CAROLINA SAMORANO
JULIANA CONTAIFER
27/08/2017 5:29

Florentino Ariza e Fermina Daza esperaram 53 anos, sete meses e 11 dias para viver o romance que começou quando ainda eram adolescentes. Por mais de meio século, os protagonistas de “O Amor nos Tempos do Cólera”, clássico de Gabriel García Márquez, viveram um relacionamento por cartas. Quando tocaram-se pela primeira vez, já tinham quase 80 anos. Segundo descreveu o autor colombiano, quando suas mãos já eram “ossos velhos”.

García Márquez, no desfecho da obra, apresenta uma das principais passagens da literatura moderna. Narra as dúvidas de Fermina, então septuagenária e viúva, em se entregar ao homem que amou secretamente durante décadas. Apesar do “cheiro azedo da velhice”, o casal faz sexo pela primeira vez: “um amor tranquilo de serenos avós”.

“Tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte”.

Gabriel García Márquez

Gabo fez-se notável por retratar o processo de envelhecer em suas obras. Procurava desenvolver o tema abordando o ciclo completo: apresentava personagens muito jovens e narrava suas histórias até a fase da senilidade. O escritor foi um homem à frente do seu tempo. Sem idealizar a velhice, ele mostrou que há muita vida mesmo quando os corpos se tornam frágeis.

Apesar da população viver cada vez mais, desde o lançamento dessa obra-prima, há 32 anos, pouco se avançou na conversa sobre a qualidade de vida dos cidadãos “da melhor idade”. Os brasileiros estenderam suas existências em velocidade recorde: duas vezes mais rápido que a média mundial, segundo dados comparativos da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Enquanto a França, por exemplo, demorou 150 anos para elevar de 10% para 20% a proporção de idosos em sua população, no Brasil, o mesmo levará 19 anos.

Felipe Menezes e Giovanna Bembom/Metrópoles

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula que hoje a população do país alcança, em média, 74,6 anos. Demoraremos ainda algum tempo para chegar até a oitava década. De acordo com o IBGE, isso só vai acontecer em 2060, quando a expectativa de vida será de 81,2 anos.

Desafiando estimativas, é cada vez mais comum pessoas de 80 anos dividirem com jovens o assento do ônibus, a cadeira da universidade, o aparelho da academia de ginástica. As faixas etárias tradicionais já não lhes contemplam, por isso criou-se uma nova nomenclatura: a quarta idade.

O espectro entre 60 anos, quando começa a terceira idade, e os 100, uma realidade possível hoje, é muito amplo. Tratar um sexagenário difere bastante de cuidar daqueles que avançam a marca de oito décadas. Tem sido frequente as pessoas completarem 60 cheias de vigor e jovialidade.

Pirâmide etária segundo IBGE

O avanço da medicina preventiva, as descobertas de vacinas e curas para doenças graves, assim como a popularização de procedimentos estéticos resultam em organismos mais preservados com aparências viçosas. Dessa forma, o conceito de velhice não se aplica mais aos 60, e o fim da vida foi empurrado a ponto de muitos colecionarem os 100 anos.

Embora a terceira idade viva uma rotina mais saudável e não precise de cuidados muito intensos, as doenças crônicas tendem a se agravar e, invariavelmente, a mobilidade diminui a partir dos 80 anos. Quem não tem a vida interrompida, chegará à quarta idade quase sempre mais dependente de atenção especial.

Revolucionários

No Velho Mundo, a população ganhou mais anos de vida ao longo de um processo gradual de melhorias em saneamento básico, saúde pública e disponibilidade de alimentos.

“Os países mais desenvolvidos primeiro enriqueceram para depois envelhecer. No Brasil, tudo isso aconteceu muito rápido”, explica Alexandre Kalache. Ele preside a Aliança Global e a divisão brasileira do Centro Internacional de Longevidade. Uma pessoa que nasceu em 1950 viveria até os 47 conforme as expectativas da época. Hoje, já tem 67. Muitas vezes, vendendo saúde.

Para Kalache, que também já dirigiu o Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS, hoje vivemos uma “revolução da longevidade”. Apesar da quebra de paradigma, ainda estamos aprendemos a lidar com a quarta idade. Segundo o vice-presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDPI), Bahij Amin Auh, é comum até hoje pensarmos no idoso como incapaz, que deve ficar encostado para “esperar a morte chegar”.

