Neste vazio de cidade moderna, a seca existe para nos humilhar

Nenhuma sombra para nos proteger do inferno. O urbanismo servindo às veleidades estéticas enquanto somos entregues à crueldade do Sol

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 22/09/2019 19:09

Eu poderia escrever sobre a seca, mas estou seca. Nada floresce em mim nesta sexta-feira (20/09), 107º dia sem chuva, pelo menos até as 13h44. Fomos abandonados à própria sorte como os primeiros humanos atravessando o primeiro deserto na crueldade silenciosa da Terra.

Eu poderia sonhar com a chuva, mas ficou tudo tão seco dentro de mim que nem os sonhos mais tolos florescem, nem mesmo os pesadelos. Tudo congelado de calor. O que me lembra uma cena logo no começo de “Uma noite de 12 anos”, filme que conta o cotidiano da impiedosa prisão de Mujica e seus companheiros durante a ditadura militar no Uruguai.

Mujica está numa casa, clandestino. Quatro pessoas conversam na cozinha e, de repente, um deles comenta diante da apreensão contínua dos fugitivos: “Calma, está tudo tranquilo. Ouça o silêncio”. Num ímpeto, Mujica se levanta. Percebe que aquela calmaria é sinal de muito perigo, de que algo terrível vai acontecer. E acontece.

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Assim têm sido os dias nessa impiedosa temporada de seca no quadradinho. Esperamos a chuva, mas o corpo e a alma já não suportam mais o silêncio devorador que nos envolve, dia após dia. Silêncio sem sombra, sem ar, sem movimento, implacável como o anúncio da morte.

A seca deste 2019 é a metáfora candanga da tragédia que nos engole. Seguimos sem rumo como os fantasmas, entorpecidos diante da potência do ataque, da indiferença do real. Nem a florescência colorida das árvores já nos acalma. Chega um momento em que a beleza é quase uma afronta.

Neste vazio de cidade, a seca existe para nos humilhar. Centenas de metros, quilômetros até, sem nenhuma sombra para nos proteger do inferno. A arquitetura e o urbanismo servindo às veleidades estéticas enquanto nós, os humanos que as legitimamos, somos entregues à crueldade do Sol, do asfalto e do concreto, um trio que devora a dignidade urbana.

JP Rodrigues/Metrópoles

Mas como a vida é um suceder inesgotável de acontecimentos visíveis e invisíveis, conhecidos e desconhecidos, prováveis e improváveis, nuvens fofas começaram a se juntar no céu enquanto eu escrevia essa crônica lamurienta.

Já nem importa mais se é a chuva do caju, do abacaxi ou do tamarindo, chuvinha, chuvaréu ou tempestade. Qualquer milímetro cúbico de água reacende o verde dos imensos gramados brasilienses — é incrível como a grama candanga revive com qualquer chuvisco.

Tem gente que é grama: basta meio copo d’água pra navegar, como diz o poeta. Mas a inclemência dos céus está passando dos limites. Talvez tenha chegado a hora de aprender a nadar em rio seco.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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