“Os Estonianos” lança seus personagens à deriva sobre o palco do CCBB
Primeira montagem brasiliense de texto da dramaturga Julia Spadaccini fica em cartaz no CCBB até 4 de outubro
atualizado
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Badalada dramaturga da atual cena carioca, Julia Spadaccini passou parte da infância e da adolescência no Distrito Federal. Graças a uma amizade que remonta a essa época, com a hoje atriz profissional Daniela Vasconcelos, Brasília recebe a primeira montagem local de um texto de Julia. Assim, “Os Estonianos” segue em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, de quarta a domingo, até 4 de outubro.
A Estônia, num rudimento de geopolítica, pode-se dizer que fica um bocado distante do Rio de Janeiro, do Brasil. Como em muitos daqueles países do lado de lá da antiga Cortina de Ferro, a democratização e a abertura de fronteiras não foram suficientes para que se tornassem referências importantes no cenário globalizado. Portanto, não espere que a Estônia a surgir no texto de Julia Spadaccini seja aquela do Wikipédia.
Bem-vindo à Estônia da cabeça de cada um de nós. Fred, o personagem que coube a Guilherme Angelim nesta montagem de “Os Estonianos”, confessa estar palmilhando a rede social Grindr atrás de companhia. Por ali encontrou um rapaz da Estônia. Foi o suficiente para começar a pensar, quem sabe, numa outra vida, num outro lugar. “Os estonianos são lindos, saudáveis, avermelhados, gordinhos, é impossível eles não serem felizes”, delira.
Fred tem a pele pálida de quem passa mais tempo no gabinete do que na rua. Fred usa um terno em constante desalinho pois leva nas costas uma permanente mochila, como se ir para o trabalho fosse a sequência lógica de uma vez ter ido para a escola. Fred, aparentemente, tem dúvidas sobre sua sexualidade. Fred, decerto, está longe de ser um estoniano.
Tabuleiro às claras
Os outros quatro personagens da peça de Julia Spadaccini, aqui sob direção da atriz carioca-brasiliense Fernanda Rocha (do filme “O Último Cine Drive-In”), também não conseguiriam cidadania afetivo-estoniana, não.
Pedro (Juliano Coacci) está com o casamento indo para o proverbial vinagre, não tem interesse profissional e ainda se questiona do alto de seu ego instável: “e se eu for um grande gênio?”… Sua mulher, a psiquiatra Marília (Luciana Lobato), parece já nem ouvir mais os pacientes, apenas empurrando remedinhos tarja preta a cada vez. As angústias dela própria, Marília aplaca com livrinhos de colorir… Outras duas personagens femininas pontuam a ação, em permanente deriva: Suely (Nathalie Amaral) e Lívia (Daniela Vasconcelos), em momentos sucessivos, cruzam o caminho de Pedro trazendo a (falsa) centelha de que a Estônia pode de repente ficar mais perto do que se imagina.
Em pequenos momentos de escape, entram música & dança, mas a direção de Fernanda Rocha não permite maior transcendência do que essa. Não parece haver rota de fuga para eles. Os cinco atores, de fato, jamais deixam o palco. Sua presença física constante, em meio aos diálogos dos outros, serve tanto para quebrar o excessivo naturalismo de certas frases quanto para poeticamente deixar o palco cheio de pesos mortos. De tal forma que Pedro e Marília, cênica e emocionalmente, nunca se livram da presença do outro.
Diego Bresani providencia uma iluminação seca, como devem ser áridos os invernos estonianos. Sem permitir recortes de luz que possam interferir nesse tabuleiro humano, exceto dois breves fade out a marcar cenas, cabe aos atores se locomoverem às cegas num palco eternamente às claras. Eles contam com dois patamares de degraus, quatro caixotes e um pequeno platô para se equilibrarem. E rearranjam constantemente essas peças sobre o tablado, como uma dança de trocas de casais em que sempre alguém está sobrando. Dali não partem voos para a Estônia.
Até 4 de outubro. De quarta a sábado, às 19h, e domingo, às 18h, no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Esportivos Sul, Trecho 2, Lote 22; 3108-7600). Ingressos a R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). À venda na bilheteria do teatro (de quarta a segunda, das 13h às 21h). Classificação indicativa 10 anos.