Mas muitas pessoas com mais de 80 anos, hoje, são ativas, consomem, praticam esportes, aproveitam oportunidades culturais, produzem e seguem contribuindo para a sociedade.

“(Envelhecer) É como o salto no vazio do adolescente que vai de encontro à juventude. A gente amadurece, a um certo ponto alça voo em direção à velhice e, diante de si, encontra um mar infinito que se chama liberdade”.

Arrigo Levi, jornalista italiano de 91 anos em seu livro “Saber Manter-se Jovem”

Um exemplo dos nossos novos velhos é Luís Humberto Martins Pereira. Um retrato dele aos 83 anos revela até onde somos capazes de chegar. O fotógrafo ajudou a fundar a UnB ao lado de Darcy Ribeiro, atuou no Hospital Sarah Kubitschek com Campos da Paz e tornou-se a cara da capital ao fotografar Brasília em seus mais diferentes ângulos. Hoje, apesar de a doença de Parkinson fazer tremer as mãos que um dia já foram tão firmes, ele continua ativo.

E, às vésperas de completar 84 anos, o fotógrafo faz planos para o futuro. Ele organiza uma exposição com suas fotos no Museu Nacional, prevista para 2018. Até lá, Luís Humberto está escrevendo um livro de poesias para a esposa, Márcia Noronha. E continua recebendo amigos e ex-alunos em seu apartamento na Asa Sul. Entre um cafezinho e outro, debatem os rumos da política nacional.

Felipe Menezes/Metrópoles

“Não me considero velho. Não sei até quando, mas eu tenho vitalidade, interesse, curiosidade pelas coisas. Envelhecer não é fazer plástica e andar na rua de tênis branco e bermuda, olhando esquisito para as moças. É manter a cabeça viva e ser útil. Você é depositário de uma história, pode ser importante para a sociedade”, reflete o fotógrafo e professor — ele recusa o rótulo de aposentado.

Luís Humberto se incomoda com a falta de independência que a doença trouxe. Mas, no geral, não tem do que reclamar. A esposa, os filhos e os amigos fazem dele um homem realizado. “Felicidade não são apenas os grandes momentos, entrar como destaque na escola de samba na Marquês de Sapucaí. O cotidiano é cheio de brilhos, de pequenos acontecimentos que enriquecem a vida”, diz.

E mesmo que a morte tenha virado um tema recorrente em suas rodas de conversa, Luís Humberto não se intimida. “Não tenho medo de ir, tenho é saudade da vida.”

Vivendo até os mil anos

Estudo publicado na revista Nature em 2016 iniciou um debate: “O ser humano tem data de validade?” Para um trio de cientistas do Albert Einstein College of Medicine, em Nova York, o máximo que o homem pode chegar seria 115 anos. Depois da publicação, cinco times de estudiosos vieram a público discordar desse número. Eles argumentam que não existe um limite para o corpo humano e qualificam a pesquisa como fraca e sem base científica.

Segundo o inglês Aubrey de Gray, um dos maiores especialistas do mundo no tema longevidade, em um futuro próximo, será possível passar com folga dos mil anos de idade. Parece surreal, mas o criador da Fundação Sens defendeu, em entrevista ao Metrópoles, que a ciência vai evoluir o suficiente para evitar diagnósticos fatais e prolongar em até 10 vezes a história de pessoas já saudáveis.

Livre de doenças degenerativas e com resposta para todos os males, o prognóstico de Gray é espantoso. Mas uma pergunta ainda está sem solução: com que qualidade de vida chegaríamos lá? “É preciso ser resiliente para enfrentar a velhice”, afirma Kalache. Não basta apostar na ciência, uma existência longeva requer preparo emocional e físico.


Até agora, nem mesmo a medicina descobriu a melhor fórmula para envelhecer. Mas, um dos primeiros passos é incentivar pesquisas na área de geriatria. Descobrir fármacos, tratamentos, desenvolver cuidados paliativos e treinar profissionais para lidar com essa nova geração demanda investimento.

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) estima que atuem no Brasil em torno de 2 mil especialistas na área, com tendência a diminuir. A quantidade, segundo Daniel Lima Azevedo, secretário-geral da instituição, é significativamente inferior à necessária. Para ele, uma demonstração da falta de interesse dos alunos em estudar qualidade de vida e como cuidar desse novo público.

