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O primeiro ano da morte do camaleão do rock, David Bowie — falecido em 10 de janeiro de 2016 — é lembrado com a exibição nacional de sua estreia como ator. Trata-se da ficção científica “O Homem Que Caiu na Terra” exibido em cópia digital restaurada e com cenas inéditas num horário ingrato no Cine Brasília. Talvez por conta da concorrência pesada do britânico Ken Loach e do iraniano “O Apartamento”.

Quando topou fazer o filme de Nicolas Roeg, em 1975, Bowie já era um dos deuses da cena glam rock. Mais do que isso, havia fixado no inconsciente popular sua figura andrógina e personas espaciais como Ziggy Stardust e Aladdin Sane. Vivendo em Los Angeles, a base de uma dieta radical e entupido de cocaína, o astro pop aceitou viver um extraterrestre de cabelos alaranjados que vem à Terra em busca de água para seu planeta.

Assim, dotado de poderes alienígenas, ele se disfarça como o empresário Thomas Jerome Newton, milionário detentor de várias patentes e de um plano megalomaníaco. A ideia é construir um poderoso programa espacial que lhe permita salvar sua raça da seca. Bem, o roteiro é meio confuso e mirabolante até para os padrões de produções do gênero. Mas era um filme com David Bowie e ponto final.

Clássico Cult
É impossível assistir ao filme e não se lembrar dos personagens que Bowie criou ao longo da carreira. O primeiro que vem à mente é o Major Tom do clássico álbum “Space Oddity”, disco de estreia de 1969 — um astronauta perdido na solidão espacial tentando voltar para casa. Já o starman Ziggy Stardust era uma criatura do outro mundo que chega à Terra com a missão de salvá-la e é hipnotizado pelo rock.

Em “O Homem Que Caiu na Terra”, tudo dá errado. Descoberto pelos terráqueos, seu plano naufraga e ele vira objeto de estudo de cientistas e médicos, ao mesmo tempo em que vive um complicado relacionamento com a camareira Mary-Lou (Candy Clark, então namorada do diretor). A única forma de contato com a família é o disco “The Visitor”, que gravou na esperança que seu pedido de socorro seja ouvido pelas ondas sonoras do rádio.

Alçado à condição de filme cult com o passar dos anos, a fita, com seus efeitos especiais rudimentares, chocou puritanos na época com as “fortes” cenas de nudez de Bowie e de sua namorada na trama. Impagável, por exemplo, a sequência de bang bang dos dois nus na cama. A montagem confusa não ajuda em nada o enredo esquisitão que traz nas entrelinhas preocupação ecológica e críticas à televisão.

Diretor de fotografia de sucesso, que chegou a filmar o clássico de ficção científica de Truffaut, “Fahrenheit 451” (1966), Nicolas Roeg já tinha feito de Mick Jagger ator em 1970 quando estreou atrás das câmeras no filme “Performance”. Em “O Homem Que Caiu na Terra”, ele cria uma áurea pop-rock não apenas convidando Bowie como protagonista, mas escolhendo o ex-líder dos The Mamas and The Papas como diretor musical.

Um adendo delicioso. Enquanto filmava no Novo México, Bowie aproveitou para escrever as canções de seu próximo álbum, o formidável “Station To Station”, cuja capa, foi extraída de uma cena do filme.

Avaliação: Bom

 

 

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