Conheça Maria, menina do DF que desenvolveu síndrome rara ligada à Covid-19

A garota foi internada em quatro hospitais e passou pela UTI. Família não imaginava que o coronavírus pudesse causar esse efeito em crianças

atualizado 07/11/2020 10:21

Maria Eduarda Mowbray, menina de Brasília com a síndrome inflamatória multissistêmica pediátricaArquivo Pessoal

Desde o início da pandemia de coronavírus, a população passou a ter cuidado redobrado com os idosos, já que eles são o grupo que mais correm risco de morte, caso entrem em contato com o Sars-Cov-2. No entanto, desde julho, os cientistas descobriram uma síndrome muito rara e ainda desconhecida, que se desenvolve apenas em crianças que já pegaram a Covid-19: a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P). Órgãos de saúde do mundo todo chamam atenção para a nova doença.

Segundo o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês), a SIM-P é uma condição que deixa diferentes partes do corpo inflamadas, incluindo o coração, pulmões, rins, cérebro, pele, olhos e órgãos gastrointestinais. Em casos mais graves, a criança pode, inclusive, deixar de andar.

Foi o que aconteceu com a Maria Eduarda Mowbray, 10 anos. No caso dela, as complicações começaram com uma dor no joelho, em meados de setembro. A mãe da menina, Ingrid Mowbray, a levou no ortopedista e o médico, à época, diagnosticou um espaçamento no joelho. Recomendou apenas analgésicos.

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Em 19 de setembro, a criança já não conseguia mais andar e foi internada no Hospital do Paranoá. “Acompanhei ela no quarto e ela dizia que não aguentava mais de dor”, recorda a madrinha de Maria, Laura Karoliny Nogueira.

A partir daí, começou a saga para fazer o diagnóstico preciso do que afligia a criança. “Levantaram a hipótese de ser anemia falciforme, dengue, um monte de coisa, mas tinham certeza que não era nada ortopédico”, relembra Laura.

O diagnóstico

Depois de fazerem o exame sorológico e o RT-PCR, ficou constatado que Maria já tinha tido contato com o coronavírus, apesar de não ter desenvolvido sintomas. A partir daí, levantou-se a hipótese de que a garota estava com SIM-P.

Maria foi transferida para o Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), na Asa Sul, onde foi intubada. “Foi a coisa mais chocante pra mim. Duas semanas antes ela era uma criança saudável, e naquele momento ela estava intubada”, conta a madrinha, ainda assustada.

Segundo os médicos, a doença tinha afetado os órgãos da menina, e a intubação serviria para amenizar o esforço, principalmente do coração. Após melhora do quadro, a menina foi retirada dos aparelhos e transferida ao Hospital de Base, mas permaneceu na UTI, onde os médicos confirmaram o diagnóstico de SIM-P. Após a confirmação da doença, ela foi transferida, em 9 de outubro, para o Hospital da Criança de Brasília (HCB), para ter tratamento especializado. Ela teve alta oito dias depois.

“Eu conversei com muitas pessoas sobre essa doença, e todas elas tomaram um susto quando souberam que essa doença existia. Ninguém ficou sabendo que o coronavírus podia ter esse efeito em crianças”, contou Laura.

Números da síndrome

Segundo dados do Ministério da Saúde, até o dia 3 de outubro foram confirmados 437 casos da SIM-P em todo o Brasil. No Distrito Federal foram 38 casos, um deles chegou a óbito. De acordo com a Secretaria de Saúde (SES), os casos de SIM-P no DF começaram a ser contados a partir de julho, após publicação de nota técnica da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Divep/SVS).

Ainda de acordo com a SES, o óbito registrado corresponde a uma adolescente, de 17 anos. A pasta disse ainda que a SIM-P “tem chamado a atenção dos profissionais de saúde no mundo todo. Com sintomas semelhantes aos observados na síndrome de Kawasaki, e sem uma definição clínica completa, a SIM-P tem acometido crianças e adolescentes entre 0 a 19 anos”.

A semelhança com a síndrome de Kawasaki é uma boa coisa, segundo a intensivista pediátrica do HCB, Aline Saliba. “Os médicos estão extrapolando o tratamento da síndrome de Kawasaki para a SIM-P, e tem dado bons resultados”, contou.

Segundo a médica, a maior parte dos casos não faz a criança parar de andar, e os casos em que isso acontece é provável que o paciente recupere as funções motoras após tratamento.

“Geralmente as crianças que param de andar desenvolvem essa condição devido ao estado grave que ficaram, e não a doença em si. O prognostico da SIM-P é muito bom, os pacientes ficam em estado grave mas é um recuperação quase completa e a mortalidade é baixa”, disse a médica.

Previsão otimista

A previsão otimista da médica é confirmado pela mãe de Maria. “Ela está bem melhor, ainda não voltou a andar 100%, usa as pontinhas dos pés. A Maria Eduarda ficou muito inchada e sentia muita dor, mas agora está se recuperando”, contou.

“O que a gente espera agora é que ela se recupere 100% e não deixe mais de brincar como ela fazia antes”, disse Ingrid.

A menina está fazendo tratamento fisioterápico e reumatológico no Hospital da Criança. Segundo o HCB, atualmente 31 crianças estão sendo tratadas no hospital com a doença. Todas elas passaram por internação, mas já estão em acompanhamento ambulatorial.

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