Ao chegar ao restaurante italiano, notei que em cada mesa havia uma colher de sopa ao lado do garfo. Muitos brasileiros acham que é chique comer usando a colher para enrolar as massas finas e compridas, como o espaguete. Não é. Isso, inclusive, nem é usual na Itália.

O restaurante Ninny (309 Norte) usa, digamos assim, essa licença poética dos brasileiros para corroborar a ideia de que ali, não só os hábitos, mas também a comida é servida de maneira tradicional.

Deixei a refeição seguir, receptiva. Pedi o cardápio e minha expectativa aumentou. Entradas, sete tipos de massas e mais de duas dezenas de molhos à escolha. Além disso, como manda a tradição italiana do dono Antonino di Giovanni, há opções de segundo prato. E até mesmo porções para duas pessoas, com carne acompanhada de massa. Tudo bem organizado, farto e bem distribuído.

Sobrou champignon e tomate seco
Então, vamos comer, né?  O carpaccio de lagarto (R$ 42) é feito no próprio estabelecimento. Ponto para o Ninny. Chega à mesa bem ornado, com muita rúcula picada, ricota, azeitona, tomate seco e champignon em conserva. A minha primeira impressão de que comeria uma comida tradicional teve seu primeiro abalo neste momento.

Champignon em conserva no carpaccio? Achei dispensável, assim como os minúsculos pedaços de tomate seco. Não agregam uma vírgula de sabor. Pelo contrário. A carne estava boa, mas em pequena quantidade. Posso ter dado azar no dia, mas contei quatro pedaços de carne no prato.

Bárbara Cortez/Metrópoles

Mix de ingredientes estranho
Passei para uma segunda entrada: a pequena porção de brusqueta (R$ 25, quatro unidades — foto acima). Confesso que, apesar de o recheio das brusquetas ser farto, achei o mix de ingredientes um tanto estranho.

Usualmente essas iguarias italianas vêm com tomatinhos, manjericão, azeite e alho passado no pão. As que comi tinham ainda azeitonas, queijo parmesão e queijo provolone, o que mascarou o sabor da brusqueta.

Lasanha saborosa
Quando parti para os principais, imaginei o que viria. Pensei pedir o básico, o mais simples dos pratos para sentir o usual e maravilhoso sabor da comida italiana: lasanha bolonhesa (R$ 59), tagliatelle all’amatriciana (R$ 72,00 ) e filé à parmigiana (R$ 99 para duas pessoas).

Ao comer a lasanha à bolonhesa, encontrei o que buscava. Comida quente, massa al dente e sabor em cada garfada completa, aquela na qual tudo se junta na boca e causa efeito agradável ao paladar e alma. A carne estava bem temperada, com a intensidade e consistência que um prato italiano pede – com camadas de sabores.

Bárbara Cortez/Metrópoles

Tagliatelle cozido demais
Infelizmente, não foi uma sensação temporária. O tagliatelle veio cozido além da conta, tanto que até se desmanchava em pedaços no prato. E o molho, com tomate, cebola, azeite, bacon defumado, pimenta-do-reino, não fez jus à descrição e à personalidade que deveria ter.

Caros e caras, bacon defumado deixa um gosto incrível no molho. Estava longe de ser o molho encorpado de sabor que eu esperava.

Atendimento simpático e eficiente
Já o filé à parmigiana (foto acima) estava bom: carne fina, um pouco difícil de cortar, mas com crosta firme e bem temperado. A cobertura do bife estava farta, alta em suas camadas de presunto e queijo. Porém, o molho de tomate, salpicado de orégano seco, estava ácido demais para minha boca.

Tenho de registrar que o atendimento foi simpático e eficiente. Ponto para o serviço.

É preciso sim ter respeito com um restaurante que está há quase 20 anos atuando no mercado de Brasília. Mas também é de bom tom honrar à risca a tradição e o sabor intenso que a comida italiana proporciona. O restaurante Ninny não anda em boa fase. Torçamos para que isso mude.

Cortês sim; omissa, não.

DEVO IR?
Há italianos melhores na cidade.

PONTO ALTO
Lasanha bolonhesa e o fato de não ter música ambiente italiana.

PONTO FRACO
Comida sem o sabor que a culinária italiana promete.

Ninny (309 Norte, Bloco A, Loja 6, 3347-7606).