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Você, sendo mulher, abriria a porta de casa para receber um estranho sozinha? Na prática, é isso que ocorre muitas vezes, quando se pede uma pizza, um gás ou contrata-se o serviço de um faz-tudo.

Ana Luisa Monteiro, de 28 anos, teve uma experiência ruim ao pedir um botijão de gás. O homem que fez o delivery a assediou, deixando-a vulnerável e com medo dentro da própria casa. Depois desse episódio, e diante do machismo que sofria no mercado de trabalho como produtora audiovisual, ela se juntou à amiga, a arquiteta Katherine Pavloski, de 29 anos, para criar o próprio negócio.

Motivadas pela constante atmosfera de insegurança, Ana e Katherine abriram uma empresa de serviços diversos oferecidos por mulheres e para mulheres, a Mana Manutenção. Trata-se de um nicho em plena expansão.

Com slogan “Mana — mulher conserta para mulher” a ideia surgiu em 2015. A empresa de manutenção residencial faz reparos e instalações no geral. “Antes de abrir a Mana tive chefes muito machistas e dentro da Mana sofremos assédio de vendedores de lojas”, conta Ana Luisa.

Além do conforto e da segurança das clientes, o modelo de negócio baseia-se na sororidade. “União e solidariedade entre mulheres, com companheirismo e empoderamento mútuo”: essa é a definição do termo para a especialista em direito do trabalho, empreendedora social e diretora de relações étnico-raciais, gênero e diversidade do SINT-IFESgo (Sindicato dos técnico-administrativos da UFG, IFG e IF Goiano) Michely Coutinho.

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As empresárias Ana Luisa e Katherine participaram do programa sobre negócios “Shark Thank Brasil” .

Michely acredita que existe a necessidade e a demanda dessa especificidade de mercado. “Os nichos permitem que as empresas atendam melhor seus clientes. É a chamada discriminação positiva, é uma forma de garantir equidade às parcelas da população que historicamente foram marginalizadas, subestimadas ou tornadas invisíveis”.

Ana Luisa relembra dois casos de machismo que sofreu mesmo trabalhando em uma empresa exclusivamente feminina. “O marido de uma cliente uma vez entrou comigo no lavabo, disse que eu não sabia fazer aquele trabalho e que eu estava tentando roubar a esposa dele”, relata.

Ana também fala da vez em que sua sócia, Katherine, foi desrespeitada quando tentou comprar ferramentas. “O dono da loja não quis vender para ela e disse: ‘só te vendo se você me mostrar que sabe segurar’ “.

O serviço é sucesso com o público feminino. “É comum escutarmos que somos pontuais, organizadas e limpas, fora o conforto de não ter que se preocupar com assédios”, diz Ana Luisa. Atualmente, a empresa funciona apenas em São Paulo, mas pretende expandir o serviço em breve para outras regiões.

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A criadora e CEO do LadyDriver, Gabriela Côrrea.

Há vários outros exemplos de negócios que seguem esse modelo. O LadyDriver é um aplicativo de mobilidade urbana que atua em São Paulo e Guarulhos. O aplicativo conecta passageiras mulheres a motoristas do sexo feminino. “Temos foco em trazer mais tranquilidade e empatia durante as corridas para as passageiras e valorizar as motoristas mulheres ao volante”, afirma a CEO e criadora do aplicativo, Gabriela Côrrea.

Assim como o “Mana”, a ideia da empresa surgiu de um assédio vivido pela fundadora. “Sofri uma situação constrangedora causada por um motorista, dentro de um carro chamado por aplicativo, e decidi que não queria que outras mulheres passassem pelo que passei”, conta Gabriela.

O aplicativo, que foi lançado em março deste ano, teve mais de 5 mil mulheres cadastradas como motoristas. Em quatro meses, o LadyDriver atingiu mais de 35.000 downloads de passageiras. “Quando eu prefiro uma motorista mulher de táxi ou Uber não é mero capricho”, afirma a especialista Michely Coutinho.

Vivenciamos experiências diárias de insegurança, ainda mais quando testemunhamos a banalização da violência e cultura do estupro. Sabemos na pele o que significa termos serviços que nos deixam inseguras”, explica Michely.

A violência em serviços de mobilidade urbana não atinge só as clientes, mas também as motoristas. “Já sofri algumas vezes assédio, levo na esportiva porque tenho medo de falar alguma coisa e o cara fazer maldade, além de não querer piorar o clima”, disse Graciene Vaz, de 38 anos, que atende como motorista de um aplicativo.

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A configuração dessas empresas que visam a sororidade abre mais espaço para as mulheres no mundo dos negócios. Segundo o IBGE, em 2015, 63% dos cargos de chefia eram ocupados por homens.

Em novos mercados e dinâmicas como a economia solidária, economia criativa e negócios sociais, as mulheres possuem mais participação do que em setores tradicionais”, ressalta Michely sobre os chamados “mercados em construção”, que permitem maior abertura.

Consequentemente, o empoderamento econômico garante mais força social e maior emancipação das mulheres em seus lares e na sociedade. “Estamos quantitativamente em crescimento, mas qualitativamente a vida de milhares de mulheres já melhorou com esses negócios”, aponta Michely. 

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