Palhaços brasilienses Irmãos Saúde rodam o país com circo itinerante

Chaubraubrau e Raquaquá já conheceram todos os estados do Brasil levando o circo para a periferia. Domingo (17), eles gravam DVD em comemoração aos 15 anos de carreira

atualizado

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Diego Presane
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1 de 1 irmaossaude Diego-Presane. - Foto: Diego Presane

São 15 anos na estrada. Ankomárcio e Ruiberdan Saúde são, de fato, irmãos. Ambos palhaços. Os brasilienses, do Núcleo Bandeirante, já alçaram altos voos. A bordo de um micro-ônibus, eles e seus personagens, Chaubraubrau e Raquaquá, cruzam o país com o Circo Teatro Artetude, levando arte de rua para todos.

Neste domingo (17/7), às 17h, a dupla grava seu primeiro DVD, em comemoração aos 15 anos de carreira dos Irmãos Saúde. A programação é de graça, na Torre de TV.

Ankomárcio foi o primeiro a ter contato com a arte, em uma escola circense, aqui no Distrito Federal, para adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social, quando era estagiário do curso de educação física.

Eram crianças fantásticas, mas muitas vezes apresentavam comportamentos revoltados. Quando mais novo, eu também agia de forma arredia. Por isso, me senti representado e pude reconhecer no circo um instrumento de transformação da vida daqueles jovens.

Ankomárcio, palhaço Chaubraubrau

Ele conta que ao se encontrarem com o palhaço Serenata, interpretado pelo professor da escola, os alunos eram “conquistados pelas histórias e forma de comportamento do palhaço”.

Ansiando mudar a vida de jovens que passavam pelas mesmas situações que ele, Ankomárcio quis aprender mais sobre a arte da palhaçada. “Tinha 20 anos. O professor me deu um espelho, maquiagens e a foto de um palhaço. Me aprontei e, em cena, ele me ensinou todas as coisas. Depois daquele dia, nunca mais voltei para a faculdade de educação física.”

O irmão mais novo, Ruiberdan Saúde, trabalhava em órgãos públicos, como um “cidadão ordinário de Brasília”. De longe, acompanhava a trajetória de Ankomárcio na palhaçada. Logo deixou-se seduzir:

Sabendo da importância social do palhaço, de tudo que ele representa, a paixão que eu já tinha pelo circo desde pequeno acabou sendo mais forte. Larguei tudo, olhei para a mãe e disse ‘Vou virar palhaço’. Nosso processo de aprendizado foi parecido. Da mesma forma que o Serenata fez com ele, ele passou as técnicas para mim.

Ruiberdan Saúde, palhaço Raquaquá

Os dois começaram rodando o país em um fusca. Hoje, já têm ônibus próprio do circo que integram, o Circo Teatro Artetude. Equipados com som, luzes e tela para projeções, eles percorrem o território nacional levando arte a todos os cantos. Ruiberdan resume: “O céu é a lona, e o chão é o picadeiro”.

Uma das partes mais importantes do trabalho, de acordo com a dupla, é alcançar a periferia: “Já nos apresentamos na Cidade de Deus (Rio de Janeiro), em diversas favelas no Amazonas, em São Paulo… “, conta Ankomárcio. “Somos chamados mambembes contemporâneos. A autonomia do ônibus dá essa capacidade de seguir a tradição e uni-la com a tecnologia”.

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Pablo Peixoto
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Mariza Foncesa

 

Desde a infância, na Vila Metropolitana, Núcleo Bandeirante, os irmãos Saúde são ligados à arte. Brincaram de biloca, tomaram banho no córrego, jogaram bola. Uma infância normal. Ruiberdan lembra que “era de muito gosto frequentar o circo, as lonas que passavam por aqui. Não somos de uma família tradicional de circo. Mas, em nós, nasce uma nova tradição do circo brasiliense”.

Eles frisam a importância de espaços físicos específicos para receber espetáculos artísticos. “Não há nenhum lugar para que a pessoa possa ter contato com o circo. Assim, o artista de rua é o único contato que o povo tem com a música, com o teatro.”

Quando o cidadão vai a um espetáculo de teatro, circo, e artes em geral, essa pessoa vai aprendendo a enxergar a vida de uma forma muito mais lúdica. Isso ajuda a suportar a dureza do cotidiano sofrido de cada um de nós

Ankomárcio Saúde

O Circo Teatro Artetude não possui lona fixa. Funciona dentro do micro-ônibus, onde circula pelo país. Nos espetáculos, elementos circenses tradicionais como malabarismo, muita música, acrobacia e as palhaçadas de Chaubraubrau e Raquaquá. Eles afirmam trabalhar com influências de palhaços nordestinos, com verborragia e “cameloturgia”.

“Somos palhaços de profissão, religião e ideologia, de manhã, de tarde, de noite e de dia. O palhaço mostra a forma de ver o mundo. Você envelhece e o palhaço envelhece junto. Já não sei mais os limites de quem sou eu e de quem é o palhaço”, conta a dupla, em coro.

O circo não é uma lona. Ele é feito da poética de que todos nós fazemos parte de um grande espetáculo, que é a vida. Cada um de nós é malabarista da própria vida, lidando com várias dificuldades ao mesmo tempo

Ankomárcio Saúde

O DVD que a dupla gravará neste domingo na Torre de TV reunirá dois espetáculos, uma homenagem ao circo tradicional, e a trajetória dos palhaços Chaubraubrau e Raquaquá, contada de forma lúdica. Além de circo, tem Forró de Vitrola e Pé de Cerrado na música. Mais cedo, às 11h da manhã, a dupla se apresenta, também de graça, para as crianças.

Chaubraubrau e Raquaquá — ou Ankomárcio e Ruberdan — já participaram de grandes festivais nacionais, como o Sesc Fest Clown (DF), Anjos do Picadeiro (RJ), Fiac (BA), Mostra Zezito de Circo (DF), Festival de Circo do Brasil (PE), e o Festival Mundial de Circo (Belo Horizonte). Também, juntos, estiveram em contato com grandes mestres da palhaçaria: o argentino Chacovaci; o lendário Leo Bacci, italiano; a trupe Teatro de Anônimo, entre outros.

“Também somos trapezistas, porque nos alçamos, lançamos voos nos nossos sonhos. E, no final das contas, somos todos palhaços, que caímos, tropeçamos, e aprendemos tudo de novo”, conclui Ankomárcio, o Chaubraubrau.

Festa de 15 anos do Circo Teatro Artetude
Dia 17/7 (domingo), das 
17h às 23h. Na Torre de TV (Eixo Monumental). Entrada franca. Classificação indicativa livre.

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