Dólar recua e Bolsa sobe forte com crise na Venezuela em segundo plano
Investidores voltaram suas atenções aos dados da balança comercial brasileira e a declarações de dirigentes do Federal Reserve (BC dos EUA)
atualizado
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Em um dia de maior otimismo nos mercados globais, com os investidores demonstrando mais apetite ao risco, o dólar terminou a sessão desta terça-feira (6/1) novamente em queda frente ao real.
Três dias depois do ataque militar dos Estados Unidos que depôs o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, o mercado vai, aos poucos, reduzindo suas preocupações em relação aos desdobramentos políticos e econômicos da queda do ditador.
Com grande parte dos investidores alheios aos destinos da Venezuela, as maiores atenções do dia ficaram voltadas aos dados da balança comercial do Brasil referentes a dezembro do ano passado, além de declarações de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA).
Dólar
- A moeda norte-americana terminou o dia em baixa de 0,48%, negociada a R$ 5,379.
- Foi a quarta sessão consecutiva de queda do dólar frente ao real e a menor cotação desde o dia 4 de dezembro.
- Na cotação máxima do dia, o dólar bateu R$ 5,417. A mínima foi de R$ 5,362.
- Na véspera, o dólar fechou em queda de 0,34%, cotado a R$ 5,405.
- Com o resultado, a moeda dos EUA acumula perdas de 2% frente ao real em 2026.
Ibovespa
- O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores do Brasil (B3), se manteve em forte alta durante praticamente todo o pregão.
- O indicador fechou a sessão com ganhos de 1,11%, aos 163,6 mil pontos.
- No dia anterior, o Ibovespa já havia fechado em alta de 0,83%, aos 161,8 mil pontos.
- Com o resultado, a Bolsa brasileira acumula ganhos de 1,58% no ano.
“Efeito tarifaço” afeta exportações do Brasil aos EUA
As exportações do Brasil para os EUA diminuíram em 6,6% em 2025, de acordo com os dados da balança comercial divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). No ano passado, foram exportados US$ 37,7 bilhões, ante US$ 40,3 bilhões em 2024.
O dado tem influência da política protecionista do governo do presidente dos EUA, Donald Trump, que impôs uma tarifa de 50% sobre alguns produtos brasileiros, fazendo com que os custos de exportação crescessem, afetando tanto empresários brasileiros quanto consumidores norte-americanos.
Por outro lado, as exportações totais do Brasil registraram recorde em 2025 e alcançaram US$ 349 bilhões, atingindo o melhor resultado da série histórica desde 1989. O valor superou em US$ 9 bilhões o recorde anterior, atingido em 2023. Em relação a 2024, o aumento foi de 3,5%.
Em dezembro de 2025, a balança comercial brasileira registrou superávit (quando exportações superam importações) de US$ 9,6 bilhões. Houve aumento de 107,8% em relação ao mesmo período de 2024, que registrou saldo positivo de US$ 4,6 bilhões.
Em relação às importações, houve crescimento de 5,7% na comparação com o mesmo período de 2024, com US$ 21,4 bilhões em dezembro, frente aos US$ 20,2 bilhões no ano anterior.
Já sobre as exportações o crescimento foi de 24,7%, chegando a US$ 31 bilhões em dezembro de 2025, ante os US$ 24,9 bilhões no mesmo período do ano passado.
A corrente de comércio, soma das importações e exportações, alcançou US$ 52,4 bilhões em dezembro, com crescimento de 16,2% em relação a 2024 (US$ 45,1 bilhões). No acumulado do ano, o número chegou a US$ 629 bilhões.
Ações da Petrobras recuam
As ações da Petrobras negociadas na Bolsa do Brasil registraram queda, na tarde desta terça-feira, depois de a companhia ter informado que paralisou a perfuração na Foz do Amazonas após identificar um vazamento em duas linhas auxiliares – tubulações de apoio que conectam o navio-sonda ao poço Morpho. O local está a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá.
A Foz do Amazonas é uma vasta região no extremo norte do litoral brasileiro (Amapá e Pará) na qual o Rio Amazonas deságua no Oceano Atlântico, formando uma área de grande biodiversidade, com manguezais e recifes de corais únicos. O local é também alvo de disputa pela exploração de petróleo devido às reservas na chamada Margem Equatorial.
Por volta das 17 horas, nos instantes finais do pregão, as ações ordinárias da Petrobras recuavam 1,73%, cotadas a R$ 31,21. No mesmo horário, os papéis preferenciais da empresa tinham queda de 1,49%, a R$ 29,75.
De acordo com a Petrobras, houve “perda de fluido de perfuração em duas linhas auxiliares que conectam a sonda de perfuração ao poço Morpho”.
“A perda do fluido de perfuração foi imediatamente contida e isolada. As linhas serão trazidas à superfície para avaliação e reparo. Não há problemas com a sonda ou com o poço, que permanecem em total condição de segurança. A ocorrência também não oferece riscos à segurança da operação de perfuração”, informou a estatal.