Se a tendência da população é viver cada vez mais, a da medicina, de acordo com o especialista, é refletir sobre como tratar da quarta idade. Na visão de Azevedo, as faculdades não dão a devida importância ao tema. “As discussões acadêmicas da última década sobre cuidados paliativos com ênfase na qualidade de vida estão crescendo, mas ainda são consideradas mínimas para o tamanho da demanda”, argumenta.

No sistema de saúde do país — sobretudo no atendimento público — ainda não se discute suficientemente o tratamento aos idosos. Os profissionais não são preparados para atender essa população que só cresce. A educação dos médicos preza pela ciência e pela busca da cura, mas não pela sensibilidade de conversar com os pacientes. “Aprendemos a manter a vida, não a preservar a qualidade dela e respeitar a autonomia do indivíduo”, afirma Azevedo.

O cirurgião Atul Gawande, em seu livro “Mortais”, estudou o fim da vida. Naturalmente, o envelhecimento tornou-se um ponto central da obra. “De acordo com o que ouço das pessoas idosas, não é a morte que elas temem. É o que acontece logo antes dela: a perda da audição, da memória, dos melhores amigos, do estilo de vida a que estão acostumadas”, afirma Gawande, professor da Escola de Medicina de Harvard.

Importante ponderar que, nos Estados Unidos e nos países europeus, há uma cultura de profissionalização dos cuidados na velhice. Em geral, a quarta idade conta com casas de apoio, condomínios e hospitais especializados. Realidade muito diferente da brasileira. Deixar a responsabilidade da etapa final dos velhos a cargo de asilos é uma falta de opção em alguns casos ou abandono, em outros. Assumir esse papel é considerado demonstração de carinho, de amor e de gratidão.

Quais dos dois sistemas é o ideal? Não há respostas definitivas. Existem vantagens e desvantagens nas duas tradições. Por um lado, um sistema assistido oferece segurança e atendimento técnico adequado, em detrimento do ambiente familiar. Do outro, o cuidado dos parentes dá mais conforto emocional, mas pode ser desgastante para todos e ineficiente.

“Na ausência de algo como o que tinha meu avô — uma grande família constantemente à disposição para permitir que ele fizesse suas próprias escolhas –, tudo o que resta a nossos idosos é uma existência institucional, controlada e supervisionada, uma resposta desenvolvida clinicamente para problemas incorrigíveis. Uma vida projetada para ser segura, porém vazia de tudo aquilo que lhes é importante”, pondera Gawande em seu livro “Mortais”.

“O nosso foco como médico é sempre na doença e, por vezes, o que incomoda a pessoa pode ser a ausência de um filho distante, por exemplo. E nós, preocupados em prescrever pílulas. Isso é uma perversão do ensino da medicina, que não está treinando médicos a cuidar de pessoas”.

Daniel Lima Azevedo, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Enquanto os cuidados específicos para essa crescente clientela não se tornam rotina nos consultórios, a ciência busca entender os motivos pelos quais algumas pessoas vivem mais e, sobretudo, melhor do que outras.

Em 2010, nos laboratórios do Centro de Estudo do Genoma Humano (CEGH) da Universidade de São Paulo (USP), nasceu o projeto “80+”, encabeçado pela geneticista brasileira Mayana Zatz, cujo objetivo é justamente decifrar o enigma do envelhecimento saudável.

O projeto criou um banco de dados com informações do DNA de mil idosos sadios física e mentalmente. O objetivo é identificar componentes genéticos que contribuem para o envelhecimento saudável das pessoas. No futuro, esses resultados — ainda preliminares — poderão ser usados por indivíduos mais jovens, que teriam a chance de identificar precocemente alterações causadoras de doenças graves.

Até agora, os cientistas encontraram 207 mil mutações nunca antes descritas pela medicina em 609 participantes do estudo. Elas evidenciam a miscigenação da população brasileira. Do total, 46 mil são consideradas graves, porque estão ligadas à perda de função cognitiva ou motora. Cada idoso possui, em média, cerca de 300 alterações (em sua maioria, inofensivas). Em apenas sete voluntários, foram registradas alterações associadas a doenças.

Giovanna Bembom/Metrópoles

Maria Apparecida Salerno Portella não participou da pesquisa. Mas ela poderia. De acordo com a família da aposentada, será preciso inventar uma “quinta idade” para encaixá-la. Aos 86 anos, quem a procura pela manhã só a encontra na academia. Às segundas, quartas e sextas-feiras, ela começa às 7h15 e só volta para o almoço.

