Alunos de Realengo (RJ) fazem vaquinha para estudar em Harvard

Eles foram aprovados para a Simulação das Nações Unidas em Harvard, mas não têm condições de bancar a viagem. Saiba como ajudar

atualizado 31/10/2021 19:47

Aline Massuca/Metrópoles

O filho de um açougueiro com uma dona de casa dá nome a uma das universidades mais prestigiadas e elitizadas do mundo. John Harvard era um homem branco europeu do século 17, mas tem algo em comum com os cinco alunos do Colégio Pedro II de Realengo (RJ) que planejam, em breve, visitar o campus batizado em sua homenagem: foi o primeiro em sua família a ter acesso à educação formal.

Os estudantes brasileiros foram aprovados para participar do Harvard Model United Nations (HMUN), o Modelo das Nações Unidas em Harvard, em tradução livre. Trata-se da maior simulação da ONU do mundo. Sem ter condições de financiar a viagem a Cambridge, em Massachusetts, os alunos de Realengo iniciaram uma vaquinha on-line. A meta é conseguir R$ 40 mil para custear passagens, hospedagem, alimentação e outros gastos. A ajuda também pode ser enviada via Pix ([email protected]).

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“Quando passamos, nós pensamos: era melhor não ter feito a inscrição porque a gente não tem dinheiro. Mas decidimos tentar a vaquinha”, relata Olívia Oliveira, 17 anos, moradora de Bangu e parte da delegação do Pedro II que quer ir a Harvard.

A HMUN tem cerca de 4 mil participantes de 50 países, escolhidos após um rigoroso processo de seleção. Os estudantes aprendem sobre diplomacia, relações internacionais e organizações transnacionais na prática, divididos em delegações. Eles discutem soluções criativas para problemas mundiais como a fome, desigualdade social e questões ambientais, por exemplo. 

A simulação está marcada para janeiro de 2022. Durante quatro dias os participantes têm a oportunidade de fazer intercâmbios culturais e de experimentar o ambiente diplomático. Se conseguirem o financiamento, essa será a primeira viagem de avião de parte dos estudantes da rede pública carioca, que têm entre 17 e 18 anos. São filhos de empregadas domésticas, balconistas, eletricistas e motoristas de ônibus, por exemplo. Eles desejam ocupar um espaço que só conhecem das referências cinematográficas, mas com o qual aprenderam a sonhar.

Desde 2019, o grupo participa de simulações das Nações Unidas e de encenações da rotina de outras instituições, como o Congresso Nacional, promovidas pela escola. Nesse processo, aprendem a pensar políticas públicas e legislações. O Colégio Pedro II é público e tem um concorrido processo seletivo – parte das vagas é concedida por sorteio. Fundada em 2 de dezembro de 1837, a escola tem entre ex-alunos nomes como Fernanda Montenegro, Luiz Fux, Fátima Bernardes, Lima Barreto e Noel Rosa.

Conheça os estudantes do Colégio Pedro II de Realengo selecionados para a HMUN:

Stephany Monteiro, 17 anos, Zona Oeste do Rio

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“Às vezes a gente, que é jovem, acha que a política tem que estar nas mãos dos poderosos, daqueles que estão nos partidos, mas não precisa ser assim. Eu fui descobrindo que posso mudar o mundo de alguma maneira. Meus pais sempre levaram a sério a minha educação. No sexto ano eu fiz concurso para o Colégio Pedro II e entrei. É tanta gente de tantas regiões, é um lugar culturalmente diverso. Isso me abriu portas para o envolvimento político e social. 

Participar dos modelos diplomáticos me fez ter senso crítico, pensar sobre justiça social. Minha mãe, Marta, nasceu em Nova Iguaçu, no Rio, e meu pai, João Batista, é do Espírito Santo. Ele trabalhou desde criança com qualquer coisa, porque veio sozinho para o Rio de Janeiro, não conseguia ir para a escola. Ele terminou o ensino médio com mais de 30 anos. O pai da minha mãe era agricultor. Eles sempre foram muito pobres e minha mãe sempre diz que a educação mudou a vida deles. Meus pais hoje são enfermeiros e se conheceram no trabalho.

Eu sou apaixonada por educação, fui descobrindo isso em mim mesma com a escola. Eu tenho vontade de estudar direito, relações internacionais, gestão pública ou ciências políticas. Quando penso em Harvard, penso em um espaço muito elitizado. Acredito que a gente tem que ocupar esses lugares porque são os espaços onde estão as oportunidades e não acho que elas devam ficar destinadas somente às pessoas que têm mais dinheiro.

