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É num lugar tranquilo, silencioso e bem longe do caos central de Brasília que Ariston Teles escolheu viver com sua mulher, Maria Isabel. Conhecido por incorporar o célebre Chico Xavier, o orador, jornalista e também médium recebe mais de 250 pessoas semanalmente no Monte Alverne, situado perto da entrada do Grande Colorado e criado especialmente para trazer conforto e prestar assistência à comunidade.

O nome do local onde Ariston recebe as pessoas faz alusão ao Monte Alverne “original”, que está situado na província de Arezzo, na Itália. O santuário ficou conhecido por ser o lugar visitado por São Francisco de Assis para encontrar paz de espírito e fazer suas orações.

Em meio à calmaria, o espaço de desenvolvimento espiritual próximo ao Plano Piloto tem diversas casas. Cada uma com uma função diferente, mas todas com o mesmo propósito: fazer valer a principal missão do médium mineiro que ele tanto admira: Chico Xavier.

Giovanna Bembom/Metrópoles

Na entrada do local, uma estátua representa São Francisco de Assis de braços abertos. Logo ao lado, uma imagem reconfortante de Cristo abraçando o menino sírio morto numa praia da Turquia. As duas refletem bem a intenção do Monte Alverne e falam muito sobre a personalidade de Ariston.

Sereno, o médium que saiu de Feira de Santana, na Bahia, e adotou Brasília como sua cidade há 31 anos veio de um lar humilde e se diz predestinado a servir ao próximo. Foi justamente no município baiano que teve o primeiro contato com a mediunidade, aos 3 anos.

Nasci médium e via coisas. Como era muito inquieto por causa disso, tomava uma surra a cada semana. Eu seria, na linguagem de hoje, o que chamam de hiperativo"
Ariston Teles

Os pais perceberam o comportamento incomum e, convencidos de que era algo espiritual, levaram o garoto de 8 anos a um centro espírita. Os ensinamentos dali acabaram por cativá-lo e ele assumiu a doutrina como religião aos 17 anos, começando o processo de desenvolvimento da mediunidade pela incorporação (ou psicofonia, que é quando os espíritos se ligam psiquicamente aos médiuns e se expressam pela fala dos mesmos).

Com o passar dos anos, Ariston se aprofundou na leitura da doutrina espírita e buscou compreender um pouco mais sobre os fenômenos que experimentava. Ele afirma que a prática da psicofonia não envolve dor ou desconforto e que para realizá-la é necessário muita consciência e conhecimento sobre o mundo espiritual.

“Todas as incorporações aconteciam nos centros e de forma organizada. Eu só sou médium quando os espíritos querem. Não é algo voluntário que envolve a minha vontade.”

Em 1980, Ariston conheceu Chico Xavier. Na ocasião, Ariston escrevia a biografia do sacerdote católico Dom Bosco, padroeiro de Brasília. Até então, o espiritismo ainda se consolidava no Brasil e o médium mineiro era um modelo para outros praticantes.

“Assim que cheguei, sem que ele soubesse do livro, me perguntou: ‘O que você deseja?’. Eu respondi: ‘Uma orientação sua’. E ele disse: ‘Jamais. Uma pessoa que recebe a proteção espiritual de Dom Bosco, não precisa de mim’. Ele viu Dom Bosco no meu campo vibratório e disse que eu tinha uma missão a cumprir.”

Giovanna Bembom/Metrópoles

Ariston fez outra visita um ano depois. Dessa vez, a conversa foi muito mais profunda e didática. Chico convidou-o a se hospedar em sua casa em Uberaba (MG). Os dois começaram a trocar correspondências, que Ariston guarda com carinho dentro de uma pasta. “A energia dele de 30 anos atrás está aqui. Além de uma relação mediúnica, compartilhávamos uma relação muito familiar entre nós. Chico era lindo, nunca deixava de sorrir.”

Logo na entrada do centro, um pequeno museu conta um pouco da história do médium mineiro. Reportagens, obras psicografadas, quadros e muitas fotos de Chico com personalidades brasileiras decoram as paredes.

Segundo Maria Isabel, que é casada com Ariston, o lugar já abrigou fenômenos paranormais. O mais vívido deles ocorreu nos primeiros anos do centro, quando uma imagem de Chico Xavier com um hanseniano de Goiânia começou a jorrar uma espécie de óleo transparente por detrás da moldura.

