O escritor Ignácio de Loyola Brandão é o novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele foi eleito na tarde desta quinta-feira (14/3), por unanimidade, para a cadeira 11, que era ocupada pelo jurista Helio Jaguaribe. Havia outros 11 candidatos, mas nenhum com o mesmo peso do autor.

Nascido em Araraquara em 1936, Ignácio de Loyola Brandão fez carreira no jornalismo e passou pelas redações da Última Hora e de diversas revistas. Em 1993, ele assinou sua primeira crônica no Estado de São Paulo, no caderno Cidades, e, em 2000, suas crônicas passaram a ser publicadas no Caderno 2 – espaço que ele ocupa até hoje, quinzenalmente, às sextas.

Sua estreia literária foi em 1965, com o livro de contos Depois do Sol. O reconhecimento maior veio com os romances Zero (1975), censurado na ditadura militar e publicado primeiro na Itália – e que vendeu cerca de 900 mil exemplares, e Não Verás País Nenhum(1981), seu best-seller, com 1 milhão de cópias comercializadas. Em 2018, depois de uma década sem publicar ficção, o escritor voltou ao romance e lançou Desta Terra Nada Vai Sobrar a Não Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela – uma obra que nasce de sua observação do momento “confuso” atual do Brasil.

Chamado por Ignácio de Loyola Brandão de “romance político-burocrático”, o livro, apocalíptico, é ambientado num futuro incerto e retrata, por meio de viagens de Felipe e Clara, os protagonistas, um Brasil caótico, com 1080 partidos políticos.

A candidatura de Loyola Brandão ganhou força quando a ABL reconheceu sua trajetória literária com o Prêmio Machado de Assis, em 2016. Muito se especulou à época se era chegada a hora de ele se candidatar a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas só agora ele decidiu participar.

Em entrevista concedida ao Estado em 2016, às vésperas de seu aniversário de 80 anos, Ignácio de Loyola Brandão disse que, 50 anos depois de se tornar escritor, a literatura era sua “grande fuga”. “Faço literatura por uma grande catarse, é a minha terapia. Essas coisas estão dentro de mim e ficam saindo. E faço literatura porque não sei fazer outra coisa. Se eu não fizer, vou ficar muito mal. Fico pensando se um dia isso tudo vai esvaziar dentro de mim”, comentou.

E o que a literatura proporciona para ele? “Alívio. De repente sou tão carregado não sei do que e quando ponho para fora, eu gosto. É tão gostoso criar coisas que às vezes não existem e saber que alguém vai ler, pode gostar e se divertir. De repente me sinto útil. Sei lá por que. É um descarrego, também. E também, quando trago essas memórias, é uma forma de eu recuperar um momento que foi bom da minha vida – mas para onde eu não quero voltar”, respondeu.