Inaugurado em 18 de maio de 2013, após ser demolido e reconstruído, o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha completa 100 jogos nesta quinta-feira (2/3), com a partida Real x Santa Maria, válida pelo Campeonato Candango. O jogo modesto contrasta com os números acumulados pelo gigante. A começar pelo custo da obra, monumental como a avenida que fica ao lado da arena: foi gasto R$ 1,8 bilhão, o valor mais alto entre os estádios construídos para a Copa do Mundo de 2014. Hoje, o custo mensal de manutenção gira em torno de R$ 700 mil.

Da reestreia até hoje, 2.217.355 torcedores passaram pelos 99 jogos de futebol disputados até agora (confira curiosidades abaixo). Mas o estádio que recebeu importantes partidas da Copa das Confederações de 2013, da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 — além de shows como os de Paul McCartney, Pearl Jam e Guns ‘n Roses — pouco terá a comemorar este ano.

Isso porque a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com apoio da maioria dos 20 clubes da Série A, proibiu a venda de mando de campo no Brasileirão. Dessa forma, o Flamengo — time que mais atuou no gramado brasiliense, com 20 duelos — não voltará a sua segunda casa, pelo Brasileirão-17.

A decisão da CBF irritou o Rubro-Negro carioca. “Essa proibição é muito desagradável. Consideramos uma covardia. Não só com Brasília, mas como as outras arenas. A gente espera que isso seja revertido em algum momento”, disse ao Metrópoles o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello.

Sem poder receber confrontos da principal competição nacional, o Mané Garrincha terá que recorrer a outros torneios. Por ora, o jeito é se contentar com partidas do Campeonato Candango. Nesta quinta-feira (2), Real x Santa Maria vão fazer o jogo de número 100 da casa, às 16h. O calendário de partidas de futebol só está garantido até maio, quando ocorrem as finais da disputa local. No restante do ano, a arena pode ficar às moscas.

 

O arquiteto
Não são apenas os torcedores que podem ficar na mão. Autor do projeto do estádio e personagem essencial na história do novo Mané Garrincha, o arquiteto Eduardo Castro Mello não esconde a frustração com alguns aspectos da obra. No entanto, a reclamação não é pela escassa programação esportiva, mas devido ao projeto que ficou pela metade, uma vez que muitas das intervenções planejadas não foram executadas.

Lamento não ter sido possível finalizar algumas obras complementares previstas no projeto, tais como a Usina de Placas Fotovoltaicas no anel de cobertura do estádio, que iria suprir toda a demanda de energia elétrica a custo zero. Espero que essas melhorias possam, em um futuro próximo, estar à disposição dos moradores de Brasília"
Eduardo Castro Mello, arquiteto que projetou o Mané Garrincha
Luiz Roberto Magalhães/Portal da Copa

Eduardo Castro Mello: projeto de geração de energia ficou só na promessa

 

Paisagismo e túnel inexistentes
Outras obras relacionadas ao Mané Garrincha também não passaram de promessas. É o caso da implantação do projeto paisagístico e de manejo de águas pluviais em todo o setor no entorno do estádio. Havia ainda a previsão de túneis interligando o Parque da Cidade Sarah Kubitschek ao Eixo Monumental, próximo ao Centro de Convenções, e de lá ao estacionamento do estádio (veja na galeria abaixo).

 

Prejuízo para os cofres públicos
As críticas também vêm de órgãos públicos. Ex-presidente e atual conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), Renato Rainha analisou minuciosamente cada relatório das obras envolvendo o Mané Garrincha. O TCDF conseguiu, a partir de um acompanhamento permanente, impedir alguns desmandos.

Mas a ação do Tribunal não foi suficiente. O prejuízo com sobrepreços na arena ultrapassa os R$ 450 milhões. Nessa lista, estão incluídos, por exemplo, contrato de nivelamento a laser do gramado e pagamento maior pela metragem e pela aquisição da grama. Ante todos esses gastos e a pouca utilização do Mané Garrincha, o disgnóstico de Renato Rainha é incisivo:

É um elefante branco e não há solução. Está praticamente sem uso e vem se depreciando"
Renato Rainha, conselheiro do TCDF

A qualidade da obra até hoje é investigada em processo pelo TCDF. O relatório prévio aponta que existem incompatibilidades entre os acabamentos especificados e os materiais empregados na obra. Defeitos como resto de material, trincas, desníveis e até a largura do piso e dos degraus são apontados no relatório, que ainda espera de decisão de mérito.

“É um estádio onde foi gasto dinheiro sem qualquer razoabilidade. Não temos times de tradição e a arena custou mais do que o Maracanã. Não há justificativa. Por muito menos fariam uma arena, na ordem de R$ 300 milhões, e sobraria R$ 1,4 milhão para investir na saúde, por exemplo”, ressalta o conselheiro do TCDF Renato Rainha.

Hoje, sabe-se para onde foi parte do dinheiro usado para erguer o Mané Garrincha: escoou pelo ralo da corrupção. Investigadores da Operação Lava Jato — que apura desvios bilionários de dinheiro público da Petrobras — descobriram que recursos foram destinados ao pagamento de propinas. A informação foi confirmada por um dos delatores preso na ação, Otávio Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez.

 

Quem vai pegar o Elefante Branco no colo?
A pergunta que se faz é: quem vai cuidar do estádio? Com gastos na casa dos R$ 700 mil mensais para a manutenção da arena, o GDF tenta passar a gestão da praça desportiva à iniciativa privada.

O governo local criou uma área chamada ArenaPlex, que envolve a administração não só o estádio Mané Garrincha, como também o Ginásio Nilson Nelson, o Complexo Aquático Cláudio Coutinho e as quadras poliesportivas do local.

Uma empresa foi contratada para elaborar um estudo de viabilidade. De acordo com a Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap), falta apenas o projeto específico para o Ginásio Nilson Nelson. Os demais já foram concluídos. Assim que essa etapa estiver concluída, será lançado o edital de licitação para escolher a empresa que ficará responsável por executar o projeto.

14 fatos marcantes do novo Mané Garrincha