Quero me inserir nessa atmosfera para implementar mudanças por onde eu passar. Meu maior sonho seria tornar a América Latina referência em educação para o resto do mundo. Por que não? Porque as pessoas não sonham com o Brasil como sonham com os Estados Unidos e com Harvard? Quem sabe um dia eu tenha uma escola com o meu nome.”

Olívia Monteiro, 17 anos, Bangu

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“Meus pais sempre priorizaram a minha educação, mas minha mãe, Cleise, ganhava um salário mínimo quando eu nasci. Ela é professora e meu pai, Clóvis, fez um politécnico e é militar de carreira. Quando eu era pequena, a chefe da minha mãe tinha uma creche bilíngue e me deu bolsa. 

Eu era a única menina negra da creche toda, meus pais ficaram encantados com a educação que eu recebia. O salário da minha mãe era todo para me manter ali. Eu fiquei até o primeiro ano do ensino fundamental. Minha mãe me inscreveu no sorteio do Pedro II de Engenho Novo e eu consegui a vaga. No começo a gente levava duas horas para ir e duas horas para voltar, até eu conseguir mudar pra unidade de Realengo.

Na escola a minha vida mudou. Sempre me envolvi muito nas questões do colégio, fiz teatro, música, dei monitoria, pratiquei esportes. Sou da turma de francês no colégio e faço alemão na UFRJ. Eu não seria quem eu sou sem essas oportunidades, não teria a consciência racial que tenho. Hoje sei que outras pessoas passam pelas mesmas coisas que eu. Viajar para fora do país ainda está fora da realidade da maior parte das pessoas no país. 

Meu sonho é ser médica. Acho importante a gente ocupar espaços elitizados na educação porque é uma mudança individual e coletiva. Eu estou tendo chances que meus pais não tiveram porque eles abdicaram de muito por mim e ficam muito orgulhosos com todas essas possibilidades. Quero dar uma vida melhor para os meus pais e para a minha avó, Lilian, que trabalhou a vida toda como cozinheira e ganha um salário mínimo. Ela merece muito mais que isso.”

Emmanuel Mesquita, 17 anos, Realengo

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“Meu pai se chama Jorge e é eletricista. Ele começou a trabalhar com várias coisas já na infância, como muitos jovens negros, e tentou ser militar, mas foi dispensado porque tinha alguns problemas nos dentes, que ele não tinha condição de tratar. Minha mãe, Fátima, trabalha como empregada doméstica para uma família no Leblon. Os dois só têm ensino médio. 

Meus pais sempre lutaram muito para me dar uma boa educação. Minha mãe já perdeu empregos por ser hipertensa e viver muitas tensões no trabalho. Tentaram me manter em escola particular, mas foi complicado. A diretora de uma dessas escolas falou sobre o Pedro II para a minha mãe, que não tinha dinheiro nem para a inscrição. Essa pessoa emprestou dinheiro para a gente e fui sorteado para estudar no Pedro II. Sou apaixonado por essa instituição onde conheci as simulações diplomáticas e políticas.

Via na TV aquelas pessoas de terninho conversando e pensava: como elas tomam decisão? Eu me sentia muito fora desse universo, mas na escola os meus colegas começaram a falar das simulações. Eu passei a conhecer o poder da argumentação, da fala. É possível resolver as coisas com diálogo. Quero muito fazer faculdade, talvez na área de comunicação.

Nunca andei de avião, o mais longe que já fui é o interior de São Paulo quando eu era judoca. Meus pais ficam muito orgulhosos, até ficam bobos quando veem que o filho deles está conseguindo ir mais longe. Meu maior sonho é melhorar a vida da minha família, por tudo que eles viveram.”

Lucas Bayde, 17 anos, Bangu

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“Meu pai, Francisco Adriano, cursou ciências contábeis e minha mãe, Maria Luiza, fez um politécnico em controladoria. Ele é taxista e ela é secretária. Eu entrei no Pedro II no sexto ano do fundamental. Antes disso estudei em uma escola particular, mas em 2015 a crise veio com força e meus pais não teriam mais condições de pagar.

Sobre as simulações que fazemos nas escolas (da ONU, do Congresso, por exemplo) sempre busco participar desses eventos. Desde o oitavo ano eu comecei a me interessar por geopolítica, geografia e história. Um dia vi umas pessoas bem arrumadas no refeitório, com crachá no pescoço. Perguntei a uma menina e ela me falou sobre o Modelo de Realengo. 

Fui atrás de saber o que faziam e me interessei muito. Eu queria fazer relações internacionais, mas hoje em dia penso em estudar direito, com foco em direitos humanos e direito internacional. A educação transforma porque torna possível ter senso crítico.

