PM Gisele: veja diálogos entre policiais e coronel na cena do crime
Inquérito mostra resistência do oficial e preocupação de policiais de menor patente com possível destruição de vestígios antes da perícia
atualizado
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As conversas entre o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto e os policiais que tentaram impedir sua entrada no apartamento onde a esposa havia sido baleada, no centro da capital paulista, revelam um embate direto entre protocolo e hierarquia.
Os diálogos, reproduzidos em inquérito instaurado pelo 8º DP, mostram insistência do oficial da Polícia Militar em acessar o imóvel e preocupação explícita dos agentes com a preservação da cena (leia íntegra abaixo).
O caso ganhou novo desdobramento na quarta-feira (18/3), quando o oficial foi preso pela Corregedoria da PM, acusado de feminicídio contra a soldado Gisele Alves Santana, morta com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro. A investigação também aponta suspeitas de fraude processual, com indícios de interferência na cena do crime e tentativas de construção de versão para o ocorrido.
Em um momento crítico, descrito no inquérito, o oficial tenta entrar no apartamento logo após Gisele ser retirada do local, em estado gravíssimo. Ela morreu no Hospital das Clínicas, em decorrência do disparo, às 12h04. A entrada de Geraldo Neto foi contida por policiais militares de menor patente, porque o imóvel estava cheio de evidências a serem ainda periciadas. Mesmo assim, ele desrespeita as orientações e avança.
O registro da Polícia Civil detalha que o cabo responsável pela contenção aponta para outro oficial e reforça que qualquer conversa deveria ocorrer fora do imóvel. Nem a recomendação de um desembargador presente no local, que sugere que o coronel não entre, é suficiente para barrá-lo. O magistrado é Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, amigo do oficial.
Na sequência, já dentro do apartamento, o comportamento do oficial passa a gerar ainda mais estranhamento entre os policiais.
Os diálogos transcritos no inquérito
CB: O senhor não saiu do banho agora? O senhor falou que estava tomando banho.
TC Neto: Irmão, eu entrei no banho (ligou o chuveiro) eu tava aqui tomando banho, dai eu escutei o barulho e eu abri a porta, quando abri eu vi minha esposa, peguei essa bermuda que tava aqui em cima, vesti a cueca e a bermuda, que eu não cheguei a tomar banho, eu nem fiz a barba ainda ó, a barba eu faço durante o banho, fazia um minuto que eu tava em baixo do chuveiro irmão.
CB: É que o senhor sabe da burocracia que é né, você sabe da burocracia que é na PM, então quanto mais rápido agilizar se o senhor puder só colocar uma camiseta.
TC Neto: Irmão, eu tenho 34 anos de serviço. Eu sei o que eu to falando. Eu vou tomar banho, irmão.
Mesmo diante da orientação para evitar qualquer alteração no local, o oficial insiste em retornar ao banheiro. O cabo tenta intervir novamente
CB: O senhor não quer colocar uma camiseta e um short rapidinho.
TC Neto: Não eu não vou, eu não tô bem para ir assim, eu vou tomar um banho.
CB (para Capitão): O cara vai lavar a mão, caralho.
A fala, registrada de forma literal no inquérito, sintetiza o temor dos policiais diante da possibilidade de destruição de vestígios. Esse receio aparece ainda mais explícito em outro trecho.
CB: ele vai fazer residuográfico antes né?
Tenente: depende do que o perito falar, eu não vi nada.
CB: vai deixar ele tomar banho e tudo?
Tenente: ah, não tem como ele ir assim.
CB: se tomar banho vai perder tudo os baguio [vestígios] da mão, e as conversas dele tá estranha… porque se fosse um paisano a gente já arrasta pra perto…
O diálogo expõe não apenas a preocupação técnica, com a eventual perda de resíduos de disparo, mas também um incômodo institucional diante do tratamento diferenciado dado a um oficial de alta patente.
A própria investigação aponta que o comportamento do coronel após o disparo levantou suspeitas, incluindo a realização de sucessivas ligações antes de acionar o socorro, o que, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), pode indicar tentativa de alinhar uma versão para os fatos
Mesmo diante das advertências, o tenente-coronel entrou e permaneceu no apartamento, acompanhado por policiais que tentaram limitar sua circulação. O episódio passou a ser considerado um dos elementos centrais da investigação sobre possível interferência na cena do crime.
O tenente-coronel segue preso no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte paulistana. Ele insiste que a esposa se suicidou, como reforça sua defesa.
















