" />
*
 
 

Spoiler: Assisti aos dois longa-metragens de Kleber Mendonça Filho e gostei de ambos. O considero um dos melhores diretores em atividade no Brasil e aguardo seus próximos trabalhos. Entre os filmes que se inscreveram para análise pela comissão de seleção ao Oscar (são 17 no total) que eu vi, “Aquarius” teria o meu voto. Não assisti a “Pequeno Segredo”. E acho também que uma participação no Festival de Cannes vale muito mais do que concorrer a um Oscar (saiba por que). Com essas revelações fora do caminho, vamos em frente.

O Ministério da Cultura revelou nesta semana sua escolha para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Muitas pessoas davam como certa a escolha de “Aquarius” como representante do país, principalmente porque estreou no Festival de Cannes e foi muito bem recebido pela crítica. Porém, desde sua estreia naquele fatídico 17 de maio, em que a equipe levantou no tapete vermelho cartazes de protesto contra o impeachment, esta obra artística virou parte da grande briga de torcidas que virou a atual cidadania brasileira.

Política ou estética?
Tudo nesta história é tão complicado e complexo quanto “Aquarius” (leia crítica). Em 12/5, o processo de impeachment de Dilma Rousseff foi aberto. Kleber Mendonça Filho e sua equipe não acharam isso correto e protestaram na estreia. Marcos Petruccelli não achou a atitude correta e protestou nas redes sociais. Nenhum foi calado por ninguém e não houve o espectro da censura.

Numa carta aberta publicada na Folha de São Paulo em 19/08, Mendonça Filho criticou a inclusão de Marcos Petruccelli na comissão que escolheria o filme indicado ao Oscar. Disse: “o jornalista em questão, por posicionamento político, vem atacando há três meses ‘Aquarius’, filme escrito e dirigido por mim, e que o jornalista membro oficial da comissão já informou não ter visto”.

A internet “quebrou” e forçou-se a briga de torcidas que teve resultados concretos: 3 diretores retiraram seus filmes do páreo em apoio à “Aquarius”. São “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, “Mãe Há Só Uma”, de Anna Muylaert, e “Para Minha Amada Morta”, de Aly Muritiba. Após as desistências, dois membros da comissão (Guilherme Fiúza Zenha e Ingra Lyberato) também pularam fora.

Petruccelli ficou, junto com Adriana Rattes (ex-secretária de Cultura do RJ), Luiz Alberto Rodrigues (produtor), George Firmeza (diretor do departamento cultural do Itamaraty), Paulo de Tarso Basto Menelau (exibidor), Sílvia Maria Sachs Rabello (presidente da Abeica), Sylvia Regina Bahiense Naves (ex-diretora executiva da Cinemateca Brasileira), Bruno Barretto (cineasta) e Carla Camurati (atriz e cineasta). É um grupo diverso e capacitado.

Tiveram, com certeza, uma tarefa ingrata. Se “Aquarius” fosse nomeado, seria por causa do bullying da internet. Se não fosse, seria por uma suposta agenda política. Qualquer valor da decisão final já foi extraído pelas duas torcidas. Entre as nove pessoas da comissão de seleção, sabemos que um já criticava a equipe de “Aquarius”. E os outros 8 membros, foram votos vencidos?

Se contentarão, estes outros 8 membros da comissão em ser condenados, mesmo que indiretamente, como agentes nefastos de uma conspiração governamental? O jornal “O Globo” conseguiu apurar um pouco do trabalho desta comissão em dois artigos. O primeiro falou com Petrucelli, Luiz Alberto Rodrigues e Sylvia Bahiense. O segundo conseguiu mais detalhes, descrevendo a votação, uma intriga entre Bruno Barreto e Carla Camurati e ainda citou os dois. Todos os integrantes defendem o trabalho da comissão. Camurati, que votou em “Aquarius”, chega a reclamar da politização da decisão. Em entrevista ao “Estadão“, Barreto ainda relata que a escolha não foi por qual filme cada um gostou mais, mas sim pelo que tinha mais chance de se dar bem no Oscar.

Pequeno Segredo
Agora que o drama da seleção parece ter terminado, com a escolha de “Pequeno Segredo” para representar o Brasil, a internet explodiu novamente, acusando a comissão de desrespeitar o povo brasileiro e a democracia. Mas é interessante observar que a crítica que Mendonça Filho fez a Petruccelli é embasada no fato dele criticar “Aquarius” sem tê-lo visto. E agora, “Pequeno Segredo”, que estreia no Brasil em novembro, sofre do mesmo problema: uma enchente de posts e tweets escritos por pessoas que não viram o filme, execrando-o. Acabam assim protestando contra um filme que nunca viram, num espelhamento do que diziam combater.

Misturam também a seleção de um filme para concorrer ao Oscar com uma decisão democrática. Se realmente acreditam nisso, defenderiam que o filme selecionado não fosse “Aquarius”, mas sim “Os Dez Mandamentos – O Filme”, lançado em 2016 e a maior bilheteria nacional de todos os tempos. A métrica mais apropriada para uma escolha democrática não seria esta?

Toda crítica sobre a arte é válida, desde que o autor tenha se exposto à obra sobre a qual ele despeja sua subjetividade. Vários dos filmes que concorreram à vaga pro Oscar ainda estão sem lançamento comercial e portanto sem público. “Aquarius” não foi sequer o único filme politicamente controverso a concorrer (“Chatô”, de Guilherme Fontes, também não foi escolhido, e ele ficou bem ressentido). Suponho que a comissão tenha assistido a todos e feito um acordo sobre qual filme deveriam indicar. É assim que funciona. Várias pessoas, caso assistam a todos estes filmes, acharão “Aquarius” o melhor deles. Mas vários acharão “Pequeno Segredo” o melhor. E vários outros ainda vão preferir uma outra opção.

A carreira de “Aquarius” continua muito bem mundo afora. Já tem distribuição garantida em mais de 60 países, venceu o festival de cinema de Sydney e está, neste momento, participando do festival de cinema de Toronto. Kleber Mendonça Filho, em seu Facebook, disse que a não-indicação já era esperada. Pena que todo o conteúdo de “Aquarius”, de “Pequeno Segredo” e dos outros 15 filmes que concorreram a essa indicação ficaram em segundo plano.

oscaraquariuskleber mendonça filhooscar 2017pequeno segredo
 


COMENTE

Ler mais do blog