Delegado sobre homem que extorquiu deputado: “Era o mandante”

De acordo com Giancarlos Zuliani, Daniel Luís Mogendorff liderava organização. Polícia aguarda quebra de sigilo telefônico de acusado

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atualizado 06/09/2019 22:49

A Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos (DRCC) considera que Daniel Luís Mogendorff, 35 anos, é chefe de uma organização criminosa acusada de ataques virtuais e extorsões ao deputado federal Luis Miranda (DEM-DF). Preso preventivamente pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) nessa quinta-feira (05/09/2019), ele determinava como os comparsas deveriam agir. “Era o mandante. Durante o jantar [com o parlamentar], chegou a ligar para um dos youtubers e mandou apagar o vídeo, para mostrar seu poder sobre os outros”, ressaltou o delegado Giancarlo Zuliani Júnior.

Outra demonstração de suposta influência: “Daniel [que veio do Uruguai e tem passaporte alemão] alegava também que uma reportagem seria divulgada em rede nacional contra Luis Miranda e, mediante pagamento, poderia barrar. Na filmagem, ele disse conhecer pessoas da emissora. Já quando foi ouvido, afirmou que contrataria um advogado e derrubaria a matéria com uma liminar”, ressaltou o chefe da DRCC.

Em depoimento, ele confessou, em parte, os delitos. Conforme a coluna Grande Angular mostrou, há pelo menos um mês, Daniel (à direita na foto) vinha mantendo contato com o parlamentar. Nas conversas, ele exigia R$ 760 mil em troca da promessa de cessar publicações produzidas por um grupo de youtubers que atacava o político do DF nas redes sociais.

O youtuber relatou que, de fato, pediu R$ 400 mil ao parlamentar para evitar que uma matéria que feria a imagem dele fosse ao ar em uma emissora brasileira. No entanto, negou que o dinheiro fosse usado para ser distribuído entre outros youtubers que usavam as redes sociais para manchar a imagem de Miranda. Segundo o preso, ele usaria o valor para contratar um advogado e, assim, tentar evitar que o programa fosse veiculado.

Veja uma parte do encontro. Miranda aparece de preto nas imagens:

De acordo com Giancarlos Zuliani, o suspeito afirmou que deixou Israel e desembarcou no Brasil, na quarta-feira (04/09/2019), para fazer um trabalho de edição de vídeo para um cliente. “Ele disse que, pelo serviço, receberia R$ 360 mil. Sabemos que é um valor muito alto para esse trabalho. Por isso, não acreditamos”, disse o delegado.

Segundo Zuliani, a apreensão do telefone celular que estava em poder do suspeito poderá contribuir de forma substancial com as investigações. “É uma fonte rica em informações e que poderá revelar novos detalhes de como esse grupo agia”, disse. A polícia aguarda quebra de sigilo para saber do conteúdo.

Sobre as afirmações do youtuber durante a conversa com Luis Miranda de que um desembargador do Distrito Federal teria recebido dele cerca de R$ 250 mil para reter o passaporte do deputado, Daniel Mogendorff se manteve em silêncio e não quis responder as perguntas do delegado.

A respeito de outros integrantes da organização criminosa, Giancarlos explicou que todos foram indiciados, mas vivem atualmente nos Estados Unidos. “Isso não irá impedir a continuação do processo penal. Caso sejam julgados e condenados à revelia, poderão ser presos caso pisem em solo brasileiro”, disse.

A DRCC ainda não tem detalhes sobre Daniel, mas pedirá informações para a embaixada de Israel. “Sabemos muito pouco ainda. Precisamos identificar o que ele faz, onde mora, por exemplo.” Ele responderá por extorsão, na prisão em flagrante, e por associação criminosa em outro inquérito. Ainda não se sabe se outras pessoas foram extorquidas por ele.

Em janeiro, o deputado já havia feito denúncias contra três youtubers que estavam produzindo vários vídeos contra ele. “Mas tratamos como crime de menor potencial ofensivo. Só finalizamos o inquérito e encaminhamos à Justiça”, destacou o delegado. Em julho, o deputado voltou à delegacia para mostrar que essas ações, ao contrário do que foi pensado anteriormente, eram orquestradas. “Pessoas que estavam já na investigação do começo do ano apareceram novamente, junto ao nome de Daniel”, afirmou o delegado.

Daniel desembarcou em Brasília na quarta-feira (04/09/2019), supostamente para receber o dinheiro cobrado do deputado. Porém, ele não esperava que Miranda comunicasse à PCDF o encontro. Diante da possibilidade de um flagrante, os investigadores prepararam o parlamentar.

Nas roupas de Miranda, instalaram microfones e câmeras invisíveis. Um dos botões da camisa, por exemplo, serviu para esconder uma filmadora que registrou a extorsão. Durante a reunião, que ocorreu no restaurante Coco Bambu do Lago Sul, o suspeito, sem saber que era gravado, teria confessado uma série de crimes, inclusive o de lavagem de dinheiro para políticos influentes por meio da venda de diamantes. Instruído pela polícia, para caracterizar o flagrante, o deputado disse ao criminoso que daria somente R$ 4 mil de sinal e depois repassaria o restante. Nesse instante, mais de 20 agentes à paisana monitoravam o encontro.

Preso em hotel

Após guardar o dinheiro, o homem entrou em um carro e se dirigiu ao Carlton, no Setor Hoteleiro Sul, onde foi detido pela equipe da DRCC. A operação foi comandada pelo delegado Giancarlo Zuliani.

Procurado pelo Metrópoles, Luis Miranda contou detalhes da coação sofrida. “Era um grupo que a PCDF investigava há um tempo, e decidiu promover ataque a mim na internet. A intenção dessa quadrilha era minar minha imagem e conseguir dinheiro”, disse. Já passava da meia-noite quando Miranda chegou ao Departamento de Polícia Especializada (DPE) para prestar depoimento.

O Metrópoles teve acesso às três páginas da oitiva do parlamentar. Nelas, o político narra que Daniel teria dito que um programa de uma grande emissora de televisão brasileira estaria produzindo uma reportagem com denúncias contra o deputado, mas, caso recebesse R$ 1 milhão, conseguiria usar sua suposta influência e impedir que a matéria fosse ao ar.

Antes do encontro no Coco Bambu, pela manhã, no Carlton, o criminoso teria convidado Miranda para um café e pediu R$ 360 mil para excluir do YouTube vídeos que denigrem a reputação do deputado do DF.

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