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Quando o time genial da Marvel Comics, composto por ninguém menos que Stan Lee e Jack Kirby, criou o super-herói Pantera Negra em 1966, sabiam exatamente onde estavam pisando. A popularidade da editora era maior do que nunca e as pressões dos movimentos civis afro-americanos — o Ato dos Diretos Civis, proibindo por lei a segregação entre brancos e negros nos Estados Unidos, fora instaurado em 1964 — demandavam urgentemente a representatividade. Era chegada a hora de surgir um astro negro.

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Primeira aparição do Pantera, por Lee e Kirby

 

Em fevereiro de 2018, 52 anos depois, o “Pantera” chegará finalmente às telas de cinema em um filme solo via Marvel Studios, uma aguardadíssima produção com uma constelação de astros: Chadwick Boseman (interpretando o Pantera), Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Martin Freeman, Forest Whitaker, Andy Serkis, entre outros. Quem viu a estreia de Boseman em “Capitão América: Guerra Civil” sabe que a coisa promete.

 

Chadwick Boseman como o Pantera

 

De fato, o Pantera foi o primeiro personagem negro dos quadrinhos a possuir super-poderes. Kirby o concebeu com um uniforme clean, todo preto, que remete ao animal que inspira o nome do herói, além, é claro, de sua raça. Este fator, além do “negro” no nome do personagem, pode parecer redundante ou caricato para os padrões de hoje, mas esbanjava ação afirmativa em 1964. Há quem diga que a alcunha do famoso grupo político Panteras Negras, formado pouco depois, teve influência da Marvel.

O Pantera Negra é T’Challa, herdeiro do reino de Wakanda, um país fictício e secreto da África equatorial. Seus poderes (super-força e incríveis habilidades felinas) vêm de uma também secreta tradição religiosa, que passa o manto do Pantera a cada geração (lembrando o Fantasma).

Em Wakanda, a tradição (primeiramente estereotipada; depois melhor contextualizada) convive com a mais alta tecnologia do mundo. Inocentemente, mas intuitivamente contemplando o zeitgeist moderno, Lee e Kirby pensaram na África como união da tradição cultural que precisa ser preservada com a capacidade utópica de civilizar que a modernidade possui. Atropelando estereótipos, o Pantera tornou-se um super-herói como nenhum outro.
REPRODUÇÃO;MARVELDigo isso porque, ao que parece, o filme será uma adaptação da saga “A Ira do Pantera” (“Panther’s Rage”), a mais clássica e transformadora do personagem, e um dos maiores êxitos artísticos da Marvel. Ela foi escrita entre 1973 e 1976 para a revista (sic) “Jungle Action”, que até então publicava chistes colonialistas no estilo Tarzan.

O responsável pela inversão de sentido no título foi o roteirista Don McGregor, então um novato na Marvel, que teve ideias e liberdade para aplicar sua educação como “baby boomer” em histórias progressistas fortemente arrojadas e literárias. Sem exageros, esta saga não fica atrás do prestigiado “Demolidor” de Frank Miller.

“A ira do Pantera” foi ilustrada primeiramente por Rich Buckler e depois pelo afrodescendente Billy Graham, que foram incorporando realismo gráfico à intensidade psicológica da pena de McGregor. Vale lembrar também a arte-final do genial Klaus Janson, que trabalharia mais tarde com Miller no mítico “Batman: o Cavaleiro das Trevas”.

O uniforme do Pantera foi redesenhado para algo ainda mais limpo e ergonômico, tornando-se um dos mais elegantes dos quadrinhos. A história gira em torno do retorno de T’Challa a Wakanda, após sair do país para fazer parte dos Vingadores. O que ele encontra é uma nação dividida e um grupo de rebeldes, liderados pelo robusto Erik Killmonger, disposto a tomar o poder do “ocidentalizado” T’Challa.

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O Pantera por Billy Graham

Edição após edição, “A Ira do Pantera” vai se tornando uma jornada íntima de T’Challa ao inferno. O elenco de personagens, todo negro, e o desenvolvimento literário dos coadjuvantes fez com que essa fosse a mais significativa história protagonizada por negros no segregado espaço dos quadrinhos americanos.

McGregor escreve letreiros carregados de complexidade política e poética, e seus diálogos possuem um tom imperial shakespeariano. Já os artistas desenham fisionomias e cenários grandiosos, com ação super-heroica em quadrinhos de tirar o fôlego.

Em certo momento de “A Ira do Pantera”, o roteirista pergunta: “O que prova que uma nação obteve uma grande realização? O avanço tecnológico ou o contentamento individual”? Essa é uma questão central para a história porque T’Challa, na medida em que vai perdendo a confiança de seu povo, perde também seu sentido enquanto super-herói.

E é este drama particular de um rei africano, em todas as suas nuances, que esperamos ver no vindouro filme de 2018. “A Ira do Pantera” não é reeditado no Brasil, escandalosamente, desde o início dos anos 80, quando apareceu em “Superaventuras Marvel” (Abril).

 

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