*
 

As raízes do médico e empresário Mouhamad Moustafa com o Distrito Federal são mais profundas do que o revelado até agora. Acusado de liderar um esquema criminoso que teria desviado recursos públicos da saúde amazonense, o homem que tenta trazer suas organizações sociais (OSs) para gerir unidades hospitalares em Brasília tem carros de luxo, imóveis de alto padrão e até mesmo um hangar com espaço para duas aeronaves na capital da República. Preso em Manaus durante a Operação Maus Caminhos, da Polícia Federal, em 20 de setembro, Moustafa investiu pesado na campanha do governador Rodrigo Rollemberg (PSB) em 2014, quando três de suas entidades doaram um total de R$ 600 mil à corrida eleitoral do socialista.

Com interesses políticos e patrimônio robusto em Brasília, Moustafa não gostava de perder tempo quando precisava se deslocar entre a capital amazonense e o DF. Para tanto, usava um jato de propriedade da Rico Táxi Aéreo, empresa que faz o nome do governador cruzar mais uma vez com os negócios do médico e empresário. A Rico Táxi Aéreo, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), doou R$ 500 mil para a campanha do socialista em 2014. No mesmo ano, três OSs de Moustafa, a Total Saúde Serviços Médicos e Enfermagem Ltda., a Sociedade Integrada Médica do Amazonas (Simea) e a Salvare Serviços Médicos, transferiram à campanha do socialista, respectivamente, R$ 300 mil, R$ 150 mil e R$ 150 mil.

TSE/Reprodução

O hangar de Moustafa é um dos galpões do Aeródromo Botelho, que fica em uma área afastada de São Sebastião. No local, há uma pista de pouso para aeronaves de pequeno porte. Para chegar à área, é preciso cruzar uma estrada de terra batida. No aeródromo, o médico e empresário que mora em Manaus é figura conhecida. “Ele costumava vir com bastante frequência, mas tem umas duas semanas que não aparece”, contou um funcionário, que pediu para não ter o nome divulgado. O homem não sabia que Moustafa havia sido preso.

 

Carros de luxo
Quando estava em Brasília, Moustafa gostava de circular em carros de luxo. Aficionado pela montadora alemã Porsche, ele tem ao menos dois modelos que ficam à disposição. Um utilitário branco fica estacionado em um estacionamento privado no Lago Sul (veja foto abaixo). Um conversível prata fica na garagem de um apartamento de luxo do empresário no Setor Sudoeste.

Moustafa tem dois filhos, um menino de 6 anos que mora com ele em Manaus e uma menina de 5 que mora com a mãe em Brasília. A mais nova está matriculada simultaneamente em escolas da capital federal e de Manaus, e passa uma semana aqui e outra na Região Norte. Os deslocamentos são sempre feitos de jatinho.

À frente, Porsche de Moustafa em estacionamento no Lago Sul

 

Cantores sertanejos e Mulher Melão
Mouhamad Moustafa tem negócios ecléticos. Além das OSs que prestam serviço na saúde pública de Manaus, ele comercializa shows de sertanejos famosos. Segundo investigadores da Operação Maus Caminhos, o médico usaria uma empresa de eventos para lavar dinheiro. Por essa razão, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na sede da AudioMix, uma produtora musical.

A produtora é uma empresa especializada no gerenciamento da carreiras de grandes nomes da música sertaneja da atualidade. Entre eles, Jorge e Mateus, Matheus e Kauã, Israel Novaes, Simone e Simaria, Guilherme e Santiago. A AudioMix é a criadora do selo Villa Mix — festival de sertanejo que circula por todo o país — e ainda vende shows do cantor Wesley Safadão nas regiões Sul e Sudeste.

Internet/Reprodução

Mouhamad Moustafa

 

Conforme a Polícia Federal, Marcos Aurélio Araújo, proprietário da produtora AudioMix, prestou depoimento na sede da corporação em Goiânia no último dia 20, na condição de testemunha. A Polícia Federal quis saber qual a relação comercial de Marcos com o empresário Mouhamad Moustafa, que teria porcentagem em quatro artistas sertanejos da AudioMix.

Moustafa chegou a ser filmado em camarotes durante shows sertanejos. Em um deles, o médico estava ao lado da artista conhecida como Mulher Melão (veja vídeo).

 

OSs no DF
Um dos maiores defensores da terceirização da saúde no DF, Moustafa tenta conseguir a qualificação de suas OSs na capital federal para começar a atuar na região.

Duas das entidades que o empresário tem — a Simea e a Salvare — formam o Instituto Novos Caminhos (INC). É com esse nome que elas trabalham para conquistar fatias de mercado que podem surgir no DF com a instalação local das OSs, caso o Buriti consiga o aval da Câmara Legislativa.

Já há inclusive processo de qualificação protocolado na Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplag) em 27 de novembro de 2015. Agora, entretanto, Moustafa deve esbarrar em obstáculos e dificilmente conseguirá qualificar as OSs no Distrito Federal para receber recursos públicos pagos pelo contribuinte brasiliense.

Por meio de nota, o GDF disse que “lança editais para a qualificação de organizações sociais em várias áreas. A qualificação é realizada de forma técnica e impessoal e inclui análise de documentação, avaliação técnica e a comprovação de idoneidade da OS”. Ainda segundo a nota, “o governador Rodrigo Rollemberg não possui qualquer vínculo com as empresas e pessoas citadas”.

O esquema
Em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Receita Federal, a Polícia Federal do Amazonas deflagrou a Operação Maus Caminhos, no último dia 20, com o objetivo de desarticular uma organização criminosa especializada no desvio de recursos públicos do Fundo Estadual de Saúde do Amazonas.

As investigações constataram que o Instituto Novos Caminhos concentrava repasses vultosos feitos pelo Fundo Estadual. De abril de 2014 a dezembro de 2015, foram repassados ao INC mais de R$ 276 milhões. A estimativa dos investigadores é que ao menos R$ 123 milhões acabaram desviados. Desse montante, segundo a PF, R$ 76 correspondem a repasses à Salvare, R$ 40 à Simea e R$ 7 milhões à Total Saúde.

De acordo com a PF, o dinheiro desviado proporcionava aos investigados uma vida de ostentação e possibilitava a aquisição de bens móveis e imóveis de alto padrão, como mansões, veículos importados de luxo e até mesmo um avião a jato e um helicóptero, que foram apreendidos pela polícia.

A operação foi executada nos estados de Amazonas, São Paulo, Goiás e Minas Gerais, além do Distrito Federal, por 185 policiais federais, 35 servidores da CGU e 50 servidores da Receita Federal. Os investigados responderão pela prática dos crimes de organização criminosa, falsidade ideológica, peculato, fraude licitatória e lavagem de capitais. Além de Moustafa, foram presas 12 pessoas na ação do dia 20.

O advogado de Moustafa não foi localizado para comentar o caso.

 

 

COMENTE

Organizações Sociaismaus caminhosMoustafa
comunicar erro à redação