Paciente com câncer no cérebro expõe via-crúcis em busca de tratamento no DF
Série de reportagens #ProntuárioEsperança mostra, a partir do olhar de pessoas que lutam para alcançar a cura, as brechas no sistema de saúde
atualizado
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O Metrópoles acompanhou durante dois meses a via-crúcis de Célio Teles, 39 anos, morador de Taguatinga, diagnosticado com câncer no cérebro. Um enredo que não é muito diferente do de milhares de brasilienses que buscam tratamento de saúde. Ao contarmos a história de Célio e de outras pessoas, vamos mostrar o que os hospitais do DF, públicos ou privados, têm – e não têm – a oferecer aos moradores da cidade. Os internautas vão conhecer a realidade da rede pública pela ótica do paciente. O leitor terá acesso a histórias tristes e outras com finais felizes. Tudo vai depender do tratamento que esse paciente receber enquanto estiver doente.
“Vamos desistir! Não aguento mais!” O desabafo do auxiliar de serviços Célio Teles, 39 anos, revela que pacientes com câncer no Distrito Federal têm que ter muito mais do que fé e determinação para vencer a doença. Além de enfrentar a batalha contra a propagação das células doentes, que vão consumindo o corpo e a energia minuto a minuto, estão entregues à própria sorte quando dependem dos serviços e equipamentos da rede pública de saúde.

Célio recebeu o diagnóstico de câncer no cérebro em 2013. Desde então, luta para conseguir um tratamento digno e em tempo suficiente para salvar a sua vida. Mas dois anos depois, já não tem mais forças. Nesse período, perambulou por três hospitais públicos, aguardou meses para fazer uma ressonância, e precisou recorrer à Justiça para conseguir iniciar a quimioterapia. Tantas idas e vindas permitiram o avanço da doença. A esperança do auxiliar de serviços e da família está por um fio.
Em um período de dois anos, Célio inchou por conta dos remédios, ganhou 30 quilos, está com problemas nos rins e fígado. As palavras foram se perdendo. Fala apenas o necessário e evita fazer esforço. Cada vez mais fica desorientado e não consegue andar sem estar amparado em alguém.
Hoje, Célio conta com o apoio incondicional da mulher, Vanessa, 36 anos, para viver. É ela quem o ampara. Tarefa nada fácil, já que ela tem apenas 1,60m e 64 quilos e o marido, 90 quilos e mais de 1,70m. A visão, audição e o movimento das pernas e braços foram comprometidos com a progressão do câncer. E as constantes viagens até hospitais, postos de saúde, Defensoria Pública e farmácias da rede pública em busca de medicamentos, além do longo tempo de espera a cada consulta, quase confirmam a sensação de incerteza da mulher quanto ao futuro.
Um dia após o outro
“Evito pensar no amanhã”, diz Vanessa. Segurando uma bolsa pesada e guardando exames em uma robusta sacola, ela conta todo o histórico da doença do marido. É o prontuário ambulante. A mulher, uma servidora pública comissionada, está empenhada em salvar a vida do marido, pai de seus dois filhos. Ela aprendeu a viver um dia após o outro e se tornou uma guerreira em defesa de sua família. Não se apequena diante da missão de conseguir o tratamento de Célio. “Tivemos que acionar a Justiça duas vezes para obter remédios. E vamos recorrer quantas vezes precisarmos”, afirma.
Vanessa admite que já pensou em vender a casa e o carro da família para custear o tratamento.Só para conseguir o Temodal, para seis ciclos de quimioterapia, precisaria desembolsar R$ 64,5 mil. “O problema é que não temos onde morar e precisamos do carro para ir e vir com o Célio”, resigna-se.
Insistência
Além da Justiça, a determinação da mulher tem sido um verdadeiro remédio em algumas situações, vencendo a Secretaria de Saúde “pelo cansaço”. “Mesmo com a decisão judicial, fazia de 14 a 16 ligações por dia para cobrar o medicamento. Chegaram a me informar que eu teria que esperar até um ano para conseguir, mas não desisti. Em 50 dias, conseguimos o Temodal”, lembra.
Mas nem sempre a insistência e o amparo judicial funcionam. Atualmente, Célio faz quimioterapia apenas com um dos medicamentos necessários. E o câncer só aumenta, para desespero de Vanessa e dos filhos.
Consultado pelo Metrópoles, o oncologista Sandro Martins confirma que casos como o de Célio são preocupantes, porque a demora no tratamento agrava a saúde do paciente: “O ideal é que a quimioterapia ou radioterapia sigam dentro de uma periodicidade; se o processo é interrompido por algum motivo, outros sintomas podem aparecer. A chance de cura pode ir a zero devido ao longo tempo de espera do paciente para obter os medicamentos”.

Celião não é mais o mesmo
Quem conhece Célio há mais tempo custa a acreditar como a doença evolui e tira a energia do auxiliar de serviços a cada dia. O carisma e a alegria, marcas registradas, permanecem apenas na lembrança e nas fotografias que Vanessa faz questão de guardar no celular e olhar algumas vezes no dia, quando ela pensa em desistir. Nas salas de espera, das consultas ou na Defensoria Pública, ela se orgulha ao lembrar o quanto o marido ajudava todos.
“Podiam chegar de madrugada lá em casa que ‘Celião’ levantava para receber. Se tinha pouca coisa na geladeira, ele fazia farofa de ovos. Todos amavam”, disse, ressaltando outras especialidades do homem na cozinha, como a tradicional galinha caipira e o peixe assado. A família sempre viveu de forma humilde, mas com muitos motivos para celebrar. Faziam o possível para sair aos fins de semana, viajar para Goiás e, claro, conhecer muitas cachoeiras, paixão de Célio.
Os dois filhos do casal, Ítalo, de 17 anos, e Lucas, 13, tiveram que aprender a viver com a ausência dos pais. O mais novo é menor aprendiz e recebe R$ 500 por mês, dinheiro que ajuda a mãe nos gastos de casa. Ítalo participa de um projeto da Universidade de Brasília (UnB). “Eles fazem almoço enquanto estamos fora, nos ajudam em tudo”, conta Vanessa. O drama do pai mexe, também, com o emocional dos filhos. Lucas começou a tirar notas baixas na escola. “Ele fica muito preocupado com a saúde do pai, E, ao mesmo tempo, nos bate a sensação de impotência, por não poder fazer muita coisa para resolver”, conta Vanessa.
Solidariedade
Se o carro costumava sair da garagem para passeios em família, agora, o veículo é conduzido por um amigo de Célio. O itinerário não muda, de casa para hospitais e clínicas: quando sobra tempo, almoçam em um restaurante por quilo próximo aos centros de saúde. A solidariedade dos amigos vai além. A família sorteou uma televisão e conseguiu R$ 11 mil, dinheiro que tem ajudado nos gastos com alimentação, combustível e outros remédios.

É uma via de mão dupla, já que Vanessa encontra forças para ajudar também. As constantes idas aos hospitais fizeram com que mulher passasse a conhecer alguns pacientes e seus familiares, dividindo o fardo de lidar com a doença. Curiosa, lê diagnósticos e encaminhamentos e dá indicação de profissionais da rede pública que, em sua opinião, realizam ótimo trabalho.
Em uma das consultas, ela levou exames para o médico avaliar se o tumor havia crescido, mas logo no início adiantou: “Doutor, acho que tem algo errado aí”. E tinha. As medidas do tumor relatadas no laudo não batiam com a imagem da ressonância. Em meio a tanta dor e desesperança, ela consegue um breve momento de descontração: “Estou quase me especializando em medicina”.
Infográfico: Joelson Miranda
