“Definitivamente, há preconceito”, diz ativista em nome de surdos

Paulo tem surdez bilateral e fala sobre a vida com deficiência auditiva, preconceito e como superou as dificuldades para tornar-se advogado

atualizado 24/11/2019 16:23

Myke Senna/Especial para o Metrópoles

Paulo Sugai, 29 anos, é advogado. Após uma década de trabalho em uma instituição financeira, decidiu abrir um escritório de advocacia em parceria com a ex-chefe. A história de Paulo não teria nada de diferente de muitas outras, não fosse um detalhe: em razão de rubéola contraída durante a gravidez, ele nasceu com surdez bilateral neurossensorial profunda, uma disfunção do ouvido interno geralmente causada por lesão das células ciliadas ou do nervo auditivo.

Da infância à adolescência, Paulo foi estimulado com o uso de aparelhos auditivos e teve acompanhamento fonoaudiológico. Tudo isso permitiu que ele fosse oralizado, ou seja, que aprendesse a falar normalmente.

Ele estudou em colégios de ouvintes a vida inteira, frequentou a universidade e, hoje, tornou-se um representante dos direitos da pessoa com deficiência auditiva. “Resolvi que ser advogado seria uma poderosa ferramenta na busca da talvez utópica vontade de apoiar os outros e disseminar informações sobre os direitos da pessoa com deficiência”, explica.

No sábado (23/11/2019), Paulo falou sobre os direitos da Pessoa com Deficiência Auditiva no Encontro Nacional da Diversidade Surda, promovida pelo Instituto Brasiliense Otorrinolaringologia (Iborl). O encontro integra a programação da Semana de Prevenção e Combate à Surdez, iniciada no último dia 16 e que se encerra hoje.

Para ajudar a disseminar os direitos das pessoas com deficiência auditiva, Paulo criou o projeto Advogado Surdo (@advogadosurdo), em que posta nas redes sociais temas como acessibilidade na educação, planos de saúde, reforma previdenciária e IPVA. “Há muitos surdos que ainda desconhecem quais são os seus direitos e a minha intenção é essa: esclarecer sem a complicação do ‘juridiquês’.”

Mundo novo

Em fevereiro de 2018, ele passou por uma cirurgia de implante coclear. Um mês depois, o implante foi ativado. O tempo entre a operação e a ativação do dispositivo se dá para que o corpo aceite o implante e realize a cicatrização corretamente. “No dia da minha ativação, a primeira coisa que ouvi foi a voz da minha mãe. Foi daquelas cenas que a gente nunca esquece”, emociona-se.

“Desde então, tenho passado por muitas experiências boas. Ouvir os passarinhos, o som das bolhas de água no galão, a chuva batendo no teto do carro, tudo é sensacional.”

Além da descoberta de um mundo novo, a cirurgia trouxe mais praticidade para Paulo. Se com os aparelhos auditivos ele era dependente da leitura labial, nem sempre possível de ser feita com precisão total, agora, ele é capaz de compreender instantaneamente o que é dito pelas pessoas.

“O implante também tem me auxiliado na minha rotina jurídica. Consigo entender com mais facilidade os servidores das Varas. Ainda não consigo manter contato telefônico, mas espero um dia chegar lá”, avalia.

Uma existência silenciosa

Hoje, Paulo é capaz de ouvir os sons ao seu redor, mas não esquece que a surdez impõe um cotidiano complicado. “A deficiência auditiva, de todas, pode ser considerada a que mais afasta da convivência dentro do mundo ouvinte”, avalia.

Chamar a polícia ou uma ambulância, resolver problemas bancários, acionar o seguro e contatar parentes são apenas alguns exemplos de atividades que, apesar de serem direito de qualquer cidadão, tornam-se difíceis para as pessoas com algum tipo de deficiência auditiva.

Muitas vezes, o jeito é recorrer ao apoio de um ouvinte, geralmente algum familiar, para a resolução de questões básicas. Para quem escuta, pode ser difícil pensar em um mundo silencioso. Para Paulo, há cada vez mais conscientização a respeito das necessidades únicas das pessoas com deficiência auditiva. O preconceito, contudo, ainda é um comportamento presente.

“Definitivamente, há preconceito contra as pessoas surdas. Acredito que, embora uma pequena parcela seja causada por pessoas de índole duvidosa, a maior parte se origina da ignorância acerca do tema”, diz Paulo.

A crença de que uma pessoa que não ouve é incapaz de resolver os próprios problemas é o que, para Paulo, explica o preconceito. “Muitos acham que surdos possuem um intelecto insuficiente por não se comunicarem da forma usual”, completa.

Quando estava no oitavo semestre da faculdade, colegas de turma frequentemente sabatinavam Paulo de perguntas, com o intuito de checar se ele havia realmente entendido a matéria. “Eles duvidavam de mim. No Ensino Médio, muitos caçoavam da minha forma de falar.”

As limitações do cotidiano vêm sendo supridas, em certa medida, pela tecnologia. Implantados e usuários de AASI (aparelhos auditivos) têm, segundo Paulo, conseguido se sentir cada vez mais incluídos, graças a dispositivos mais modernos e precisos.

“Também não podemos esquecer da Libras, a linguagem brasileira de sinais, como acessibilidade para os surdos que optam por não utilizar as tecnologias”, frisa. “Atualmente uso somente o implante coclear e estou maravilhado como poder dessa tecnologia.”

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