Intercept: “A defesa já fez o showzinho dela”, disse Moro a procurador

O juiz da Lava Jato teria enviado mensagem aos procuradores orientando a elaboração de uma nota à imprensa para rebater depoimento de Lula

HUGO BARRETO/METRÓPOLESHUGO BARRETO/METRÓPOLES

atualizado 15/06/2019 14:05

Depois do depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no episódio do triplex do Guarujá, Sergio Moro, então juiz titular da 13ª Vara Federal de Curitiba (PR), que julgava casos da Lava Jato, enviou uma mensagem ao procurador da República Carlos Fernando dos Santos orientando a ele e seus colegas da operação a elaboração de uma nota à imprensa para rebater o que chamou de “showzinho da defesa” do petista.

As informações estão em outros trechos da reportagem “As mensagens secretas da Lava Jato“, publicados na noite desta sexta-feira (14/06/2019), pelo site The Intercept.

Segundo o jornal, os procuradores acataram integralmente a orientação, “em mais uma evidência de que Moro atuava como uma espécie de coordenador informal da acusação no processo do triplex”.

Nesta sexta (14/06/2019), o atual ministro da Justiça afirmou, em entrevista ao Estadão, que a interlocução entre juiz e procuradores é muito comum. “Sei que tem outros países com práticas mais restritas, mas a tradição jurídica brasileira não impede o contato pessoal, e essas conversas entre juízes, advogados, delegados e procuradores são absolutamente normais.”

O “showzinho da defesa” ocorreu, de acordo com o Intercept, em 10 de maio de 2017, quando Moro estava à frente do processo contra o petista no caso do triplex do Guarujá.

“O que achou?”
Eram 22h04 quando o então juiz federal pegou o celular, abriu o aplicativo Telegram e digitou uma mensagem a Santos Lima, da força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal em Curitiba.

“O que achou?”, quis saber Moro. O juiz se referia ao depoimento de Lula no processo em que ele era acusado – e pelo qual seria preso – de receber como propina um apartamento triplex no Guarujá. Disponibilizado em vídeo, o embate entre o juiz e o político era o assunto do dia no país.

Além do depoimento, Lula protagonizou outro momento que ganhou as manchetes dos veículos de comunicação no dia 10 de maio de 2017: depois de deixar o prédio da Justiça Federal, o ex-presidente se dirigiu à Praça Santos Andrade, em Curitiba, e fez um pronunciamento diante de uma multidão.

Candidatura lançada
Por 11 minutos, Lula atacou a Lava Jato, o Jornal Nacional e Moro. Disse que estava sendo “massacrado” e encerrou com a frase: “Eu estou vivo, e estou me preparando para voltar a ser candidato a presidente deste país”. Era o lançamento informal de sua candidatura às eleições de 2018.

Um minuto depois da última mensagem, Moro mandou para o procurador Santos Lima:

Os procuradores acataram a sugestão de Moro e distribuíram uma nota à imprensa. No comunicado, a força-tarefa expôs o que considerou serem três contradições no depoimento de Lula e refutou diretamente uma alegação da defesa do petista, que os procuradores consideraram mentirosa.

“Moro, o juiz do caso, zombava do réu e de seus advogados enquanto fornecia instruções privadas para a Lava Jato sobre como se portar publicamente e controlar a narrativa na imprensa”, ressalta o Intercept.

“As afirmações do então magistrado que o Intercept divulga agora contradizem também o que ele dissera horas antes a Lula, naquele mesmo dia do julgamento, publicamente, ao iniciar o interrogatório do petista: que o ex-presidente seria tratado com ‘todo o respeito’”, diz trecho da publicação.

O outro lado
O Intercept afirma que procurou a assessoria do ministro Sergio Moro nesta sexta (14/06/2o19) e que teria adiantado os pontos da reportagem divulgada nesta noite. A resposta, diz o site, foi a nota:

“O Ministro da Justiça e Segurança Pública não comentará supostas mensagens de autoridades públicas colhidas por meio de invasão criminosa de hackers e que podem ter sido adulteradas e editadas, especialmente sem análise prévia de autoridade independente que possa certificar a sua integridade. No caso em questão, as supostas mensagens nem sequer foram enviadas previamente”.

Descuido
Nesta sexta (14/06/2019), Moro disse que pode ter cometido um “descuido formal” ao trocar mensagens com membros da Operação Lava Jato por meio de um aplicativo de mensagens.

Não cometi nenhum ilícito. Estou absolutamente tranquilo em relação a todos os atos enquanto juiz da Lava Jato“, pontuou o ministro, durante apresentação do esquema de segurança da Copa América, evento que começa na noite desta sexta, em São Paulo.

O Intercept diz que também entrou em contato com a assessoria do Ministério Público Federal do Paraná, que não teria respondido.

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