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Com 79 anos de idade, o paulista Julio Shimamoto é o mais velho quadrinista brasileiro em atividade. Aos familiarizados com a história das HQs nacionais, a resiliência com essa forma de arte reflete seu traço espesso e gráfico: suas produções parecem entalhadas, como se fossem sulcos pulsantes de uma vida dedicada ao ofício. Pois bem, o grande samurai está de volta, agora para lançar o trabalho mais extenso – e um dos mais sofisticados – de sua carreira.

Muitas vezes adjetivamos alguém como “mito” levianamente, na correria do dia a dia dos clichês da crítica. Porém, com Shimamoto não tem erro. Comparando-se mal, estamos diante de um sujeito da estatura que o (recém-falecido) Nelson Pereira dos Santos tem para o nosso cinema. Shima (como é conhecido) atravessou diversas frentes na longa trajetória dos gibis brazucas. Foi do horror ao faroeste, passando pelo erótico. Marcou cada etapa da nossa produção.

Reprodução

 

O samurai começou no Capitão 7, ainda nos anos 1950. Foi ghost-writer, fez histórias do Fantasma (sem ser creditado), publicou em todas as editoras importantes da era mais popular dos nossos quadrinhos (anos 1960 e 1970): Vecchi, Grafipar, RGE. Revistas de terror que marcaram época sempre tiveram seu nanquim: Pesadelo, Spektro, Calafrio. Seu estilo variou muito desde os primórdios, mas o teor expressionista, bem angulado, em preto e branco chapado, tornou-se sua marca.

O novo trabalho é uma parceria com o goiano Márcio Paixão Jr., autor do roteiro para o romance gráfico Cidade de Sangue, um volumoso e agressivo inventário noir sobre a cidade de Goiânia. Márcio é também editor da MMarte, que abre sua coleção de quadrinhos justamente com esse impecável lançamento. Figura importante da cultura alternativa da capital goiana, sua onipresença é notável: criou o festival Goiânia Noise, a mostra de cinema TRASH, dirigiu animações premiadas e ainda colabora com um certo forte de resistência em crítica de HQs, o Raio Laser.

Em Cidade de Sangue, a maestria de Shimamoto parece ainda mais afiada. Acostumado a não ficar parado em termos de técnicas e materiais, desta vez o ilustrador superou qualquer expectativa: o romance gráfico foi desenhado com ferro de solda sobre papel de fax, com maçaricos e instrumentos criados pelo artista, e posteriormente colorido (em absoluto minimalismo e saturação) pelo quadrinista Tiago Holsi. Todo o processo foi ilustrado e anexado ao romance gráfico.

Plasticamente, Cidade de Sangue traz à tona seis décadas de aperfeiçoamento de Shima em sua estética noir/expressionista, aproximando-se de outros mestres “aparentados”, como José Muñoz e Hugo Pratt. O quadrinho exala o odor da morte com um vigor inacreditável para um artista que já não precisava provar mais nada a ninguém. Lembra o cineasta Manoel de Oliveira produzindo seus melhores filmes com mais de 90 anos de idade.

O roteiro desse romance gráfico traz uma história de sordidez pulp que remete conscientemente à trajetória histórica da HQ brasileira. Está lá uma dose forte de putrescência e violência gráfica extraída do nosso terror, assim como elementos de um erotismo doentio, espalhado pela mentalidade obsessiva dos protagonistas, em que permanecem os sentimentos de culpa, desejo e morbidez.

A própria cidade de Goiânia, pouco presente no cânone do imaginário brasileiro, acontece neste quadrinho como uma imposição maligna, em que ondas de calor, fétida urbanidade e violência se misturam aos tropos noir completamente tortos representados no traço trêmulo de Shima: um jornalista autodestrutivo, uma femme fatale necrofílica, banhos e banhos de sangue.

Cidade de Sangue está à altura do legado de Shimamoto. Com essa obra, o aspecto trash presente em décadas de quadrinhos brasileiros recebe um tipo muito justo de condecoração. Não que esse estilo precise de pompa, mas é urgente que o quadrinista brasileiro, em ebulição atualmente, conheça direito os seus founding fathers.

Cidade de Sangue será lançado no FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos 2018. O livro também pode ser adquirido diretamente, com Márcio, pelo e-mail marciomechanics@hotmail.com.

Duas perguntas ao roteirista e editor Márcio Jr.:

1 – Você poderia resumir, para o fãs de quadrinhos mais jovens que não conhecem o trabalho de Julio Shimamoto, o legado desse artista para a HQ brasileira?
Não consigo imaginar título mais adequado para definir o Shima do que “lenda do quadrinho brasileiro”. Ele está na ativa desde os anos 1950, sem interrupção, e sempre num processo de contínua reinvenção. O renomado pesquisador britânico Paul Gravett reputa ao Shimamoto o primeiro mangá produzido no Ocidente. Ao longo de mais de seis décadas de trabalho, transitou pelos mais diversos gêneros, como terror, erótico, ação, super-heróis, ficção científica e até mesmo quadrinhos infantis. O mais incrível é seu constante experimentalismo.

2 – Cidade de Sangue aposta em uma linguagem noir potente e violenta, remetendo a influências diversas em quadrinhos e outras mídias. Você poderia falar, como roteirista, um pouco dessas inspirações?
Cidade de Sangue nasceu como um argumento para um filme de longa metragem. A Márcia Deretti apareceu com uma ideia central, a partir da qual eu desenvolvi o roteiro. As influências são mesmo diversas, ainda que tenham todas surgido naturalmente, sem guias pré-estabelecidos. No cinema, penso em Sam Peckinpah e também naquela força e crueza presente no atual cinema brasileiro pernambucano. Na literatura, o velho Bukowski está sempre por perto. Nos quadrinhos, coisas noir, principalmente o trabalho da dupla Muñoz & Sampayo. E, acima de tudo, o próprio Shima.



 


júlio shimamoto