Artigo: precisamos falar da situação feminina nas cozinhas industriais

O machismo impera em todos os campos de atividade: na gastronomia ganha contornos perigosos

Presenciamos, recentemente, um caso vergonhoso de machismo realizado por brasileiros na Rússia. Infelizmente, esses episódios não são tão raros quanto deveriam e me levaram a falar um pouco da situação das mulheres nas cozinhas industriais.

Sou um privilegiado, não sofri com os problemas, mas observei muitos deles enquanto atuei nos bastidores das cozinhas profissionais. Uma situação é óbvia: em restaurantes de alta gastronomia, raramente se vê uma equipe minimamente representativa, não raro, nenhuma mulher está na brigada.

As mulheres não costumam ser colocadas na posição de chef. Proprietários, diversas vezes, assumem não achá-las com “pulso firme” para o cargo. Uma inverdade que leva a um fenômeno comum: cozinheiras em posição de comando, normalmente, são mais exigidas que os colegas homens, precisando constantemente se impor e responder a questionamentos.

Outros fenômenos bizarros ocorrem na divulgação midiática. O livro Taking the Heat (Encarando o calor, em tradução livre), da socióloga Deborah Harris e do co-autor Patti Giuffre, trata justamente dos obstáculos das mulheres neste ramo. Observando 2.206 reviews de restaurantes e perfis de chefs, constataram que apenas 11% eram exclusivamente sobre cozinheiras e a análise dos críticos carregava no termo afetivo, deixando de abordar, por exemplo, a inovação.

Outro fator lamentável é a existência de prêmios para “os” e “as” melhores chefs. Ora, todos estamos entregando a melhor refeição, as combinações mais inovadoras e melhores técnicas. Não deveria fazer a menor diferença se quem produz é homem ou mulher.

Assédio
Entrando em um assunto mais pesado, o assédio sexual também é constante nesses ambientes e por muitas vezes as trabalhadoras calam-se, com medo de perder o emprego. Em uma cozinha por mim chefiada, questionei por que não me deixavam contratar mulheres e a resposta foi: “Já tivemos problemas com assédio e indenizações”.

O irônico é que, em vez de atacar o machismo na cozinha, optou-se por vetar as profissionais.

Outra grande falha do empresariado é reclamar que, normalmente, é necessário autorizar as mães a  acompanharem os filhos em reuniões de colégio ou cuidarem deles quando estão doentes. Apesar de permitirem, se incomodam com a ausência da profissional e, antagonicamente, caso um homem solicite o mesmo, a permissão é negada.

No fim das contas, as dificuldades pelas quais passam as mulheres nesse meio são as mesmas que resultam em casos como o visto na Rússia: ignorância, falta de educação e machismo.