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O material metálico de 53 centímetros deixado na jugular da principal vítima da máfia das próteses que agia no Distrito Federal foi apenas uma das formas de tentar calar para sempre a testemunha. O Metrópoles teve acesso exclusivo a detalhes da investigação que apontam uma segunda tentativa de homicídio contra a mulher, de 34 anos. Homens invadiram a casa dela e aplicaram uma injeção em sua veia, que deveria ter sido letal.

A nova tentativa de homicídio ocorreu na madrugada do dia 14 de agosto, por volta de 5h, enquanto a vítima dormia. Os suspeitos entraram na casa pulando o muro e surpreenderam Ana (nome fictício) enquanto ela dormia. A substância foi aplicada e algum tipo de tubo colocado em seu nariz. Às 5h50, policiais da Divisão Especial de Combate ao Crime Organizado (Deco) foram acionados e chegaram até a residência da vítima.

Os investigadores notaram as marcas de agulha no braço da testemunha e começaram a trabalhar na hipótese de “queima de arquivo”. Ana guardava em sua casa uma série de documentos que incriminavam médicos, funcionários de hospitais e empresas fornecedoras de órteses, próteses e materiais especiais (OPMEs). Provas que envolviam todos num grande esquema criminoso.

Tratava-se de prontuários médicos, ordens de pagamentos e pedidos de compra de materiais desnecessários para a realização de cirurgias. Os papéis, que confirmavam o superfaturamento de muitas intervenções cirúrgicas, sumiram da casa da testemunha.

Reprodução

Material encontrado na jugular da testemunha

 

Os investigadores pegaram as gravações feitas por câmeras de segurança instaladas em casas vizinhas e que flagraram a passagem insistente de um veículo na frente da residência de Ana. As imagens estão sob análise da Deco. Após ser socorrida, a mulher foi levada para o Instituto Médico Legal (IML) e foi submetida a exames toxicológicos, passando a ficar sob escolta da polícia. A ação dos criminosos acabou adiantando o desencadeamento da operação Mister Hyde, deflagrada na última quinta-feira (1º/9).

A primeira cirurgia da mulher no Hospital Home foi em dezembro de 2014. Ela havia dado um mau jeito na coluna e fez 10 sessões de fisioterapia. Sem avanço na recuperação, a equipe médica do hospital sugeriu o procedimento, com a colocação de quatro parafusos e duas placas na coluna. “Tive infecção e, em janeiro, fiz o segundo procedimento. Depois, em um ano, fiz outras quatro cirurgias. No fim do ano passado, em uma delas, foi deixado o fio na minha jugular”, contou.

A reportagem procurou o advogado da testemunha, Jean Cleber Garcia – que defende outras três vítimas da máfia das próteses –, mas ele preferiu manter o assunto sob sigilo. “Só posso dizer que estamos acompanhando o caso de perto e ajudando as investigações com todas as informações possíveis”, resumiu.

O esquema
Segundo a investigação dos promotores e dos policiais civis, o grupo usava os procedimentos cirúrgicos para ganhar cada vez mais dinheiro. Entre as 13 pessoas presas na Operação Mister Hyde, estão médicos e representantes de empresas fornecedoras de órteses, próteses e materiais especiais (OPMEs). Destas, cinco foram soltas na sexta (2/9).

Segundo as investigações, cerca de 60 pacientes foram lesados em 2016 somente por uma empresa, a TM Medical. O esquema teria movimentado milhões de reais em cirurgias, equipamentos e propinas. Há casos de pacientes que foram submetidos a procedimentos desnecessários, como sucessivas cirurgias, para que gerassem mais lucro aos suspeitos. Em outros, conforme revelado pelas investigações, eram utilizados produtos vencidos e feita a troca de próteses mais caras por outras baratas.

 

 

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