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Futebol arte. Esta expressão aparece muito em papos de boteco, campinhos com crianças jogando e na boca de nostálgicos, gente que defende um esporte de outro tempo. Mas qual a parcela, de fato, de arte dentro do futebol? Quais qualidades plásticas, estéticas, de beleza criativa e arroubos do sublime, podemos encontrar na experiência do jogo?

Talvez, do ponto de vista do entendimento e da percepção, esse processo, lá dentro da cognição profunda da mente, de fato tenha suas ressonâncias na recepção da arte.

Há os que defendem que o prazer derivado do jogo é pura e simplesmente estético. O filósofo Immanuel Kant afirmava: o “belo” (justamente um jogo entre a imaginação e o entendimento) é um prazer desinteressado e não se limita às formas artísticas. Está no olhar, que agrada universalmente.

É essa a linhagem de pensamento do também alemão Wolfgang Welsch: “Ao negligenciar o caráter artístico do esporte, deixamos de compreender por que ele é tão fascinante para o grande público. Na realidade, o verdadeiro fascínio do esporte deriva de aspectos que, de forma diversa, estamos habituados a experimentar e admirar nas artes.”

Esporte e arte: intermitências

 

A ideia de futebol arte está na matriz da cultura brasileira. Para nós, a modalidade de fato é mais que um esporte. Trata-se de uma profunda experiência cultural. Devaneios midiáticos e consequências do hiper-capitalismo à parte, para o brasileiro o estádio é um palco, como era a arena para os gregos. Que Neymar tenha lá seus momentos de performance, não me surpreende nem um pouco. Na nossa ontologia do futebol reside a arte, e assim ela deve se manter.

Amanhã teremos a chance de presenciar mais um capítulo na história desta forma artística. Brasil e Bélgica devem protagonizar um dos duelos mais excitantes da Copa. O time belga, notável, trabalha com passes rápidos, triangulações e jogadas de habilidade. Seu esquema tático é um ousado 4-2-3-1, com craques como Hazard e De Bruyne jogando depois da linha intermediária para servir o imenso centroavante Romelu Lukaku. Não sabemos se terão o disparate de atacar o Brasil dessa forma, mas a promessa é de velocidade e agressividade.

Mozart Couto ilustra “Futebol e Raça”

Você deve estar se perguntando: “ué, mas essa não é uma coluna sobre quadrinhos”? Ora, não vamos esquecer que o futebol está também no pop global, e que este duelo me traz as reminiscências de se pensar a fabulosa arte gráfica belga, da qual tanto já falei aqui, aqui e aqui. De fato, quando o assunto é HQs (ou bande dessinée, BD), é difícil competir com os belgas. Do mesmo jeito que uma minúscula nação de 11 milhões pôde produzir esta indomável geração de boleiros, ela foi capaz de criar uma das escolas mais influentes da nona arte.

Mas e o Brasil? Seria páreo para a Bélgica nas HQs, da mesma forma que é no futebol? Pensando nisso, resolvi escalar duas “seleções” de quadrinhos belgas e brasileiros, com pequenos comentários, para testar o poderio ofensivo dos dois países. Os belgas vêm com um esquadrão de clássicos. É como se tivessem Puskas, Di Stéfano e Garrincha no mesmo time. Seriam favoritos. Mas o Brasil tem arte não apenas com a bola, mas é cirúrgico também no nanquim. Não teria Maracanaço, não teria 7×1. Brasil e Bélgica compartilham o “desinteresse” fundamental da arte no futebol, nos quadrinhos e na vida. Que vença o mais belo.

Escrete belga. Diabos Vermelhos:
1 – Smurfs (Peyo): Os diabos do futebol são vermelhos, mas os duendes azuis certamente atingiram escala global nível Disney.

2 – Spirou (Jijé/Franquin/Janry/Tomé): Está chegando de mansinho no Brasil, mas esta BD de aventuras (com o animal fantástico Marsupilami) é sinônimo de carisma belga.

3 – Jerry Spring (Jijé): Influência para um jovem Jean Giraud (aka Moebius), é um dos melhores quadrinhos de faroeste de que se tem notícia.

