DF: regiões mais pobres sofrem com tudo, até com falta de árvore

Estudo aponta para aumento da desigualdade de renda no Distrito Federal em três anos. Até a arborização é prejudicada em áreas carentes

Andre Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 24/11/2019 14:03

O Distrito Federal é uma das regiões brasileiras com maior desigualdade social. As diferenças entre moradores da capital aparecem em aspectos como renda, falta de vagas em escolas próximas à residência e até na arborização das cidades.

O contraste vivido pelos brasilienses foi tema de estudo desenvolvido pelo Movimento Nossa Brasília, Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e pela Oxfam Brasil. A segunda edição do Mapa das Desigualdades do DF leva em consideração cinco regiões administrativas: Samambaia, Estrutural, São Sebastião, Paranoá e Itapoã.

A desigualdade aparece no dia a dia dos moradores do quadradinho e também em números. O Índice de Gini, que mede a diferença de renda em uma escala de 0 a 1 — sendo 1 a maior desigualdade per capita — é um deles. Na capital, em 2018, o índice era de 0,58, de acordo com a pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD), divulgado pela Companhia de Planejamento do DF (Codeplan). Um valor maior do que o constatado na primeira edição do mapa: 0,53, em 2015.

Assessora política do Inesc e membro do Movimento Nossa Brasília, Cleo Manhas acredita que a desigualdade social em Brasília é crônica, sendo presente desde a sua constituição. “O governo propôs a criação de uma capital para virem os funcionários do Rio de Janeiro, antiga capital, e não pensaram que os operários fossem ficar por aqui”, aponta. Os candangos acabaram, então, ocupando espaços que foram crescendo ao longo dos anos, sem moradia digna, emprego e infraestrutura adequada.

“O mais perverso é que o restante do país vê o Distrito Federal como uma ilha da fantasia, onde a população vive com as maiores rendas. No entanto, isso não é sequer uma meia verdade”, alerta a publicação. “A parcela que vive de acordo com essa visão é minoria. A maioria convive com ausências e com a própria visibilidade”, registra o documento.

Bem viver e lazer

Conhecida como “cidade parque” devido ao grande número de árvores e jardins, Brasília possui, aproximadamente, 5 milhões de árvores  – a estimativa é da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap).

Flamboyants e ipês-amarelos, roxos e brancos são apenas algumas das espécies que encantam quem passa pelas ruas de algumas regiões da capital. Enquanto isso, outras não contam com a mesma sorte, como aponta o Mapa das Desigualdades.

Segundo a sondagem, apenas 20% dos domicílios do Itapoã estão em ruas arborizadas. A falta de áreas verdes tem implicações que vão além da beleza. Ruas com ausência de árvores tendem a sofrer mais com as altas temperaturas e os períodos de seca, comuns no DF.

À reportagem, a Novacap afirmou que o processo de arborização das regiões administrativas se deu de acordo com o desenvolvimento de cada território. “Algumas foram planejadas, como o Plano Piloto e Lago Sul, com áreas bem definidas, outras tiveram um planejamento inicial, porém sofreram expansão ao longo do tempo, descaracterizando o bairro”, frisa a empresa.

A Novacap cita ainda as cidades que surgiram sem nenhum planejamento, sendo caracterizadas primeiramente como “invasão” para depois serem regularizadas. Nesse casos, “não houve esse cuidado, não existindo, na maioria, espaço para plantio, a não ser nas áreas periféricas ou em pequenos espaços adaptados para tal”, diz a estatal.

Contraste

Cerca de 55% da população da capital está entre a renda baixa e média baixa. O Mapa da Desigualdade chama a atenção para o fato de que os territórios majoritariamente negros são os mais pobres.

Segundo a Codeplan, 63,9% dos negros moram em regiões administrativas e têm renda média domiciliar de até R$ 3.101, abaixo do rendimento mensal para a capital medido pelo IBGE, de R$ 3.908. Já em relação à renda per capita, registrou índice quase duas vezes maior do que a média nacional — R$ 2.407 contra R$ 1.337.