O diferencial que eu e minha esposa tínhamos era que levávamos muita alegria para ele. Chico precisava se sentir gente. As pessoas não davam essa chance porque o tratavam como um mito. E comigo a relação era familiar"
Ariston
Giovanna Bembom/Metrópoles

Em uma das últimas visitas feitas ao médium antes de falecer, Maria Isabel afirma ter recebido um código de Chico Xavier com a notícia de que ele estava partindo, mas que o trabalho no Monte Alverne deveria continuar. Ariston não revela o código. O que se sabe é que essa espécie de senha seria enviada de outro plano espiritual e garantiria a legitimidade de uma carta ou outro tipo de manifestação de Chico Xavier após a morte.

O código, originalmente, foi compartilhado com três pessoas: a amiga do líder espiritual, Kátia Maria, seu médico, Eurípedes Tahan, e o filho adotivo, Euripedes Higino. Kátia Maria faleceu em dezembro de 2012, aos 59 anos.

Metrópoles entrou em contato com o médico e com o filho de Chico Xavier para falar sobre o reconhecimento do código de psicofonia de Ariston, mas os dois não quiseram comentar o assunto. Ariston garante que já recebeu o reconhecimento de outros médiuns e que a paz da personalidade de Chico permanece ali, no Monte Alverne, que também recebe o nome de Instituto Chico Xavier.

Giovanna Bembom/Metrópoles
Giovanna Bembom/Metrópoles

Na véspera da final da Copa do Mundo de 2002, Chico Xavier faleceu devido a uma parada cardíaca. O líder espiritual morreu em casa, aos 92 anos, na cidade de Uberaba (MG). No entanto, Ariston não fala da notícia com pesar. Pelo contrário, a palavra “morte” não está em seu vocabulário. Para ele, Chico apenas desencarnou.

Chico partiu em um domingo, dia 30 de junho de 2002. Ariston diz que já havia recebido indícios e sinais de que ele desencarnaria. Quatro dias depois da morte de Chico, Ariston teria a primeira experiência de psciofonia com o médium mineiro.

Senti uma dor no peito e comecei a ficar ofegante. A dor foi se espalhando e passados uns sete minutos o espírito se afastou. Aí veio um médico espiritual e disse que tínhamos recebido Chico Xavier. Daí por diante, Chico passou a assumir os trabalhos espirituais da casa e isso já acontece há 14 anos"
Ariston

As incorporações, Ariston ressalta, não ocorrem por sua vontade. O médium relata que, aos poucos, foi se adaptando à sensibilidade da experiência, mas que hoje seu corpo e o espírito do líder espiritual “se encaixam perfeitamente porque o espírito de Chico exala uma energia chamada amor”.

“Quando Chico vem, Ariston sai. Não sou eu quem controla porque eu não tenho autoridade sobre o fenômeno. Ele só aparece quando há utilidade e a explicação para isso está nas cartas: se chama afinidade.”

Tanto domínio mediúnico tem seu preço. Ariston foi criticado diversas vezes e é constantemente acusado de charlatanismo por muitos seguidores de Chico Xavier. As críticas não o intimidam. “Lido com a maior naturalidade até porque a maioria esmagadora acha que é fantasia, fanatismo ou que eu quero aparecer. Dou até razão a eles. Porque se eu estivesse do outro lado eu também duvidaria, a não ser que eu viesse aqui para comprovar. ”

Giovanna Bembom/Metrópoles

Sobre o modo de sustentamento do Monte Alverne, Ariston afirma que tudo funciona graças a uma “providência divina”. Embora o bazar e as farmácias de homeopatia do local ajudem nos custos de manutenção, o instituto — que conta com atendimento médico e espiritual gratuito para a comunidade — recebe muitas doações.

Estudos da doutrina espírita, atendimentos na área médica, sessões de acupuntura e tratamento espiritual, evangelização infantil e sessões de meditação e passes também são feitos no local. Ali não se busca só auxiliar o lado emocional e psicológico de pessoas carentes, como também resgatar a cidadania.

Para o médium, a missão espiritual que Chico trouxe para sua vida não é apenas um propósito, mas um dever. “Eu tive todo o tipo de confirmação do que esse local representaria em Brasília. Mas é preciso disciplina. Me sinto muito comprometido com essa espiritualidade superior que vive nessa casa. Se eu não tivesse essa índole não serviria para trabalhar com Chico Xavier, porque é preciso ter muita responsabilidade.”



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