É aula de ioga, alongamento, musculação. Às terças e quintas-feiras, hidroginástica. Segundo as colegas, ela motiva todas a continuarem se exercitando e tem mais energia que qualquer novinha. Só à tarde a aposentada parece lembrar da idade: adora fazer crochê.

“Meus filhos estão crescidos, agora tenho o tempo todo para mim. Ainda não senti o peso da idade, mas também não achei que fosse viver tanto. Estou sempre alegre, feliz, rindo. Cuido do corpo e da alma”, conta.

Quando ficou viúva, em 2005, dona Apparecida morava no Rio de Janeiro. Os filhos a trouxeram para morar na capital federal, onde os três residem. Foi viver com a filha mais nova, mas passa os finais de semana se revezando com os outros filhos. A ideia da academia foi da caçula, que ficou preocupada com a rotina entediante da mãe. Deu certo.

Como sabe que não pode controlar até quando vai viver, ela não sofre com a finitude. Vai ficando enquanto “Deus quiser” e só quer aproveitar o tempo que tem. O cuidado e o amor pela vida aparecem até no rosto de dona Apparecida. As poucas rugas que enfeitam a face, não aparentam ser marcas da idade, são típicas de quem está sempre sorrindo.

“A expectativa de vida das mulheres é maior que a dos homens. Porque elas se cuidam, fazem check-ups e estão mais familiarizadas com o próprio corpo. Ainda tem a questão da construção social. Meninos podem até sentir dor, mas não vão ao médico. Isso não muda na velhice”.

Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade

Caminhando entre velhos

O IBGE estima que, em 2016, os “oitentões” somavam quase 3,5 milhões de brasileiros. E essa faixa precisa de políticas públicas que lhes garantam uma vida tranquila e suave.

“Ficar velho é natural e o aumento da expectativa de vida é uma conquista. Mas as pessoas tratam a longevidade como ameaça às finanças do país e não como algo positivo”, acredita Bahij Amin Auh, vice-presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDPI).

O investimento, por incrível que pareça, deve começar nas crianças. Sem o básico na juventude, ninguém chega bem à quarta idade. “Se você otimiza a alimentação e a rotina de exercício nas primeiras décadas de vida, uma nova geração vai crescer bem nutrida, com bom nível de saúde e educação. E essa pessoa tem mais chance de chegar bem à velhice”, argumenta Kalache.

Aspirações da aposentadoria entre os brasileiros

Uma das principais críticas ao Estatuto do Idoso, que regula os direitos das pessoas com mais de 60 anos, está relacionada ao papel da família. A lei responsabiliza os parentes mais próximos de cuidar de avós e tios mais velhos. Na visão de especialistas, esse artigo é uma maneira de o Estado “lavar as mãos” em relação ao “problema”. “O ônus fica em cima de quem já está sob pressão infinita”, sublinha Alexandre Kalache.

Em geral, as mulheres já sobrecarregadas pela dupla jornada assumem sozinhas a obrigação de zelar pela saúde desses idosos. Têm de prover, muitas vezes sem sucesso, estrutura física, medicar nos horários corretos e fazer companhia. “Essa é a realidade de uma família de classe média ou média baixa. Precisa-se de uma política pública que dê suporte a esse cuidado”, conta o médico.

A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre

Philip Roth, em seu romance ‘Homem Comum’

Arquivo pessoal

Aos 101 anos, Oswaldo e sua esposa Jandyra Polizio, 99, retornaram à casa do único filho para aproveitar a velhice. Vivem hoje em uma ampla chácara, sob o atento olhar de Cleusa, que trabalha para família há décadas. Entre cadeiras de rodas e andadores, o casal está sempre de mãos dadas.

“Ela é muito vaidosa. Escolhe a roupa do dia, não tira os brincos e nunca esquece de passar perfume. Já Oswaldo está sempre fazendo piada e brincadeira com os três netos”, conta Angélica Polizio, nora do casal.

Marido e mulher fazem questão de cuidar um do outro. Eles acordam em horários diferentes, mas só sentam à mesa do café da manhã juntos. Oswaldo pega flores no jardim para presentear a amada e garante que as comidas preferidas dela sejam servidas durante as refeições.

