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Muito se tem discutido sobre a imagem da mulher no cinema, uma arte quase sempre controlada por realizadores homens. Parece que Taron Lexton, autor de “Em Busca de Fellini”, não teve acesso à nenhuma das reivindicações de igualdade de gênero. Sua película poderia ser descrita como um manual às avessas da representação feminina.

Melhor explicando: a protagonista do filme é o clichê da mocinha ingênua e sonhadora vivendo uma grande aventura de descoberta. Premissa retirada de milhares de folhetins escritos desde o século 19. Congelada no tempo, Lucy (Ksenia Solo), apesar dos 20 anos, vive sob uma proteção exagerada da mãe, Claire (Maria Belo).

Afastada do mundo exterior, a jovem se protege da realidade rabiscando um caderno de desenho e “maratonando” velhos filmes americanos no aparelho de videocassete da família. Não por acaso, a fotografia adotada privilegia tons pastéis, geralmente vinculados aos quartos de bebês, e contraluzes relacionadas ao romantismo e à pureza da arte pictórica Ocidental. 

A estética do filme é uma espécie de reflexo do mundo interior de Lucy. Romântica e pura, ela tem um momento de “iluminação” ao entrar em contato com a obra do transgressor diretor de cinema Federico Fellini. Um mundo diferente de tudo que se encontra em Ohio, no interior dos Estados Unidos.

A paixão súbita pelo “avesso da sua vida” é tão grande que ela resolve viajar até a Itália para conhecer o artista pessoalmente. A partir deste leitmotiv, a película pretende estabelecer um encontro entre a fã e o universo lúdico-circense de Fellini. Mas não ocorre bem assim.

A homenagem cinéfila ao realizador italiano é outra frustração – nem mesmo a promessa de homenagear um dos realizadores de cinema mais conhecidos do mundo cumpre-se ao longo da projeção. Nenhuma forma de entrelaçamento entre a história da mocinha Lucy e o criador italiano demonstra-se relevante para a narrativa.

A frívola protagonista está mais interessada em se esbaldar nos clichês da cultura italiana do que em se inebriar na poesia burlesca de Fellini. A apática Lucy só consegue agir como adulta após sofrer um ataque sexual.

Essa talvez seja uma das características mais cruéis usadas como catalisador de mudanças em personagens femininas: o discurso é que as mulheres precisam ser defloradas (fisicamente e psicologicamente) para amadurecer. A ideia, infelizmente, aparece comumente na sétima arte, a ponto de ser enxertada numa película romântica sem chocar o público.

Avaliação: Ruim

 

 

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