A Petrobras disse ainda que “adotou todas as medidas de controle e notificou os órgãos competentes”. “O fluido utilizado atende aos limites de toxicidade permitidos e é biodegradável, portanto não há dano ao meio ambiente ou às pessoas”, diz a nota da companhia.
Atenção aos juros nos EUA
No cenário internacional, as atenções dos investidores se voltaram para os EUA. O mercado monitorou pronunciamentos de dirigentes do Federal Reserve (Fed), como o presidente do Fed de Richmond, Tom Barkin, semanas depois da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) em 2025.
Na última reunião do Fed, em dezembro, o corte nos juros foi de 0,25 ponto percentual, acompanhando as projeções da maioria dos analistas do mercado. Agora, os juros estão no patamar entre 3,5% e 3,75% ao ano.
Foi a terceira redução consecutiva na taxa de juros pelo BC dos EUA. Na reunião anterior do Fed, em setembro, o corte também havia sido de 0,25 ponto percentual.
A votação não foi unânime. Stephen Miran, novo integrante do Fed, indicado por Donald Trump, votou por um corte maior, de 0,5 ponto percentual, enquanto Jeffrey R. Schmid e Austan D. Goolsbee votaram pela manutenção da taxa de juros.
O próximo encontro da autoridade monetária para definir a taxa de juros, o primeiro de 2026, está marcado para os dias 27 e 28 de janeiro.
Venezuela fica em segundo plano
Ainda no exterior, os mercados seguem acompanhando as consequências políticas e econômicas do ataque norte-americano na Venezuela, no fim de semana, que levou à captura do ditador Nicolás Maduro. Mas, após um período inicial de forte preocupação e incerteza, os investidores parecem apostar agora em um cenário mais otimista, visto que os impactos do episódio sobre o mercado foram menores do que muitos esperavam até aqui.
A maior confiança dos investidores também se refletiu em importantes mercados pelo mundo. Os principais índices das bolsas de valores da Europa e dos EUA tiveram mais um dia de ganhos.
Nesta terça, o presidente dos EUA, Donald Trump, fez um discurso para congressistas republicanos, em Washington, e falou sobre as “dancinhas” de Nicolás Maduro. Trump disse que o presidente da Venezuela, preso recentemente pelos norte-americanos, tentou imitá-lo. “Ele era um cara violento. Ele sobe lá e tenta imitar a minha dança um pouco, mas é um cara violento”, afirmou.
O comentário provocou risadas da plateia. Depois, o norte-americano também achou graça do fato de que faltou energia elétrica na capital venezuelana, Caracas, no dia em que Maduro foi capturado. “Foi aí que eles souberam que tinham um problema”, acrescentou Trump na volta oficial do calendário da Câmara dos Representantes, nos EUA.
Segundo o jornal The New York Times, as danças de Maduro foram decisivas para que Trump ordenasse a prisão do ditador.
Ainda no âmbito da investigação sobre o ditador venezuelano, o governo Trump recuou da acusação de que Maduro chefiaria uma organização criminosa de narcotráfico supostamente denominada Cartel de Los Soles. A incriminação foi utilizada como pretexto pelos EUA para bombardearem embarcações no Caribe e no Oceano Pacífico, além de invadirem e atacarem a Venezuela para capturar Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
De acordo com o jornal norte-americano The New York Times, o Departamento de Justiça dos EUA recuou da acusação de Maduro chefiar o cartel de drogas, mas não descartou uma associação do ditador com o narcotráfico.
A alegação que Maduro é responsável por liderar a organização criminosa surgiu em julho do ano passado, após o Departamento do Tesouro classificar uma série de grupos ligados ao tráfico de drogas como organizações terroristas. Junto à medida, o governo Trump designou o líder chavista como chefe do cartel venezuelano de drogas e, um tempo depois do decreto do Tesouro, o Departamento de Estado dos EUA fez o mesmo.
À época, essa reclassificação de cartéis de drogas abriu brecha para operações militares norte-americanas como a que ocorreu na Venezuela, uma vez que, para autoridades republicanas, os EUA capturaram um narcoterrorista, e não um presidente.
Análise
Segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, a queda do dólar ocorreu “em um ambiente de liquidez reduzida e volume baixo de negócios”.
“A queda de hoje foi potencializada por um cenário externo ainda favorável a ativos de risco e pela entrada gradual de divisas no mercado doméstico, aumentando a oferta de dólares. Na ausência de novos vetores de curto prazo, o câmbio acabou reagindo mais a vetores externos na sessão de hoje do que mudanças em fundamentos”, explica Shahini.
“A alta da Bolsa foi sustentada por um pano de fundo externo favorável a ativos de risco, ainda em um ambiente de liquidez reduzida. Nesse cenário, a Vale avançou cerca de 3%, acompanhando a valorização do minério de ferro, que voltou a ganhar tração no mercado internacional e deu suporte relevante ao desempenho do índice.”
