Rogério Duarte, mentor do tropicalismo, morre aos 77 anos
Artista foi diretor da União Nacional dos Estudantes (Une), compôs a trilha sonora de “A Idade da Terra”, de Glauber Rocha, e criou capas dos principais discos tropicalistas
atualizado
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Uma perda para as artes nacionais. Rogério Duarte, um dos mentores do movimento tropicalista, morreu nesta quarta-feira (13/4), às 21h, no Hospital Santa Lúcia, em Brasília. Ele tinha câncer ósseo e no fígado e já estava internado no local há 2 meses. Natural de Ubaíra (BA), Duarte se tornou figura-chave na efervescência cultural do Brasil nos anos 1960 e 1970.
Era artista gráfico, músico, compositor, tradutor e professor universitário. Foi diretor da União Nacional dos Estudantes (Une) e compôs vários trabalhos, entre eles, a trilha sonora do filme “A Idade da Terra”, de Glauber Rocha.
Durante a ditadura militar, foi preso e torturado por conta de sua militância. Nesse mesmo período, deu início a sua fase “transcendental”, estudando sânscrito e fazendo traduções do “Bhagavad-Gita”, texto religioso indiano.
Em “Abraçaço”, disco de Caetano Veloso lançado em 2013, o cantor e compositor baiano gravou uma música de Rogério, “Gayana”.
Trajetória
Nascido no interior da Bahia, em 1939, Rogério Duarte era um homem de multi-talentos. Dentre essas multi-tarefas, talvez, a de artista gráfico tenha se destacado mais. São deles os emblemáticos cartazes dos filmes “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Idade da Terra”, ambos de Glauber Rocha (1939-1981).
Considerado o mentor do tropicalismo nas artes gráficas, ele também criou capas de LPs marcantes para Gilberto Gil, Gal Costa e Caetano Veloso.
Há sete anos, teve parte das memórias registradas em “Encontros: Rogério Duarte” (Azougue Editorial), livro organizado por Sergio Cohn. Em novembro de 2015, o diretor Walter Lima lançou o documentário “Rogério Duarte, o Tropikaoslista”, que narra a trajetória do artista.
Ditadura
Em 1968, Rogério e seu irmão Ronaldo foram presos e torturado pelos militares por participarem de um protesto no Rio de Janeiro. O episódio ganhou ampla repercussão na mídia. O jornal carioca Correio da Manhã chegou a publicar uma carta coletiva pedindo a libertação dos “Irmãos Duarte”.
Salvador-Brasília
Anos se passaram e Rogério voltou para Salvador, cidade onde viveu até a década de 1960. Na capital baiana, tornou-se recluso, dedicando seu tempo a atividades do movimento Hare Krishna e à traduções de obras em sânscrito. É dele a primeira versão direta em português do livro “Bhagavad Gita”.
Com a saúde debilitada, Rogério veio para Brasília há poucos anos, para morar com a filha mais velha, Areia Duarte. Porém, a relação com a capital federal era bem mais antiga. Em 2011, ele lançou na cidade o livro “Gita Govinda — A Cantiga do Negro Amor”. Aqui, ele também foi diretor do Museu de Arte e professor do curso de desenho industrial, no Departamento de Artes da Universidade de Brasília – instituição que o prestigiou com o título de notório saber.
