Caso Lázaro: PCDF diz que Cleonice foi cortada viva e há indícios de estupro

Segundo o delegado Raphael Seixas, da 24ª Delegacia de Polícia, ela morreu com um disparo de arma de fogo no crânio e foi cortada viva

atualizado 29/06/2021 18:16

Lázaro, suspeito de triplo homicídioReprodução/PCDF

O delegado-chefe da 24ª Delegacia de Polícia (Setor O/Ceilândia), Raphael Seixas, disse nesta terça-feira (29/6) que há indícios de que Cleonice Marques, 43 anos, tenha sido estuprada. A matriarca da família Vidal levou um tiro na cabeça e teve a orelha cortada, ainda viva, segundo laudo da Polícia Civil do DF (PCDF). A bala e a orelha não foram encontradas.

De acordo com ele, a autoria da chacina da família Vidal atribuída a Lázaro Barbosa de Sousa, 32 anos, foi determinada pelas digitais do criminoso encontradas na face interna de uma porta de vidro na chácara do Incra 9, em Ceilândia. Não há vestígios de outras pessoas.

O material encontrado no corpo de Cleonice será confrontado com o DNA de Lázaro. “Há indícios de violência sexual, e o exame vai determinar o que aconteceu exatamente”, explicou o delegado.

No dia 9 de junho, Lázaro teria usado uma arma e uma faca para matar Cláudio Vidal de Oliveira, 48, Gustavo Marques Vidal, 21, e Carlos Eduardo Marques Vidal, 15. O assassino ainda levou Cleonice Marques de Andrade. O corpo dela foi achado no dia 12 de junho na região do Incra 9. O laudo indica que Cleonice pode ter sido morta entre os dias 9 e 11 de junho.

Segundo Seixas, a chacina da família Vidal é um “crime de difícil elucidação”, uma vez que as pessoas envolvidas morreram, não há testemunhas nem imagens de câmeras de segurança. “Há detalhes que só ele [Lázaro] ou ela [Cleonice] poderiam esclarecer. A morte do Lázaro realmente prejudica a investigação”, disse.

Ainda não há conclusão sobre o que motivou o crime contra a família Vidal.

 

Delegado Raphael Seixas, da PCDF
Delegado Raphael Seixas

 

Lázaro morto

Lázaro morreu com 39 tiros, segunda-feira (28), após resistir à prisãoOs policiais de Goiás dispararam 125 vezes antes de o criminoso ser morto em uma região de Águas Lindas (GO). Desde os assassinatos na chácara Vidal, em 9 de junho, ele ficou 20 dias foragido.

A morte de Lázaro não encerra as investigações sobre a participação do psicopata em assassinatos, invasões, roubos, sequestros e estupros. A polícia quer esclarecer pontos nebulosos da relação do psicopata com uma suposta rede criminosa que pode explicar o terror espalhado pelo maníaco ao longo de 20 dias no DF e em Goiás.

Crimes por encomenda, disputas de terras e especulação imobiliária estão entre as linhas a serem exploradas pelas investigações.

“Ficou bem claro para a gente que ele contava com o apoio de algumas pessoas. Ele, possivelmente, vinha próximo à BR-070 para receber alimento e depois voltava para o mato”, disse o delegado Raphael Seixas, sem detalhar se essa rede de apoio estava envolvida ou não na chacina.

Sobre a possibilidade de Lázaro estar ligado à especulação imobiliária, Seixas destacou: “Não posso entrar em detalhes, mas não descartamos nenhuma possibilidade. Vamos checar todas as informações, conversamos com os parentes”.

Há oito inquéritos abertos em Goiás sobre crimes praticados por Lázaro. O matador teria mais de 30 crimes nas costas – entre os quais, homicídios, latrocínios (roubo seguido de morte), assaltos e estupros.

Outros sete inquéritos foram abertos pela Polícia Civil do DF (PCDF) por roubo, homicídio e estupros. Cinco são de 2021 e um é de 2009. Todos em Ceilândia, região em que o psicopata morava com a mulher e a filha.

Chacina

Desde 9 de junho, quando Lázaro foi considerado o principal suspeito de assassinar brutalmente uma família no Incra 9, em Ceilândia, uma verdadeira caçada ao criminoso foi deflagrada pelas forças de segurança.

Após a chacina, que tirou a vida de Cláudio Vidal de Oliveira, 48, Gustavo Marques Vidal, 21, e Carlos Eduardo Marques Vidal, 15, o assassino ainda levou a matriarca da família, Cleonice Marques de Andrade, 43.

O corpo da mulher foi encontrado três dias depois, em um matagal. Durante os 20 dias de fuga, Lázaro invadiu chácaras, fez famílias reféns e baleou outras quatro pessoas, entre elas um policial.

Família Vidal:

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Crime por encomenda

Depoimentos prestados à PCDF por testemunhas durante as investigações da morte da família Vidal  já indicavam que Lázaro não agia sozinho.

Uma pessoa que teve a chácara invadida em 17 de maio no DF contou que o psicopata chegou a se desculpar “dizendo que tinham encomendado uma cabeça, mas que ele havia entrado na casa errada”.

