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Em menos de um ano, três livros de poesias publicados, mais dois para serem lançados até o fim do ano e uma participação em feira na Alemanha. Este sucesso vem de uma editora independente de Brasília e São Paulo que chama atenção não apenas pela grande repercussão em pouco tempo, mas pela delicadeza do trabalho manufaturado na fabricação das obras. A Padê é um coletivo editorial formado em outubro de 2015 pela brasiliense Tatiana Nascimento e a paulistana Bárbara Esmenia que, em casa, editam e montam os exemplares de escritoras negras e LGBT.

Diagramar, imprimir, cortar, dobrar e costurar. A produção artesanal dos livros requer dedicação paciência e muito carinho para que o trabalho saia perfeito. “Eu escrevo fanzines a mais de 10 anos, gosto de escrever desde criança, então eu conheci uma editora argentina chamada Eloisa Cartonera que produzia livros com capas de papelão”, relembrou Tatiana, que além de editora também é escritora.

A Padê Editorial nasceu da vontade de seguir a lógica do “faça você mesmo”. Segundo Tatiana, fabricar os próprios livros garante a proximidade do processo criativo com o próprio autor. “A indústria da literatura que visa lucros altos detém as técnicas e o comércio dos livros. Fazer nosso próprio livro é uma forma de romper com esta estrutura e criar com mais liberdade”, ressalta.

 

 

“A Bárbara comprou uma impressora, então ela imprime o livro dela sozinha. Eu costumo enviar os outros para uma gráfica rápida perto de casa”. Os livros são impressos em papel reciclado e as capas geralmente são feitas por artistas, com diversas técnicas de ilustração. Foram três livros de poesias publicados até hoje que, juntos, formam a Coleção Odoiá. O primeiro foi o “{Penetra-Fresta}”,da Bárbara Esmenia, lançado em fevereiro deste ano. A capa, em estêncil, foi feita pela pela própria autora e sua companheira, Lais. O segundo foi o “(lundu,)”, de Tatiana Nascimento, com a ilustração da capa em xilogravura de Leonardo Freitas. O último, lançado em julho, foi “Interiorana”, da autora mineira Nívea Sabino, com capa em serigrafia da artista Júpiter Coroada.

A tiragem inicial foi de 300 exemplares para cada título, todos fabricados pelas próprias editoras. Os livros são catalogados na Biblioteca Nacional e possuem ISBN. Estão previstos para este ano ainda mais três livros de poesia e um de receitas. O valor da construção de cada exemplar varia de acordo com os materiais utilizados. “{Penetra-Fresta}”, por exemplo, impresso em sulfite reciclado, sai por R$ 15 e foi vendido inicialmente por R$ 25. “Não temos lucros altos por que todo o valor arrecadado é revertido para a próxima publicação”, conta Tatiana. A próxima obra se chamará “Sangue”, escrito pela poeta Nanda Fer Pimenta, da região administrativa de São Sebastião (DF).

 Giovanna Bembom/Metrópoles

Tatiana Nascimento exibe as três publicações da Padê Editorial

Confeccionar e participar de toda a linha de produção desde a impressão até a venda também está alinhado a alguns pensamentos político-sociais da Padê, selo que trabalha unicamente com autoras negras e LGBT. Para Tatiana, as pessoas com este perfil não têm muito espaço na indústria literária tradicional. “É um perfil editorial que visa reunir autoras lésbicas e negras de várias partes do Brasil, da América Latina e do mundo”, prevê Tatiana.

Recentemente, a Padê esteve em um evento em Viena, na Áustria, como parte do projeto Bobies of Knowledge, que reúne poetas voltados para a diáspora negra. Nesta ocasião, Tatiana e Bárbara fizeram contatos e amizades com pessoas de vários países, o que rendeu parcerias para uma coletânea a ser lançada no dia 26 de novembro, na Queeres Verlegen, uma feira voltada para o público queer que acontecerá na Alemanha. Nesta coletânea haverá textos de autoras da América, Caribe, África e Europa. Ao todo, serão 12 poetas negras de várias partes do mundo que darão sua contribuição para a obra editada pela Padê.

“A gente que vive de arte é uma luta constante para nos mantermos. Eu achei um luxo ir para a Europa com o meu trabalho e ainda ser remunerada em euro por isto”, brinca Tatiana ao comentar sobre o prazer e as dificuldades em manter uma editora independente e artesanal em Brasília.

 

 

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