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Carol começa com uma cena que poderia ser um curta-metragem incrível: a jovem e ingenua Therese (Rooney Mara), com um gorro de Papai Noel na cabeça, está trabalhando na seção de bonecas de uma loja de departamento nova-iorquina. Seu olhar cruza com o de Carol (Cate Blanchett), uma socialite impecável, envolta por um casaco de pele. Carol está na loja para comprar um presente para sua filha e, num sutil exemplo das várias trocas de gêneros, acaba comprando um trenzinho em vez de uma boneca. Carol não está tão interessada na escolha do presente, mas sim, com um olhar de predadora, na tímida menina do balcão de vendas. O que se dá é o início de uma sedução, construída e executada com perfeição. Que ela ocorre dentro de uma loja, cinicamente montada para atrair o consumo natalino, é a primeira metáfora de que Therese e Carol passarão o filme tentando ser autenticas num mundo de construções sociais.

Ao final da compra, Carol espertamente esquece suas luvas, dando uma razão para Therese entrar em contato. É na personagem de Carol que o filme acerta—em vez de assistirmos uma dona-de-casa reprimida por si mesma, o maior clichê de auto-descoberta do cinema, assistimos uma sedutora mais velha, completamente confortável com si mesma, mostrar as garras. Cate Blanchett está longe da socialite neurótica de Blue Jasmine, filme de Woody Allen que lhe rendeu o segundo Oscar, mas aqui está melhor e tem uma enorme chance de faturar mais prêmios.

A recriação dos anos 50 também é executada com perfeição, mas Todd Haynes já tem bastante experiencia no período. Fã do melodrama e de Douglas Sirk, Haynes tem duas outras passagens pelos anos 50: o drama Longe do Paraíso e a mini-série da HBO Mildred Pierce. Também já trabalhou com Cate Blanchett, colocando-a como um de vários Bob Dylans no excellente Não Estou Lá. Seu toque na direção é intimista e bem mais preocupado com personagens do que enredo. Talvez esteja aqui o problema de Carol. Alguma hora, uma complicação tem de surgir, e quando esta aparece, parece forçada.

O maior conflito está no casamento de Carol com Harge (Kyle Chandler) que, em vez de ser o típico marido bobão, alheio à vida interior de sua esposa, conhece muito bem as proclividades de Carol. Intolerante dos vários casos de sua esposa com outras mulheres, Harge sempre a ameaça com a separação e a subsequente perda da guarda de sua filha ainda criança. Esse é o risco que Carol corre ao seduzir Therese, mas o filme não apresenta o relacionamento entre mãe e filha. Subsequentemente, é difícil se importar com esta ameaça. É possível que Haynes tenha escolhido focar exclusivamente no romance por que o sentimento de mãe já é considerado sagrado, e assim já nos importaríamos com a filha de Carol. Mas passamos muito tempo com Therese, a personagem menos interessante deste par e que tem bem menos a perder do que com Carol, uma mulher tão forte e interessante que até dá o nome ao filme.

 

 

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