O lugar mais longe que já fui é o interior de Minas, de carro mesmo. Quero participar da simulação em Harvard pelo intercâmbio cultural, para conhecer pessoas do mundo todo: jovens asiáticos, outros latino americanos, africanos. É uma diversidade muito grande, quero ter contato com esses pontos de vista diversos. E é uma forma de se colocar no centro de um debate mundial. Penso em ascender socialmente e ao mesmo tempo em combater as desigualdades, para que pessoas como nós não sejam apenas uma exceção nesses espaços.”

Evelyn Melo, 18 anos, Zona Oeste do RJ

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“O nome Harvard remete a todos os filmes americanos que a gente sempre viu. É um passo que eu nunca me imaginei dando, nem nos maiores sonhos deles poderiam me ver lá. 

Minha mãe, Elienete, nasceu no Complexo do Alemão. Minha avó veio do Espírito Santo e chegou ao Rio sem nada no bolso. Minha mãe sempre estudou em escola pública e teve que trabalhar vendendo coisas na praia desde cedo. Ela nunca conseguiu priorizar os estudos. Com meu pai, Edson, foi a mesma coisa, ele não fez o ensino médio e hoje trabalha como balconista na farmácia.

Quando eu nasci a minha mãe já estava trabalhando com vendas e estudava pedagogia. Eu nasci e desde sempre eu fui prioridade. A minha mãe por ter essa formação sempre tratou a escola como uma ponte para mudar a vida. Ela é professora de criança e quase sempre estudei de graça onde ela trabalhava. 

Eu estava no quinto ano e fiz a prova do Pedro II pela primeira vez. Não passei porque estava muito nervosa. No ano seguinte, eu tinha desistido dessa ideia. Um dia um colega chamado Danilo me parou do nada, nem éramos amigos, e ele disse: ‘Evelyn você vai prestar a prova do Pedro II? Eu acho que você é muito inteligente e se fizesse ia passar’. Aquilo ficou na minha mente. Um mês depois minha mãe soube das inscrições e eu lembrei do Danilo falando. Resolvi tentar.

Dessa vez foi diferente, eu me diverti fazendo a prova, fiz sem expectativa e dessa vez eu passei. O Pedro II foi muito importante para mim. Tive acesso a leituras incríveis, uma biblioteca enorme, professores maravilhosos, eventos como simulações, ocupações baseadas em arte para tornar o ambiente mais agradável e projetos feministas. 

As simulações me ajudaram muito a falar em público porque sou tímida. Também fizemos simulações que eram CPIs sobre Brumadinho e Mariana, investigamos a Vale. Os organizadores trouxeram depoimentos encenados das vítimas desses desastres. Nós fizemos em uma simulação algo que os políticos não fizeram na vida real, que é pensar em soluções para impactar a vida daquelas pessoas.”

Quem foi John Harvard

John Harvard foi o quarto de nove filhos de Robert e Katherine Harvard, nasceu em Londres e foi batizado em 29 de novembro de 1607. Muitos membros da família, incluindo seu pai e quatro irmãos e irmãs, morreram em 1625 com a peste Bubônica. 

Robert era açougueiro e não vinha de uma linhagem de universitários. Acredita-se que John frequentou a escola primária de St. Savior’s. O reitor de São Salvador na época era Nicholas Morton, amigo da família Harvard. Morton ajudou a preparar John para a faculdade.

John Harvard ingressou na Emmanuel College em 1627 e permaneceu por mais de sete anos de 1627-1635. Ele recebeu seu diploma de bacharel em 1632 e o de mestre em 1635.  A Emmanuel College mudou de nome para homenagear Harvard em 1639, quando ele doou parte de sua propriedade e seus livros para a instituição aos 31 anos, em seu leito de morte.

As informações fazem parte do livro The Founding of Harvard College (A Fundação da Universidade de Harvard) e Harvard no século 17.

Atualmente, a universidade é considerada uma das melhores do mundo e estudar ali pode custar 65 mil dólares por ano. Afro-americanos são 14% dos estudantes e latinos e hispânicos 12% e Nativos americanos (povos indígenas) 2%. Barack Obama, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Matt Damon, John Kennedy, Natalie Portman e Franklin Roosevelt são alguns dos ex-alunos famosos de Harvard. Fonte: http://www.johnharvard.us/

Como doar

PIX: [email protected] (Olívia Moreira Silva de Oliveira)

Poupança Caixa: 17077-2
Agência: 3241
CPF: 133.838.067-23
Stephany Vitoria Nazario Monteiro da Cruz

Link da vaquinha: https://www.catarse.me/cpii_em_harvard?ref=user_contributed

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