Os bastidores da cobertura policial de um jeito que você nunca viu

Saiba quem é o “Sheik dos Bitcoins” que entrou na mira da PF e dos EUA

Ex-sócio do pastor Silas Malafaia, suspeito enganou fiéis da igreja evangélica e famosos como Sasha Meneghel e o marido, João Figueiredo

atualizado 06/10/2022 10:49

Sheik dos Bitcoins Reprodução

O empresário Francisley Valdevino da Silva (foto em destaque) é o principal alvo da Operação Poyais, deflagrada pela Polícia Federal (PF), na manhã desta quinta-feira (6/10). Conhecido como Sheik dos Bitcoins, ele é investigado por crimes contra a economia popular e o sistema financeiro nacional, inclusive estelionato e lavagem transnacional de dinheiro. No Brasil, o suspeito teria movimentado ao menos R$ 4 bilhões.

Francisley Valdevino é dono de uma empresa que promovia o “aluguel” de criptomoedas. Além disso, foi sócio do pastor Silas Malafaia. Juntos, os dois montaram a AlvoX, companhia que oferece serviços tecnológicos para cristãos interessados em abrir o próprio negócio. Ao jornal O Globo o pastor afirmou que desfez o acordo assim que soube dos boatos de golpe envolvendo a outra empresa do “Sheik”, a Rental Coins.

Francisley, mais conhecido como Francis da Silva, é investigado pela PF por suspeita de crime contra o sistema financeiro nacional. Por meio da Rental Coins, o investigado “alugava” criptomoedas com a promessa de garantir lucros mensais de até 20% sobre o valor investido. No entanto, a empresa faliu, o que causou prejuízos a diversos investidores.

Pelo fato de também ser cristão, “Sheik” se aproximou de pastores, cantores e fiéis da igreja evangélica com o objetivo de convencê-los a apostar na empresa de criptomoedas. Entre os clientes, estavam a filha de Xuxa, Sasha Meneghel, e o marido dela, João Figueiredo, que fizeram aportes de R$ 1,2 milhão.

Documento obtido pelo Metrópoles revela que o casal busca reparação por danos materiais e morais, em decorrência de suposta fraude aplicada pelo grupo econômico, que teria usado de “sofisticada cadeia de subterfúgios para constituir pirâmide financeira e aplicar golpe nos autores”, diz trecho da ação de Sasha e João Figueiredo.

Investigação

As investigações começaram em março de 2022, depois de a Interpol enviar informações e uma solicitação passiva de cooperação policial internacional da Homeland Security Investigations (HSI), vinculada a um dos departamentos da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

Em janeiro de 2022, a Interpol informou à PF que uma empresa internacional com atuação nos EUA e o principal gerenciador dela, Francisley Valdevino da Silva, eram investigados pela Força Tarefa de El Dorado, a El Dorado Task Force, da HSI de Nova Iorque.

Silva teria envolvimento com uma conspiração multimilionária de lavagem de dinheiro, a partir de um esquema de pirâmide de investimentos em criptoativos.

Diante das informações e do pedido de cooperação policial internacional, as investigações começaram em Curitiba. Apurações iniciais revelaram que o brasileiro tinha mais de 100 empresas abertas no país e que o grupo empresarial dele estaria lesando investidores nacionais e do exterior.

Veja os bens do investigado e itens apreendidos na operação:

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Promessas de lucro

No Brasil, o investigado iludiu milhares de vítimas que acreditavam nos serviços prometidos pelas empresas dele, aí incluídos o aluguel de criptoativos com pagamento de remunerações mensais, prometendo retorno de até 20% do valor inicialmente investido.

O brasileiro alegava ter vasta experiência no mercado de tecnologia e de criptoativos e, assim, levava os clientes ao erro. Ele dizia ter uma equipe de traders que faziam operações de investimento com as criptomoedas alugadas e, por isso, geravam lucros capazes de cobrir o pagamento dos rendimentos.

Ao longo da investigação, ficou comprovado que o homem constituiu organização criminosa – inclusive com muitos familiares, que eram funcionários das empresas – para se apropriar dos valores investidos, tanto em reais quanto em criptomoedas, pelas vítimas da fraude. As apurações constataram que, com parceiros no exterior, o grupo promovia fraudes semelhantes nos Estados Unidos e em, ao menos, outros 10 países, focadas em marketing multinível.

Vida de luxo

Outra estratégia identificada pelos investigadores foi a criação de criptomoedas próprias, também comercializadas por meio das empresas e com promessas de retornos mensais extravagantes. As vítimas, porém, não as receberam.

Enquanto o investigado e a organização criminosa usavam uma parte dos recursos de clientes para o pagamento dessas remunerações, o restante servia para a compra de imóveis de alto valor, carros de luxo, embarcações, roupas de grife, joias, viagens e diversos outros gastos.

Cerca de 100 policiais federais, além de servidores da Receita Federal, cumprem 20 mandados de busca e apreensão expedidos pela 23ª Vara Federal de Curitiba (PR). A Justiça também determinou o sequestro de imóveis e o bloqueio de valores dos investigados.

O cumprimento das ordens judiciais ocorre nas cidades de Curitiba, São José dos Pinhais (PR), Governador Celso Ramos (SC), Barueri (SP), São José do Rio Preto (SP) e Angra dos Reis (RJ).

Poyais

O nome da operação faz referência à grande fraude cometida na Inglaterra, no século 19, por um soldado escocês que enriqueceu com a venda de títulos, por meio de uma campanha publicitária elaborada sobre um país que nunca existiu no mundo real.

De forma semelhante, o principal investigado da Operação Poyais enriqueceu com a venda de promessas de lucros, a partir de serviços que nunca foram prestados, com elaborados expedientes fraudulentos e a criação de diversas criptomoedas.

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