Análise: censura a gibis com beijo gay estimula produções libertárias

Tentativa do prefeito Marcelo Crivella de impedir venda de HQ tende a provocar efeito contrário, como aconteceu durante a ditadura

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atualizado 07/09/2019 11:51

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), acha-se no direito de decidir o que a sociedade pode ler. A decisão de mandar recolher os exemplares de um gibi na Bienal do Livro por causa de um beijo gay afronta a liberdade de expressão assegurada pela Constituição e expõe o fundamentalismo religioso do chefe do Executivo municipal.

Para entender o significado e as consequências do gesto de Crivella, vale a pena voltar um pouco na história. A experiência ensina que, em vez de enquadrar o comportamento da população, as iniciativas dessa natureza tendem ao fracasso.

O termo “fundamentalismo religioso” surgiu nos Estados Unidos na década de 1920, cunhado pelo pastor Curtis Lee Laws. Integrante da Igreja Batista, ele representava uma corrente contrária ao avanço do liberalismo entre os protestantes.

No livro Em nome de Deus – o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo, a escritora inglesa Karen Armstrong explica o fenômeno. Especialista em assuntos religiosos, a autora resgata o conceito definido por Laws. Segundo o pastor, “fundamentalista” é alguém disposto a “recuperar territórios perdidos para o ‘anticristo’”.

Basta observar a produção dos estúdios de Hollywood nos últimos cem anos para se concluir que Laws fracassou em suas intenções. A liberdade de costumes prevaleceu sobre a tentativa de controlar os hábitos dos norte-americanos.

Um exemplo brasileiro também mostra como a repressão comportamental provoca efeitos contrários às pretensões das autoridades. Durante a ditadura, os militares tentaram impor censura nestas áreas. Eles proibiram sexo explícito em publicações impressas, no cinema e na televisão.

Não deu certo. Na década de 1970 surgiram manifestações libertárias, ostensivas e bem-sucedidas de contestação ao moralismo oficial. Na música, a banda Secos e Molhados caiu no gosto do povo com o visual transformista e os requebros do vocalista Ney Matogrosso.

Na mesma época, em São Paulo, o grupo underground de dança Dzi Croquettes escandalizou os conservadores com espetáculos precursores, no Brasil, dos movimentos LGBT que ganharam força nas últimas décadas.

Também em São Paulo, as pornochanchadas produzidas na Boca do Lixo romperam as amarras da censura. As comédias com temática sexual, inicialmente sem mostrar os órgãos sexuais, lotavam salas de cinema em todo o país.

À medida que a ditadura se aproximava do final, as personagens perderam as roupas até a nudez total no início da década de 1980. Os primeiros filmes de sexo explícito foram exibidos no Brasil depois de anos vetados pelo governo, caso de O império dos sentidos, de Nagisa Oshima, O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e Emanuelle, de Just Jaeckin.

Algumas cenas também sofriam cortes. Antes da liberação total, as personagens de Laranja Mecânica tiveram as partes íntimas cobertas com bolinhas pretas visuais.

Em pouco tempo, essas restrições foram vencidas pela realidade. Simultaneamente, os filmes brasileiros também perderam os pudores impostos pelos generais.

A transgressão às regras puritanas se manifestou também no material impresso. Proibidas de circular no Brasil, as revistas pornográficas contrabandeadas do exterior eram vendidas às escondidas nas bancas de jornal. Os adolescentes disputavam os primeiros exemplares com a mesma ansiedade com que hoje aguardam os lançamentos de jogos eletrônicos e filmes de heróis.

Importante lembrar que naquele tempo não havia Internet. Logo, era muito mais difícil furar o cerco da censura. Agora, o avanço tecnológico permite aos brasileiros acessar sites de conteúdo livre sediados em qualquer lugar do mundo. Assim, as tentativas de cercear o conteúdo artístico e literário perdem força diante da realidade digital.

O prefeito precisou de pouco tempo para descobrir que a censura produziu efeito contrário. Nesta sexta-feira (06/09/2019), em apenas 29 minutos, foram vendidos todos os exemplares do HQ Vingadores – A Cruzada das Crianças (ilustração em destaque) o gibi censurado, levados para a bienal. Também como reação ao gesto do chefe do Executivo municipal, o deputado David Miranda (PSol-RJ) postou uma foto de um beijo no marido, o jornalista Glenn Greenwald.

Bispo da Igreja Universal, Crivella parece querer reviver o fundamentalismo do pastor Laws. Para fazer valer sua vontade, no entanto, terá de burlar a liberdade de expressão assegurada pelo capítulo 5 da Constituição.

O prefeito do Rio de Janeiro sabe dessa garantia legal. Mesmo assim, deixa-se levar pelo sentimento autoritário. Com isso, marca posição política junto ao eleitorado evangélico que lhe dá sustentação.

Diante da determinação constitucional, se estivesse mesmo preocupado com as crianças, Crivella investiria em educação laica. Essa seria a melhor maneira de preparar as futuras gerações para os desafios de seu tempo – sem o moralismo que tenta enquadrar os brasileiros.

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