4 – Boule e Bill (Jean Roba): A fofa amizade de um menino e seu cãozinho pode parecer um tema batido, mas não para 1959, quando este clássico foi criado.

5 – Jeremiah (Hermann Huppen): Um sci-fi pós-apocalíptico de cair o queixo ilustrado por um gênio do realismo figurativo.

6 – Sibylline (Raymond Macherot): Mais um clássico influenciado pela Disney e HQs americanas de bichos, como Pogo, este continua sendo um exemplo de edificação e lucidez para crianças.

7 – Bob e Bobbete (Willy Vanderstein): Melhor exemplo do lado “flamengo” dos quadrinhos belgas, esta BD flerta com o surrealismo, viagens no tempo e comédia familiar.

8 – Blake e Mortimer (Edgar P. Jacobs): Verdadeiro monumento dos quadrinhos belgas, esta série de espionagem consolidou o estilo da “linha clara”.

9 – Série “Cidades Obscuras” (François Schuiten/Benoît Peeters): Ainda que o roteirista e teórico Peeters seja francês, a arte descomunal do belga Schuiten faz desta série um dos pontos mais altos nas HQs de todos os tempos.

10 – Tintim (Hergé): O camisa 10 deste time não poderia ser outro que não o jornalista mirim que percorre o mundo em aventuras perenes e deslumbrantes.

11 – Gaston Lagaffe (Franquin): O personagem folgado e preguiçoso de Franquin é referência para “lebowskis” do mundo inteiro. Genial.

Técnico: Quem comanda a seleção belga é ninguém menos que o fabuloso roteirista Jean Van Hamme, classudo escritor de maravilhas como Thorgal, XIII e Chninkel.

Escrete Brazuca. Futebol-arte:
01 – Piratas do Tietê (Laerte): Nossa maior quadrinista tem um passado anárquico e esta é uma obra-prima do non-sense e anti-establishment.

02 – Rê Bordosa (Angeli): Um hino à fuleiragem e à cultura underground dos anos 80. Angeli no auge.

03 – Leão Negro (Cynthia Carvalho/Ofeliano de Almeida): Tesouro escondido da história das nossas HQs, estes contos barbáricos e antropomórficos são poderosas mensagens sobre guerra e família.

04 – Obra de Mozart Couto: Um dos nossos grandes ilustradores dos anos 80, Mozart abordou inúmeros gêneros (terror, erótico, sci-fi), inclusive o esporte bretão em Futebol e Raça.

05 – Turma do Pererê (Ziraldo): Folclore e comentário sarcástico sobre a cultura nacional estão no inconfundível traço de Ziraldo.

06 – Estórias Gerais (Flávio Colin/Wellington Srbek): Um universo estilo Guimarães Rosa é abordado neste magistral romance gráfico do fim da carreira do gênio Colin.

07 – Quadrinhos de terror de Julio Shimamoto: No caso do velho Shima a produção é tão vasta que não dá pra escolher algo individual. Procure uma velha revista Spektro ou Calafrio e se deleite com o traço expressionista do mestre.

08 – Diomedes (Lourenço Mutarelli): Poucos quadrinistas se comparam ao decadentismo de Mutarelli, senhor do noir desfigurado pela infelicidade de seus personagens.

09 – Fradim (Henfil): Cracaço do Pasquim, Henfil, com seu traço minimalista, produziu a mais contundente crítica política em quadrinhos do Brasil.

10 – Pelezinho (Mauricio de Sousa): O camisa 10 brazuca também não poderia ser outro. Hiper carismática, a versão mirim do maior de todos os tempos foi o maior êxito de Maurição no mundo do futebol.

11 – Tungstênio (Marcello Quintanilha): Este romance gráfico é um dos mais lúcidos retratos do Brasil contemporâneo, em qualquer mídia que seja.

Técnico: O patrono do quadrinho nacional, Angelo Agostini, não é apenas uma nota de rodapé na história. Seus quadrinhos Nhô Quim e Zé Caipora, espirituosos e cheios de aventura e crítica social, estão entre os melhores do século 19.

Página de “Fealdade de Fabiano Gorila”, obra-prima sobre futebol também de Marcello Quintanilha



 


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