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O que você faz ao pegar aquele pote de iogurte na geladeira e constatar que o prazo de validade está vencido? Teria coragem de comê-lo? E se, antes de tomar algum remédio você perceber que a data indicada na embalagem expirou? Arriscaria a própria saúde? Provavelmente, não. O problema é quando o bordão “o que os olhos não veem o coração não sente” é aplicado por órgãos públicos que deveriam zelar pelo bem-estar da população. Durante os 89 dias de greve dos servidores da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), a empresa utilizou material vencido para desinfetar a água que abastece pelo menos duas regiões do DF: Paranoá e Itapoã.

Pelo menos até 12 de agosto deste ano, a Caesb usou dezenas de barris da substância hipoclorito de sódio com o prazo de validade vencido. O material é usado para desinfetar a água e exterminar uma série de micro-organismos, como a bactéria da salmonela, que pode levar à morte.

A denúncia a que o Metrópoles teve acesso com exclusividade foi feita pelo Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Distrito Federal (Sindágua-DF). A ação foi descoberta por sindicalistas que flagraram o lote vencido dentro da estação de abastecimento que funciona no Paranoá. Fotos e vídeos registrados em agosto mostram as etiquetas com prazo de validade estipulado em 24 de julho — data-limite para o uso da substância, altamente volátil.

Toda a população de 116 mil pessoas que vivem no Paranoá e no Itapoã pode ter consumido o produto. No entanto, o servidor que registrou as imagens fala, no vídeo abaixo, que existiam lotes vencidos espalhados por outras unidades de abastecimento da Caesb

 

Risco à saúde da população
Ao serem questionados pela reportagem sobre os possíveis riscos à população, engenheiros e químicos ficaram horrorizados com o caso. O especialista em saneamento pela Universidade de Brasília (UnB) Marco Antônio Almeida Souza explica que o maior perigo do hipoclorito de sódio vencido é quando o material passa a conter impurezas que se tornam tóxicas.

Esse produto pode perder a validade como desinfetante e oxidante e não executar sua função que é livrar a água de substâncias como coliformes fecais e bactérias"
Marco Antônio Almeida Souza, especialista em saneamento

A engenheira ambiental Beatriz Barcelos, da Universidade Católica de Brasília (UCB), reforça a opinião do colega. Para ela, “não é recomendável, em hipótese alguma, utilizar produtos vencidos para desinfetar água que será consumida pela população”.

 

 

Caesb alega que não havia risco à população
Ao ser questionada pelo Metrópoles sobre a denúncia, a Caesb admitiu que utilizou lotes vencidos de hipoclorito de sódio para tratar a água fornecida à população do Paranoá e do Itapoã. No entanto, assegura que a saúde dos moradores não correu risco.

Segundo Cláudia Morato, engenheira química da companhia, “o laboratório central da Caesb realizou exames e comprovou que a água estava própria para consumo. Portanto, o material vencido não colocou em risco a qualidade da água distribuída pela estação”. Ainda de acordo com Cláudia, “em virtude da greve, pedimos um estoque maior dessa substância para não prejudicar o abastecimento”.

Por meio de nota enviada ao Metrópoles, a assessoria de imprensa da Caesb também contestou a opinião dos especialistas. Para a companhia, “o hipoclorito de sódio não se torna um produto descartável, que não possa ser utilizado, apenas tendo por referência a data de vencimento”.

Confira a nota na íntegra:

“A Caesb informa que não procede a denúncia de supostos riscos pelo uso do produto hipoclorito de sódio com data de validade vencida. Ao contrário de alimentos, o hipoclorito de sódio não se torna um produto descartável, que não possa ser utilizado, apenas tendo por referência a data de vencimento. No caso deste produto, para sua utilização com data de validade vencida, foram realizadas análises laboratoriais pelo laboratório central da Caesb, sendo constatado que ainda permanecia de acordo com as especificações técnicas, ou seja, com as propriedades físico-químicas necessárias para seu uso.

Esse produto é empregado para desinfecção da água e a sua utilização somente é realizada após rígido controle da qualidade e na quantidade necessária. Todos os produtos químicos utilizados pela Caesb passam por rigoroso controle do Laboratório Central da Companhia. A água tratada e distribuída para a população é submetida a controle permanente e contínuo de qualidade, de acordo com o estabelecido na Portaria n° 2.914/2011, do Ministério da Saúde.

Divulgar notícia tendenciosa e sensacionalista sobre a utilização de produtos químicos pela Caesb, bem como sobre a qualidade da água distribuída à população, é uma afronta aos serviços prestados com qualidade pela Caesb, reconhecidos no plano nacional e internacional e que têm cuidados, zelos e preocupações com a saúde pública da população.”

 

 

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