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A 35ª fase da Operação Lava Jato, que levou o ex-ministro Antônio Palocci à cadeia na segunda-feira (26/9), voltou a citar o nome da empreiteira candanga Via Engenharia no escândalo. Planilhas da Odebrecht apreendidas pela Polícia Federal indicam que a reforma do Aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, serviu de escoadouro de propina. O consórcio responsável pela obra foi formado em 2004 pelas duas construtoras.

Os documentos que revelam essas operações foram apreendidos na casa de Carlos José Cunha, ex-diretor superintendente da Supervias, parte da Odebrecht Transport. Na papelada, os investigadores descobriram uma planilha que relata propinas operacionalizadas pelo Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht — divisão criada especialmente para os pagamentos ilegais. Segundo as planilhas, há três registros de repasses ilegais de recursos referentes ao Aeroporto Santa Genoveva.

 

Mais um apelido
Essa propina, segundo a planilha, totaliza pouco mais de R$ 214 mil. O destinatário é identificado como “Americano”, seguindo o padrão de apelidos que a Odebrecht dava a destinatários dos pagamentos ilegais. Os investigadores acreditam que o “Americano” era o presidente da Infraero entre 2003 e 2006 e ex-deputado petista Carlos Wilson Rocha de Queiroz Campos, morto em 2009.

De acordo com documentos da Lava Jato, os pagamentos irregulares foram feitos entre 31 de agosto e 14 de setembro de 2006. As obras no aeroporto foram acertadas em 2002 entre o governo de Goiás, a Infraero e a União. Em 2004, os trabalhos foram orçados em R$ 258 milhões e, no ano seguinte, o consórcio entre a Odebrecht e a Via Engenharia assumiu a obra, que deveria terminar em 2008.

No meio do empreendimento, foram identificados problemas, como aumento no valor orçado e ampliação do prazo para entrega da reforma.

“Em 2006, a dotação orçamentária era de cerca de R$ 64 milhões, com execução de 17% até então. Já em 2007, o relatório da fiscalização do TCU terminada em 6/6/2007 registrou 26% da obra concluída e R$ 88 milhões desembolsados. Com a assinatura de um aditivo — e dois em andamento —, o valor atualizado do contrato subiu para cerca de R$ 287 milhões, podendo chegar a R$ 321,9 milhões”, relata documento da Lava Jato.

Ao ser questionada sobre a suspeita de irregularidade na reforma do terminal goiano, a Via Engenharia informou que “desconhece as circunstâncias das negociações que envolvem diretamente o parceiro-líder do consórcio para a construção do Aeroporto Santa Genoveva”. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Odebrecht informou que a empresa não iria se manifestar sobre o assunto.

Michael Melo/Metrópoles

Clube VIP
Esta não é a primeira vez que a Via Engenharia é citada na Lava Jato. Embora não conste entre as investigadas no esquema, a empresa fundada em Brasília na década de 1980 já vem margeando as apurações há algum tempo. Em junho, o Metrópoles mostrou que o diretor da Toyo Setal Marcos Pereira Berti, um dos executivos que firmaram acordo de delação premiada, acusou, em depoimento, a companhia candanga de fazer parte de uma subdivisão do chamado “Clube VIP” das empreiteiras que lesavam a Petrobras.

As informações do executivo fazem parte de uma ação civil pública por improbidade administrativa apresentada, em 30 de maio, à 5ª Vara Federal de Curitiba. Assinam o documento a Advocacia-Geral da União (AGU), a Procuradoria da União no Paraná, o Grupo Permanente de Atuação Proativa da AGU e a Força-Tarefa da Lava Jato.

Um depoimento prestado pelo executivo em fevereiro deste ano e informações encontradas em um tablet pessoal dele entregue às autoridades não só reforçavam a existência do chamado Clube VIP como apontavam para a existência de um subesquema. Segundo Berti, outras empresas, como a Via Engenharia, passaram a participar das irregularidades a partir de 2006, quando as construtoras começaram a ser divididas em espécies de “castas”.

Berti afirma que essa nova configuração se deu porque a Petrobras adotou práticas que “dificultaram” a atuação do Clube VIP, conforme consta na ação civil pública. A estatal passou a convidar empresas que até então não integravam o esquema. Por isso, as empreiteiras decidiram cooptar as novatas, criando grupos para lesar os cofres da petrolífera.

A divisão era por linhagens: as empresas que operavam na Petrobras desde os anos 1990 compunham o grupo Tipo A, e tinham prioridade nas licitações acima de R$ 600 milhões. Na sequência apareciam as Tipo B, que arranjavam entre si os contratos entre R$ 300 milhões e R$ 600 milhões. As Tipo C ficavam com os certames de até R$ 300 milhões.

 

 


 

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