“Raposa” de Wall Street e crítico do Fed: quem é o indicado por Trump
Nos últimos anos, a postura e a retórica de Kevin Warsh mudaram e ele passou a adotar um tom mais duro e crítico ao Fed, alinhado a Trump
atualizado
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A indicação do ex-diretor do Federal Reserve (Fed) Kevin Warsh para o comando do Banco Central dos Estados Unidos, feita nesta sexta-feira (30/1) pelo presidente norte-americano Donald Trump, não surpreendeu o mercado. Nas últimas semanas, seu nome já vinha sendo apontado como o preferido do republicano nas bolsas de apostas do país.
“Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas de que ele será lembrado como um dos grandes presidentes do Fed, talvez o melhor”, escreveu Trump em publicação em sua própria rede social, a Truth Social, na manhã desta sexta.
Warsh cresceu na reta final e desbancou favorito
Além de Warsh, outros três nomes haviam sido apontados pelo próprio Trump como candidatos à sucessão do atual presidente do Fed, Jerome Powell, cujo mandato termina em maio: o chefe do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett; o atual diretor do Fed Christopher Waller; e do diretor de investimentos em renda fixa da gestora de ativos BlackRock, Rick Rieder.
Até pouco tempo atrás, o favorito era Kevin Hassett, mas ele foi desbancado, nas últimas semanas, por Warsh, que já aparecia com as maiores chances de acordo com o site Polymarket.
Hassett perdeu força após uma declaração de Trump, na semana passada, durante um evento na Casa Branca, dizendo que o ideal seria que o seu atual conselheiro econômico permanecesse no cargo atual.
“Raposa” do mercado financeiro
O perfil de Kevin Warsh é considerado o de alguém muito próximo do sistema financeiro, que conhece os bastidores de Wall Street como poucos – uma verdadeira “raposa” do mercado. Nos últimos anos, Warsh chamou atenção de Trump por vocalizar muitas das críticas ao sistema financeiro norte-americano feitas pelo próprio presidente dos EUA.
Kevin Warsh foi indicado para o Fed há 20 anos, em 2006, pelo então presidente dos EUA George W. Bush. Antes de chegar à diretoria da autoridade monetária, ele foi assistente especial de Bush para política econômica e secretário-executivo do Conselho Econômico Nacional.
Warsh fez parte do Conselho de Governadores do Fed, de 2006 a 2011, e acompanhou de perto a crise financeira de 2008 e o colapso de grandes bancos como o Lehman Brothers. O futuro presidente do Fed teve atuação importante nas negociações entre o Tesouro, o BC dos EUA e instituições financeiras. Até mesmo seus críticos reconhecem que Warsh tem excelente trânsito em Washington e Wall Street.
Críticas ao Fed
Nos últimos anos, a postura e a retórica de Kevin Warsh mudaram e ele passou a adotar um tom mais duro e crítico ao Federal Reserve. Em diversas entrevistas e pronunciamentos, o ex-diretor da autoridade monetária defendeu uma “mudança de regime” no Fed, com revisões sobre os instrumentos que levam o BC dos EUA a tomar suas decisões sobre a taxa de juros.
Em linhas gerais, Warsh está alinhado a Trump na defesa de uma política monetária menos contracionista, com a intensificação do corte de juros – o que agrada, em cheio, a Casa Branca. Por outro lado, o indicado por Trump também critica a expansão do balanço do Fed.
Em outubro do ano passado, em entrevista à Fox Business, Warsh foi enfático ao defender a redução da taxa de juros pelo Fed.
“Juros mais baixos, combinados com o tipo de revolução tecnológica que as políticas do presidente permitiram, com o enorme volume de investimentos que está acontecendo na economia doméstica e vindo do exterior, são a semente da nossa revolução de produtividade”, afirmou.
Trajetória acadêmica e profissional
Nascido em Albany, no estado de Nova York, Kevin Warsh tem 55 anos e é formado em Políticas Públicas pela Universidade de Stanford, uma das mais prestigiadas do mundo, com ênfase em economia e estatística.
Warsh também cursou Direito na Universidade de Harvard e se especializou na conexão entre direito, economia e regulação. Ele também fez pesquisas complementares sobre economia de mercado e mercado de capitais na Harvard Business School e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
A trajetória profissional de Warsh teve início do Morgan Stanley, um dos maiores bancos dos EUA, pelo qual atuou por 7 anos no departamento de fusões e aquisições.
Ao deixar o Fed, em 2011, Warsh dividiu sua atuação entre a vida acadêmica e o mercado financeiro. Ele é pesquisador visitante em economia no Instituto Hoover, da Universidade de Stanford, e professor na Escola de Negócios da mesma instituição. Também atua como sócio-consultor da gestora Duquesne Family Office.
Kevin Warsh também compõe conselhos de administração de empresas como a United Parcel Service (UPS) e a Coupang. Ele ainda participa de fóruns de discussão econômica, entre os quais o Grupo dos Trinta e o painel de consultores econômicos do Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA.
Análise
Segundo Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, a indicação de Kevin Warsh como próximo presidente do Fed “amenizou os movimentos de queda dos futuros americanos, reforçando que o mercado o vê como um nome com credibilidade institucional”.
“Warsh, ex-governador do Fed de 2006 a 2011, defende cortes de juros, mas é conhecido por ter historicamente uma postura ‘hawkish’ (mais rígida), o que diminui a visão de risco de captura política total do Banco Central, diferentemente do que Rieder ou Hassett poderiam representar. A expectativa de uma postura mais dura, porém, pode pressionar no curto prazo papéis de crescimento e tech via expectativa de custos mais altos”, analisa Zogbi.
“Para o Brasil e emergentes, o impacto pode ser de pressão via dólar forte e retornos globais mais altos no curto prazo, com a projeção de juros caindo mais lentamente. Mas o mais importante é que a escolha de Trump baixa o risco político e pode levar a uma reprecificação global de taxas mais saudável para o longo prazo.”
