua decisão: a redução da fiscalização e controle ambiental nos últimos três anos; o abandono do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm); a ausência de publicidade dos atos para que houvesse o controle por parte do Estado brasileiro do desmatamento e de ações para manutenção do meio ambiente, além redução orçamentária para o setor, que “reduz a capacidade das entidades na matéria ambiental”, disse a ministra.

Atuando no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 760, de autoria de um grupo de sete partidos políticos e 10 organizações não governamentais, Cármen Lúcia considerou procedente o pedido de retomada do PPCDAm e de políticas públicas que possam frear o desmatamento. “As políticas ambientais se revelam ineficientes e insuficientes. Portanto, constitucionalmente inválidas”, disse a ministra em seu voto.

E ainda usou dados e resposta da Advocacia Geral da União para considerar que o governo federal pode ter ignorado diretrizes para evitar desmatamentos e queimadas.

Ao analisar dados e a resposta da AGU diante dos questionamentos na ação, a ministra afirmou que “operações foram mantidas no que se comprova em números, mas sem eficiência.

“Os resultados são afetados pela forma como as operações são realizadas. Estratégias mal elaboradas conduzem a resultados malsucedido. Mesmo que se tenha operações realizadas, o que se tem é a aparência de algo que não se volta ao cumprimento dos objetivos de eficiência, constituindo de um engodo administrativo. É um estado teatral em matéria ambiental: faça de conta que faz algo extremamente contundente que é mentira”, disse.

Para a ministra, a intervenção do Poder Judiciário nessa matéria pode se mostrar imprescindível para que se estanque a destruição ambiental. “A atuação do STF combina-se com a de órgãos internacionais”, ressaltou.

“Lorota”

Ainda sobre a questão de orçamento para a preservação e redução das taxas de desmatamento, Cármen Lúcia foi enfática: “Verbo não é verba. Lorota, trololó, de dizer que vai ter lá previsto, que tá previsto, mas não acontecido. A verba é que garante execução de políticas públicas. Não adianta te previsão que não é para ser executada”, disse em seu voto.

Ela ainda denominou o período vivido atualmente no Brasil como caquistocracia. O termo é derivado do grego kakistos (superlativo de “mau”) e kratos (“poder”), a palavra caquistocracia significa “o governo dos piores”. Agora, os outros 10 ministros do STF analisam a matéria a partir do voto da relatora.

Ações

O voto da ministra refere-se a ação contra supostos atos da União em relação à execução de plano efetivo de prevenção ao desmatamento na Amazônia. A ação inclui questionamentos contra o Ministério do Meio Ambiente e órgãos federais como Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Fundação Nacional do Índio (Funai).

Além disso, a ministra foi a favor da ADO 54. Nesse caso, a Rede Sustentabilidade alega omissão inconstitucional do presidente da República e do ministro do Meio Ambiente em coibir o avanço do desmatamento na Amazônia.

“O que se põe em questão aqui é a guarda da Constituição. A administração tem o dever de implementar as medidas necessárias. Não houve alocação de recursos financeiros. Me parece comprovada a falha da administração pública de executar as dotações orçamentárias para preservação ambiental”, afirmou.

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