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Encontrei um bruxo no Planalto Central. Ele apareceu vaporoso, como costuma fazer a sua espécie. Nosso primeiro encontro foi em 2011 cercado de vagalumes e outros seres noturnos luminosos, em vídeos no Youtube. O encantado tem um poder peculiar: tudo o que passa por sua boca vira uma “glam gay ultracortante desconcertante” música. Seu nome? PC Azeviche.

Esse Midas do arco-íris, o qual toda palavra que toca sua língua ganha cores e purpurina, se lançou para o mundo graças a um edital do Proac do estado de São Paulo de apoio à Diversidade Sexual. Ao ter seu projeto selecionado, o jovem ganhou a chance de espalhar suas palavras mágicas pelo mundo.

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Brasiliense de nascimento, Azeviche jogou-se nos braços da desvairada deusa Paulicéia guiado por mestres como Edy Star e Ney Matogrosso. O repertório de profundo conhecimento de MPB já seria interessante sozinho, mas cada música ganha o tempero da sua voz. Assim a mágica se faz: uma música de tema conservadoramente masculinizador, na sua voz, torna-se libertária e provocadora.

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“Abaixo a cueca”, exige/ameaça a capa do seu disco. E o que já foi ironia de Zé Rodrix e Paulo Coelho vira ironia da ironia, mandando às favas o caráter masculino e pondo glitter e paetês nessa peça obscenamente masculina.

“A Polka”, de Rogério Skylab, grita pela vontade de dar e a “Vida Nua”, de Luís Capucho, sussurra que o “homem alto e moreno não existe” e só existe a bicha, que faz a vida atuando como o homem alto e moreno. E da cultura popular, do tempo que “isso não existia”, ele canta “O Bonequinho e Gavião de Penacho”, que está trepado no pau.

Esse poderoso bruxo, se tivesse seguido seu caminho, talvez hoje estaria junto de outras fadas, como Liniker, Jhonny Hooker, etc. Mas seu caminho foi interrompido pelo tribunal da Santa Inquisição, que sem misericórdia condenou à fogueira a autoestima do grande, mas ainda jovem e imaturo, bruxo. Ele desapareceu sem deixar rastros…

Até que, em dezembro de 2016, eu vi uma foto de uma conhecida abraçada com o bruxo. Parti em sua busca novamente apenas para lhe dizer como a mágica das suas palavras cantadas haviam me tocado. Falei também sobre o quanto eu acreditava no seu talento, apesar dele ter se sentido reduzido a cinzas.

E assim somos as bruxas: quando não estamos unidas, estamos na fogueira"

O bruxo me disse que ainda faz trilhas sonoras de filmes ~vejam só~ de temáticas LGBTs e que está ensaiando uma volta aos estúdios. Rolará? Quem sabe… o que eu sei é que os desígnios das grandes deusas são maiores que nós e se elas disserem que ele volta, ele volta.

 

 


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