Josias Barreto (foto abaixo), 67 anos, saiu do Rio de Janeiro na década de 70 para estudar e trabalhar no DF. Hoje, é aposentado do serviço público. Apesar de considerar que o Distrito Federal ainda tenha setores deficitários — como transporte, saúde e educação —, pontua que a vida é tranquila no centro da capital. “O Plano Piloto tem mais conforto em termo de residência, comércio de qualidade”, salienta.

Andre Borges/Esp. Metrópoles

 

No entanto, o aposentado chama a atenção para as diferenças entre o coração de Brasília e outras regiões. “É grande. As cidades foram crescendo, porque as pessoas estavam sendo expulsas do Plano por ser muito caro”, afirma.

As localidades mais distantes do centro da República concentram os brasilienses que sobrevivem com bem menos do que a renda média estimada para a capital. Na Estrutural, por exemplo, 42% dos moradores viviam, no ano passado, com até um salário mínimo. É o caso de João Vieira de Souza (foto abaixo), 68. Joãozito, como é mais conhecido, trabalhou no Lixão da Estrutural por 15 anos, até seu fechamento no ano passado. Nessa época, garante que a situação era melhor – ele e a esposa ganhavam cerca de R$ 1 mil por mês.

Até então, o casal residia na Santa Luzia. “Lama, terra e poeira”, resumem para a família os anos vividos na expansão. Hoje, morador da Estrutural, ele depende do lucro do “botequinho” que abriu. “Ganhamos uns R$ 700 no mês”, conta. Depois de sofrer um acidente e quebrar o fêmur, João não conseguiu ser contratado nas cooperativas que abrigam apenas alguns dos catadores que ficaram sem emprego após o fechamento do lixão. “Eu não consigo ficar muito tempo em pé, por isso não consigo trabalhar lá”, explica.

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Joãozito nunca teve chance de frequentar a escola. “Estudei três dias e meu pai me tirou do colégio. Fui para a enxada direto”, lembra o sergipano, que veio para a capital em busca de emprego. “Aprendi a escrever meu nome porque minha mulher me ensinou. Se não, eu não saberia nada”, relata.

Ele acredita que, se tivesse estudado, a vida seria diferente. “Eu sou inteligente”, afirma. Questionado se gostaria de voltar a escola, Joãozito diz que sim, mas se questiona: “Será que papagaio velho aprende a cantar?”.

Educação

De acordo com o Mapa da Desigualdade, em territórios de baixa renda são mais comuns os casos de crianças e adolescentes que frequentam escolas fora de suas regiões de moradia. O estudo aponta a falta de vagas em instituições de ensino perto das residências como justificativa.

O menor índice constatado foi para o Itapoã, onde apenas 26% dos estudantes estão matriculados em escolas locais. Na Estrutural, 51% dos jovens estudavam na região administrativa em 2018. O número foi melhor do que em 2016, quando eram apenas 38%.

É o caso da família da Edilene Maria da Silva (foto em destaque), 28, que vai ganhar um novo integrante em breve. Dos três filhos que a gari tem na escola, apenas um está matriculado em unidade de ensino da própria cidade. “Um estuda no Guará e outro, no Cruzeiro”, conta a mulher, grávida de 9 meses.

As crianças não acham ruim estudar longe, diz a mãe. Mas acompanhar a educação dos filhos se torna um problema para Edilene. “Para ir nas reuniões, fica ruim o deslocamento”, frisa.

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Cleo Manhas explica que estudar longe de casa traz consequências além da financeira, com despesas de transporte para outras regiões. “Significa não acompanhar a vida do filho, ser discriminado na escola”, afirma a assessora política. Em muitos casos, destaca, os estudantes são vistos com preconceito por virem de regiões mais pobres. Além disso, há o impacto na qualidade de vida desses jovens, que precisam passar por rotinas pesadas para conseguir estudar. “É uma sequência de violações de direitos”, considera.

