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Personagens diante de crises pessoais e sociais deram o tom da primeira noite de mostra competitiva do 49º Festival de Brasília. O curta “Ótimo Amarelo” (BA) narra com bom humor o retorno de um personagem a Salvador, entre andanças pela cidade e áudios de WhatsApp endereçados a amigos.

Única animação no certame, “Quando os Dias Eram Eternos” (SP) ilustra o drama de uma mãe à beira da morte na companhia do filho. Por fim, o longa-metragem “Rifle” (RS) deixou o público do Cine Brasília tenso ao mostrar o embate entre um jovem solitário do interior e ameaças do agronegócio.

Leia críticas dos filmes exibidos nesta quarta (21/9), no 49º Festival de Brasília:

“Rifle” (RS, foto no alto), de Davi Pretto: um faroeste brasileiro
Com uma estética naturalista e quase documental, o longa gaúcho narra uma série de situações extremas ambientadas no Brasil rural. Mais curioso ainda é perceber como o filme parte das tensões entre agricultura familiar x agronegócio para compor um personagem enigmático, dono de angústias misteriosas e capaz de atos abruptos de violência.

Dione, um jovem interiorano do Rio Grande do Sul, é abordado certo dia na cerca da propriedade pelo que parece ser um empresário. Ele revela interesse pelas terras. É a modernização se avizinhando de uma família simples. A namorada de Dione até prefere que as terras sejam vendidas. O pai dela, aqui e ali, também dá sinais de cansaço.

Divulgação

O que começa como uma espécie de “Aquarius” rural – um personagem desconfia do progresso, resiste à especulação imobiliária e sofre as consequências dessa escolha – logo se transforma num interessante exercício de gênero. Pois Pretto está mais interessado em expedientes pessoais do que sociais. Há uma longa sequência em que Dione, depois de tanto alisar o rifle, protagoniza uma sequência de filme de ação.

Ele ainda não sofreu nenhuma nova abordagem ou assédio dos figurões que desejam adquirir as terras. Mesmo assim, Dione ajeita a mira e atira em carros que trafegam pelos arredores. Dentro de uma fabricação de filme de suspense, Pretto encontra a medida certa para um faroeste minimalista de defesa de forte.

Entre caminhadas solitárias e contradições pessoais, “Rifle” funciona como a crônica de um pária perdido entre a cidade e o campo. Apesar de certas arestas de roteiro, Pretto consegue transcender o mero registro de fundo social e formar uma narrativa que se equilibra bem entre o naturalismo regional e os elementos de filme de gênero (Felipe Moraes).

Avaliação: Bom

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“Ótimo Amarelo” (BA), de Marcus Curvelo: o tempo e o vento
O cinema é cheio de histórias sobre o retorno de um exilado à sua terra natal, e este filme baiano é uma meditação sobre um jovem que aterrissa em Salvador e tenta encontrar seus antigos amigos. Para ele, a visita revive velhas memórias. Uma delas é a contratação do atacante Bebeto pelo Esporte Clube Vitória em 1997. Mas assim como na vida do ídolo, o tempo passou e o que ficou não é o mesmo.

“Ótimo Amarelo” contrapõe as promessas de líderes e ídolos com a necessidade das pessoas de crer neles, mesmo que, enquanto o tempo passa, elas vão sendo deixadas para trás. As praias encantadoras e marcos culturais como A Casa de Iemanjá sofrem intervenções de máquinas de construção. ACM Neto discursa após ser eleito prefeito. O protagonista vê um outdoor com a irmã do amigo, que passou em primeiro lugar na USP (será ela uma futura líder ou ídola?), e deixa um recado de WhatsApp para o amigo sobre o fato de que ele nunca apareceu num outdoor.

Uma imagem de Bebeto sorrindo enquanto a multidão que o cerca fica fora de foco serve como mais uma promessa vazia de um futuro imaginário (Luiz Oliveira).

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“Quando os Dias Eram Eternos” (SP), de Marcus Vinicius Vasconcelos: a dor da partida
Esta animação paulista ignora diálogos e usa apenas música e efeitos sonoros para expressar os últimos momentos da vida de uma mulher. Debilitada, é incapaz de se cuidar com independência, e para isto conta com a presença da filha. O filme apresenta-se em uma série de diferentes planos existenciais.

No primeiro, a rotina do cuidado diário da mãe pela filha. No segundo, o corpo da mãe se exulta e se espreguiça com a liberdade da morte. E num terceiro, uma jovem criança, que nunca contou com o espectro fúnebre da morte, aprende a lidar com ela. “Quando os Dias Eram Eternos” funciona mais como um exemplo de animação belíssima, feita cuidadosamente à mão, e de trilha sonora, mesclando música e personagens com os sons de rabisco de um lápis encantado (Luiz Oliveira).

 

 

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