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Eis que o dia chegou. Despeço-me deste espaço ao qual me dediquei intensamente por cerca de dois anos. Foram 101 textos publicados. A oportunidade de acompanhar mais de perto o universo da gastronomia de Brasília me trouxe algumas reflexões, convicções e apontamentos que gostaria de dividir com vocês, queridos leitores:

1. Cozinha é trabalho árduo e de repetição. Sempre desconfie de chefs estrelas, cujo o ego é maior do que a entrega no prato do cliente. Fuja de lugares assim.

2. A grande maioria dos cardápios da cidade precisa de atualização. A década do filé acompanhado de risoto, massa ou purê ficou lá para trás. Pratos com legumes e vegetais são muito bem-vindos, assim como a criatividade em prepará-los, sem firulas e espumas.

3. Ambiente bonito é bom e ajuda a fidelizar. Mas, se a casa só tiver isso para oferecer, saiba que você vai ter uma conta salgada e a comida, provavelmente, não será lá grande coisa.

4. A qualidade do atendimento precisa melhorar estratosfericamente. E profissionalizar o serviço. A mão de obra precisa de treinamento para tornar agradável a presença em qualquer estabelecimento.

5. Os preços estão exorbitantes. Não à toa, em meio à crise, as pessoas optam por comer em casa. Sabemos da quantidade de impostos, da inflação. Ser empresário no país é uma profissão para corajosos. Mas, por favor, lembrem-se que nosso dinheiro também é conquistado com muito suor. Dá para ter lucro sem furar a carteira alheia.

A gastronomia de Brasília é mediana se comparada com algumas capitais do Brasil. Antes que me joguem pedra, quero dizer que amo minha cidade e, por isso, quero contribuir para elevar, de maneira ética e justa, o nível da restauração da capital.

Há sim bons lugares para ir, como Gero, IVV Swine Bar, Le Bistrot 207, Quatrocentos, Loca como tu Madre, Le Birosque, Il Basílico, Fratello Uno, Grand Cru, Castália, Objeto Encontrado, Varanda Pães Artesanais, Saborella, Taypá, Dylan Bakery, New Koto, Yuzu-an, Ernesto Café, Bacco, Fornacella, Café e um Chêro. Mas estes fazem parte de uma exceção. Esse número poderia e deveria ser maior.

Chamo atenção aqui para um projeto que me encanta, mas sobre o qual nunca escrevi: Coma lá em Casa. Já experimentei da comida do Esdras e da Mariana. É feita com esmero. Você pode até não gostar de determinados ingredientes, mas o que te servem tem capricho, sabor e produto de boa qualidade. Quem puder conhecer, vá atrás da informação deste projeto no site.

Há outras iniciativas com propostas interessantes que ainda não tive tempo de conhecer. Mas vale a pena ficar de olho, como o Saveur Bistrot, espaço para 40 pessoas localizado numa casa; kitchen11, jantar em um apartamento; e Lima – Flour and Flower, jantar/almoço feito na varanda.

É nesse caldeirão que a capital do país tem de se reinventar no setor de comidas e bebidas e apostar em novidades como o MimoBar, na 105 Norte, o Páprica, hamburgueria num posto de gasolina.

Brasília precisa de crítica gastronômica feita com isenção para que empresários, chefs e clientes entendam as eventuais melhorias que os estabelecimentos da cidade necessitam ou que os clientes desejam ver nos seus locais preferidos. É crucial tratar o consumidor com mais respeito. Alimentar-se não é simplesmente colocar comida pela boca. É afagar o estômago, a alma. É celebrar momentos de alegrias e de vida

Despeço-me com todo respeito. Respeito com que tratei cada restaurante, bar, café, sorveteria e espaço visitado. Recupero aqui um trecho do texto que escrevi para lembrar qual o papel de um crítico.

“Sim, porque há ainda quem pense que o papel de um crítico é simplesmente falar mal, destilar veneno, detonar pelo prazer de encontrar erros no que os profissionais estão fazendo. (…) Uma crítica — seja lá qual for o objeto da análise — tem a missão primordial de informar. É opinião com conhecimento”.

Gostaria de agradecer a todos os leitores que passaram por aqui, leram e comentaram. Minha vontade é de levar vocês para almoçar ou jantar num destes bons lugares já descritos aqui. Deixo esse convite para uma próxima.

Vou ali e quem sabe…já volto!

Cortês sim; omissa, não.

 

 

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