A nora explica que, apesar das limitações da idade, os dois são muito saudáveis e raramente vão ao médico. Só agora, depois de completar 100 anos, Oswaldo começou a confundir ruas e pessoas. Mesmo à beira do centenário, não se sentem velhos.

Desafiam o tempo e fazem planos para o futuro. “O primeiro bisneto deles nasce em janeiro e estão super ansiosos com a chegada do novo membro da família”, conta Angélica.

Um elefante chamado Previdência

A discussão sobre envelhecimento também esbarra em outro tema: a reforma da Previdência. Em poucas palavras, o atual plano do governo é postergar a aposentadoria, aumentando o tempo de contribuição dos trabalhadores.

A justificativa para a mudança é a dificuldade que a população jovem e ativa tem para sustentar o sistema. “O aumento da longevidade não é igual para todo mundo e nem para todas as camadas sociais. Na Europa, isso é minimizado porque as pessoas já têm uma qualidade de vida boa, então conseguem manter a habilidade laboral por mais tempo”, argumenta Ricardo Ojima, presidente da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep).

Fontes de renda esperadas na aposentadoria

Seu Raimundo Gonçalves é uma exceção. Só aposentou-se da profissão de motorista aos 84 anos. Hoje tem 101. Sem estudo, batalhou duro desde menino para garantir o toucinho do almoço da família. “Não tenho letra, eu tenho é treta”, como ele mesmo repete, vez ou outra, quando conta sua história de vida.

Raimundo nasceu em Cajuri (MG), cidade mineira próxima a Viçosa (MG). Casou-se aos 23 anos com Elisa, com quem teve 12 filhos. A moça estava noiva, mas os dois dançaram juntos em uma festa e, segundo ele, no dia seguinte ela foi à casa da família do rapaz devolver a aliança de compromisso.

Para sustentar os filhos, seu Raimundo resolveu comprar uns bois. Construiu um cercado no terreno onde morava com Elisa e os abrigou ali. Cuidou deles por mais de 30 anos. Quando conseguiu juntar dinheiro, adquiriu um caminhão. Já estava com 40 anos quando trocou a roça pelo volante. Sequer tinha carteira de motorista.

Idade média que esperam se aposentar e número de anos na aposentadoria

Seu Raimundo rodou o Brasil. Com a voz firme e a memória vívida, relembra quando transportou passageiros em pau de arara. “Ninguém morreu não. Todo mundo chegou bem”, garante. Na volta, para pagar o combustível, encheu a traseira de coco verde e vendeu na estrada. “Qualquer 300 ou 400 réis por unidade já era dinheiro, né?”, argumenta.

Felipe Menezes/Metrópoles

Raimundo Gonçalves tem 101, mas só se aposentou da profissão de motorista aos 84 anos
Giovanna Bembom/Metrópoles

Ele é um dos dois únicos motoristas habilitados do DF com mais de 100 anos
Felipe Menezes/Metrópoles

Casou-se aos 23 anos com Elisa, com quem teve 12 filhos

No entanto, não deu conta de pagar as parcelas que faltavam para quitar o caminhão. Ficou sem o veículo e sem emprego. Desesperado, entrou num carro velho rumo ao novo mundo: Brasília. Deixou a mulher, 10 filhos, e o 11º na barriga.

A viagem demorou três dias. Quando chegou, não tinha dinheiro nem para uma xícara de café. Mas ouviu um homem dizer que precisava de um motorista. Dessa vez, pegou o volante em troca de almoço. Carregou na traseira de um caminhão os tijolos que levantaram a nova capital. Dois anos depois, trouxe a família. Só conheceu o caçula “já rapazinho”.

Hoje, ainda morando no mesmo terreno que negociou naqueles tempos, em Taguatinga (DF), Raimundo faz parte de um seleto grupo de brasileiros: está entre os 17 mil centenários do país, de acordo com dados de 2016 do IBGE. Virou sua 10ª década com saúde. E é um dos dois motoristas habilitados no DF com mais de 100 anos.

A receita do café da manhã da “saúde” de seu Raimundo

“Um dia fui arrumar uma correia arrebentada no caminhão e ela decepou a ponta do meu dedo. Ficou caída no chão. No hospital, o médico olhou, olhou… Fez uma careta feia e um curativo. Foi a única vez que fui ao médico”.

Raimundo Inácio Gonçalves, motorista, 101 anos