Segundo a Secretaria de Educação do DF, Samambaia, São Sebastião e Paranoá reúnem 82,2 mil estudantes para 3,2 mil professores. Ao todo, essas regiões têm 102 unidades escolares para atender a população. Dados sobre a Estrutural e o Itapoã não constam entre as informações disponibilizadas pela pasta.

A secretaria informou que as cinco regiões administrativas reúnem 93,6 mil estudantes para 3,7 mil professores. Somadas, elas têm 112 unidades escolares para atender os moradores em idade escolar. A pasta estima serem necessárias 180 novas unidades escolares na rede pública de ensino. Para as regiões mais críticas quanto ao número de vagas ofertadas, estima-se a construção de três escolas na Estrutural e 27 no Itapoã. Obras estão previstas para o próximo ano – contudo, a execução do plano depende da disponibilidade de recursos orçamentários e financeiros.

Ainda segundo a pasta, a necessidade de alunos se deslocarem para outras regiões a fim de estudar ocorre, muitas vezes, por falta de terreno destinado à construção de escola na cidade onde moram. Há ainda localidades não regularizadas, “o que impossibilita legitimamente a Secretaria de Educação de acompanhar a crescente demanda, principalmente nos assentamentos, característica muito comum no DF”.

Falta asfalto, sobra lama

De acordo com o Mapa da Desigualdade, os locais pesquisados sofrem com a falta de vagas nas escolas; postos de saúde; saneamento básico; segurança pública que atenda a população de maneira eficiente; calçadas, ciclovias e paradas de ônibus cobertas, entre outros serviços.

A Estrutural, por exemplo, é o local em que mais casas estão próximas a ruas alagadas – 60,3% contra 17,31% no Plano Piloto – e ruas esburacadas – 55% dos casos. A cidade sofre ainda com a falta de ruas residenciais asfaltadas. Enquanto o Plano Piloto tem asfalto em sua totalidade, a Estrutural conta com apenas 55% dos domicílios com vias nessas condições.

A rua da casa onde Edilene vive há 12 anos foi asfaltada há apenas seis anos. É uma das melhorias apontadas por ela na região. “Mas ainda tem muita coisa para mudar”, destaca. Ela pede por mais segurança. Depois de ser assaltada três vezes, a solução é não sair de casa. “Quanto mais evitar sair, melhor”, comenta. A gari aponta ainda as deficiências da rede pública de saúde.

“Geralmente não tem médico. Para passar mais de 20 horas, é melhor ir na farmácia mesmo”, explica. Só nos casos em que o remédio receitado pelo farmacêutico não funciona é que Edilene e a família procuram atendimento em unidades públicas de saúde. A mulher sente a diferença entre os serviços oferecidos no centro de Brasília e na cidade onde mora. “A diferença é tremenda. A melhoria lá é mais do que aqui. [Deve ser] por causa da região, onde tem deputado, onde é mais visado”, sugere.

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Políticas públicas

Os contrastes sociais também estão presentes na forma como a população de menor renda é tratada pela máquina pública. “Quanto mais pobre a região, mais a polícia existe para reprimir a população”, ressalta a assessora do Inesc.

Ela aponta ainda para a dificuldade que essas pessoas têm de locomoção com o transporte público fora das horas de trabalho, inibindo o acesso à cultura e ao lazer, por exemplo.

Cleo alerta que a desigualdade acaba afetando, inclusive, os próprios moradores dessas regiões. “É uma doença contagiosa. O pessoal da Estrutural trata mal as pessoas da Santa Luzia”, esclarece, citando a expansão da cidade.

A especialista explica que o comportamento é reflexo do aumento da demanda aos serviços públicos, já saturados. “Em vez de cobrar do governo, por não cumprir seu papel, os moradores ficam irritados com quem está chegando”, pontua. A solução vem, principalmente, com a implementação de políticas públicas específicas para as regiões administrativas de menor renda.

“Os gestores pensam muito pouco nas periferias. A desigualdade também se dá porque a forma como os governos tratam as populações que vivem nas regiões de alta renda e nas periferias é diferente, como se eles não pagassem impostos”, destaca.”É por isso que fazemos [o Mapa da Desigualdade], para que melhore”, completa.

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