Outra testemunha, parente dos Vidal, relatou que no ano passado, cinco ou seis integrantes da família venderam suas frações de terra que receberam de herança no Incra 9 para uma mesma pessoa. O depoente, por exemplo, vendeu a parte dele por R$ 1 milhão, o que demonstra o interesse imobiliário na região.

Advogado dos familiares da família Vidal, Fábio Alves acredita que Lázaro poderia ter outras motivações para a chacina que não fosse apenas roubar. “Briga por terras, crimes cometidos para comprar áreas mais baratas, vingança. Tudo isso deve ser apurado”, disse ao Metrópoles.

 

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Jagunço

Segundo o secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, as investigações apontam que Lázaro agiria como jagunço e segurança, “um executor de ordens”. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), também falou na mesma linha: “Ele não é um lobo solitário. Tem uma quadrilha por trás”.

Outro fato que reforça a teoria é o dinheiro encontrado no bolso de Lázaro: R$ 4,4 mil. O montante seria utilizado para o psicopata sair de Goiás, já que não havia interesse na rede que o acobertava que ele fosse preso e entregasse seus comparsas.

Na mochila do criminoso, também havia remédios, alimentos instantâneos e muita munição. Itens de difícil acesso pelo maníaco, que estaria escondido na mata durante o período que esteve foragido. O psicopata também estava com a barba feita e usava um agasalho da Polícia Militar do DF.

A área entre Edilândia, Girassol e Cocalzinho, em Goiás, onde Lázaro se escondeu por boa parte de sua fuga, também é alvo de especulação. A força-tarefa que procurava pelo criminoso chegou a falar que, com a presença dele na região, chacareiros e fazendeiros começaram a vender propriedades a preços mais em conta, o que poderia favorecer o enriquecimento de outras pessoas, como Elmi Caetano, 74, preso por ajudar o psicopata.

Outra ponta das investigações é o assassinato de um caseiro em Cocalzinho, dias antes da chacina da família Vidal. Segundo testemunhas, Lázaro chegou encapuzado e com colete à prova de balas. Entrou na propriedade atirando e não levou qualquer pertence da vítima. O inquérito está aberto, e uma execução não está descartada.

Ao ser questionado sobre a existência de um esquema de compra e venda de lotes na região, ao qual Lázaro pudesse fazer parte, Rodney Miranda afirmou que as investigações trabalham em todas as linhas. “Temos várias linhas de investigação, e essa é uma delas. Nós entendemos que teve participação de outras pessoas. Ou no mando ou até na execução. Isso será esclarecido posteriormente”, complementou o secretário de Segurança Pública de Goiás.

Ficha criminal

A vida criminal de Lázaro começou em 2008. Na época, ele foi preso por um duplo homicídio em Barra do Mendes, município baiano que fica a 540 km de Salvador. Ele é natural da cidade.

Segundo a Polícia Civil baiana, o criminoso foi indiciado pelos assassinatos de José Carlos Benício de Oliveira e Manoel Desidério Silva, no povoado de Melancia. O inquérito, concluído e enviado à Justiça, aponta que Lázaro atingiu as vítimas com disparos de espingarda e depois fugiu, apresentando-se dias depois em uma unidade policial. Após a prisão, ele acabou fugindo para o Centro-Oeste.

No DF, chegou a ser condenado por roubo e estupro. Mas, também, conseguiu fugir do sistema penitenciário em 2016.

A capacidade de fuga de Lázaro já é velha conhecida da polícia e do sistema prisional goiano. Em julho de 2018, ao tentar escapar junto de outros cinco detentos do presídio de Águas Lindas (GO), no Entorno do Distrito Federal, ele foi o único que obteve êxito.

Lázaro foi preso no dia 8 de março de 2018, por suspeita de assassinatos ocorridos na Bahia, além de estupro, roubo e porte ilegal de armas no DF. Ele tinha, na época, três mandados de prisão em aberto.

A ausência do psicopata entre os internos do presídio de Águas Lindas só foi sentida no momento de recontagem dos detentos. A essa altura, no entanto, Lázaro já estava longe. A fuga ocorreu durante a madrugada, por volta das 2h, de 23 de julho de 2018, segundo a Diretoria-Geral de Administração Penitenciária de Goiás (DGAP).

Veja fotos das operações em Goiás:

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Personalidade violenta

Laudo psicológico feito no âmbito de um dos processos contra Lázaro Barbosa, em 2013, constatou que o homem tem características de personalidade violenta, como agressividade, ausência de mecanismos de controle, dependência emocional, impulsividade e instabilidade emocional.

Ainda de acordo com os psicólogos que assinam o documento, ao qual o Metrópoles teve acesso, o criminoso tem possibilidade de “ruptura do equilíbrio, preocupações sexuais e sentimentos de angústia”.

O maníaco, segundo os especialistas, teve o desenvolvimento psicossocial prejudicado devido a agressões familiares, uso abusivo de álcool e drogas, falecimento familiar, abandono das atividades escolares, trabalho infantil e situação financeira precária.

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