No Dudu Bar, a paquera vale mais do que a comida
Quando alguém de fora me pede uma dica em Brasília para comer e badalar, costumo oferecer o Dudu Bar, da 303 Sul, como uma das opções. Aquela varandinha faz qualquer happy hour se tornar agradável. Falta só o barulhinho de mar (e olha que passei quase toda a vida longe do litoral!) para o clima […]
atualizado
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Quando alguém de fora me pede uma dica em Brasília para comer e badalar, costumo oferecer o Dudu Bar, da 303 Sul, como uma das opções. Aquela varandinha faz qualquer happy hour se tornar agradável. Falta só o barulhinho de mar (e olha que passei quase toda a vida longe do litoral!) para o clima ficar perfeito. O público oscila entre engravatados, patricinhas, mauricinhos e também moderninhos – jovens ecléticos atrás de drinques, boas risadas e paquera.
Aviso aos amigos logo de imediato: prepare o bolso! Não necessariamente para comer bem, mas para deixar mais de uma centena de “dilmas” pela conta. E aí, gostaria de frisar o meu conceito de caro – é o que não vale o que se paga. Por exemplo: risoto mais um pedacinho de filé a R$ 84,90 ou seis bolinhos de mandioca com carne seca a R$ 43,90. Caro!
Entendo o custo trabalhista de contratação, a conta de luz, o valor do aluguel em ponto de prestígio, o diferencial do ambiente descolado, o DJ… Super entendo. Mas, desculpe, não dá, senhor Dudu.
Respeito e acompanho o trabalho do chef desde os anos 2000 quando ele se apresentou profissionalmente na cena gastronômica da capital. E, aos poucos, seu nome se tornou sinônimo de sucesso. Como uma espécie de Midas, tudo o que tocava virava negócio. Sócios queriam abrir casas com a chancela, a curadoria e o nome do chef. Assim surgiram as pizzarias Fratello Uno, Cantina Unanimitá, Your’s, Da Noi, Dudu San, Respeitável Burguer. Enfim… era Dudu por toda a cidade.
Tenho respeito e admiração por chefs empreendedores e multitarefas. Mas é claro que, com tantos negócios para administrar, a frequência no comando das panelas foi rareando e, por consequência, a execução dos pratos foi ficando comprometida. Inúmeras foram as vezes em que perguntei se o Dudu estava na cozinha e a resposta era negativa. Uma, duas, três vezes, tudo bem… mais do que isso complica. O status de chef-celebridade pode intoxicar e, com isso, a qualidade cair – muitas vezes, despencar.
A cozinha contemporânea do chef Dudu Camargo parou no tempo. O script, que era sucesso num passado recente, tornou-se repetitivo, cansativo. É sempre assim: Um purê e um peixe; arroz cremoso e uma carne; combinação de doce com salgado e por aí vai… Sei lá, tenho a sensação de fórmula pronta ou comercialmente palatável, com cara de que o comensal vai se surpreender e bradar: “uau, que criativo!”. Mas é tão década passada…
O Dudu Bar, assim como vários outros restaurantes da cidade que fazem sucesso, precisa se atualizar. Onde estão os legumes? Por que não se valer de outras partes do bovino além do óbvio e tedioso filé-mignon? O Dudu Bar era para ser a cozinha de autor do chef. E não há nada de errado em juntar um ambiente descolado, um DJ e uma bela comida, a preço justo, no prato. Em São Paulo, o restaurante Spot segue essa linha. Não é barato, mas oferece pratos bem executados.
O restaurante-bar vem pecando por isso. Pela falta de criatividade ao lidar com sabores básicos e clássicos. Mas vamos supor que você esteja ali para comer esse tipo de comida. Ora você vai comer um delicado e intenso ravióli de damasco com ricota condimentada ao molho de alho-poró e Martini (que também era servido no falecido Your´s, que virou Dudu Bar Lago) ou ora, um risoto de rabada meio sem graça, sem tempero e sem sabor. Tudo dependerá do dia. Falta regularidade. E com regularidade não se brinca!
Falo tudo isso não apenas como crítica – que muitas vezes pode ser chata, cri-cri, e até antipática ao cumprir o ofício de mostrar ao leitor o que vale à pena no universo gastronômico da cidade. Falo isso, sobretudo, com a propriedade de quem é cliente há anos e quer voltar a sentir o prazer, o tempero e o toque do cozinheiro ao levar o garfo de comida à boca. Dudu é um ótimo chef, mas precisa de maior controle e precisão na coordenação de sua cozinha. Até porque seu restaurante leva seu nome e o de uma família com tradição gastronômica.
Cortês sim; omissa, não.
DEVO IR?
Sim, deve ir, mas antes ganhe na Mega Sena.
PONTO ALTO:
A variedade de opções de drinques e pratos no cardápio e o ambiente despojado.
PONTO FRACO:
Cardápio é o mais do mesmo. Ora bem executado; ora nada saboroso.
303 Sul, Bloco A, Loja 3, 3323-8082.
