Verba curta paralisa pesquisas de universidades, que recorrem à doação

Instituições se adaptam para reverter redução no orçamento, mas falta de verba impede novos investimentos em projetos e pesquisas

atualizado 19/10/2022 19:41

UFSCar Divulgação

A cada dia, a professora Christiane Fernandes Horn presencia o desânimo dos estudantes em participar de atividades de pesquisa nos laboratórios da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O sentimento é resultado uma sistemática desvalorização do sistema público de educação superior, que se traduz em uma diminuição gradual nas verbas para as instituições de ensino.

Os cortes são percebidos durante as atividades de rotina, quando faltam seringas, reagentes e outros equipamentos essenciais para o desenvolvimento de novas pesquisas.

A professora do Departamento de Química da UFSC sentiu os efeitos assim que chegou à universidade, em 2019, quando não conseguiu manter uma linha de pesquisa sobre câncer. Ela conta que trabalhava como pesquisadora na linha desde 2005 e tentou dar continuidade ao projeto quando começou a dar aula na UFSC. O objetivo era avançar nos estudos para o desenvolvimento de um novo medicamento. No entanto, por falta de recurso, o projeto nem saiu do papel.

“As pessoas falavam: ‘Olha, a gente não tem como fazer isso aqui porque os reagentes são caros, os kits que são utilizados estão caros. O dólar lá em cima. O governo não está financiando. Estamos sem dinheiro'”, lembra. “Até que eu tive que parar com essa linha de pesquisa. Não consegui continuar”.

O cenário de cortes provoca uma incerteza para os pesquisadores. “Você não pode simplesmente começar sabendo que não vai terminar. Fica melhor, às vezes, não começar e buscar alternativas”, avalia Christiane.

Para a pesquisadora, a falta de investimento em educação é a principal razão do afastamento dos estudantes de graduação e pós-graduação a seguirem carreira na área. Mas, ela tem esperança de que o cenário vai mudar.

“Eu tenho conversado muito com os meus alunos. Eu tenho falado: ‘Olha, vocês vão continuar com doutorado, com a pós-graduação, a gente vai enfrentar essa maré difícil’. Dias melhores vão chegar”, analisa.

Cortes

Recentemente, o governo federal contingenciou R$ 328,5 milhões dos recursos das universidades federais, mas voltou atrás após pressão da sociedade. Em junho, as instituições já haviam perdido R$ 1,6 bilhão do orçamento dedicado a custeio e investimentos.

No entanto, os cortes não vêm de agora. Desde 2016 o valor investido nas instituições de ensino superior vem caindo gradualmente. De acordo com os dados levantados pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), com base na Lei Orçamentária Anual, em 2015, o total era de R$ 8 bilhões. Nos dois anos seguintes, caiu para R$ 7 bi e R$ 6 bi, até chegar ao menor valor em 2021, de 4,4 bi. Para este ano, o valor previsto é de 5,4 bilhões.

Veja o histórico dos últimos 10 anos:

Doações

Na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o impacto da redução no orçamento pode ser percebido nas obras paradas pelo campus e a diminuição de serviços básicos, como limpeza e vigilância. Além disso, a instituição perdeu cerca de R$ 2 milhões dos recursos para manter o programa de assistência estudantil, que atende alunos em situação de vulnerabilidade. Para contornar o problema, foi criada uma ferramenta para arrecadar dinheiro por meio de doações.

Fazem parte da assistência estudantil alunos com renda familiar per capita de até um salário mínimo e meio. Os estudantes contemplados têm acesso às moradias, gratuidade no restaurante universitário e recebem bolsas para custear aluguel, transporte e alimentação.

No entanto, com os cortes, ficou mais difícil sustentar o programa. Com o orçamento disponível atualmente, não é possível, por exemplo, mexer no valor da bolsa para custear moradia. Desde 2012, quando o programa foi criado, o valor é de R$ 350 e nunca teve reajuste.

“A gente sabe que é insuficiente para custear o aluguel e as despesas que os alunos têm para morar, mesmo dividindo em república. Então, a gente não consegue, por exemplo, fazer um reajuste nesses valores para ficar mais próximo do que é a realidade financeira do país”, lamenta Djalma Ribeiro Junior, Pró-Reitor de Assuntos Comunitários e Estudantis da UFSCar.

Além da falta de reajuste, pela primeira vez, neste ano, a universidade não conseguiu incluir todos os alunos que precisavam do recurso de uma vez só no programa, como sempre acontecia. A solução foi inserir, aos poucos, de acordo com o índice de vulnerabilidade até conseguir atender a todos.

Djalma também pontua que a diminuição vem em um cenário de aumento da demanda pelo auxílio, como resultado do empobrecimento geral da população. Ele destaca que problema afeta, principalmente, estudantes negros, indígenas, com deficiência, e que entraram na universidade por meio de políticas afirmativas. Nesse sentido, as doações aparecem como uma saída para driblar a falta de orçamento. Podem colaborar pessoas físicas e jurídicas (confira no link).

“A doação é um recurso bastante incerto. Às vezes você tem, às vezes não. Então, a gente acaba utilizando para algumas emergências e para atender alguns grupos que a gente não tem capacidade. Por exemplo, a gente conseguiu garantir um auxílio para estudantes com deficiência. Para adquirir equipamentos de acessibilidade nos cursos de graduação e de pós-graduação” afirma.

A UFSC e a UFSCar são exemplos de universidades que estão se readptando em meio ao contexto de cortes no orçamento. A professora Christiane Fernandes Horn explica que, diante do cenário, ela conta com parcerias e apoio de colegas para conseguir manter as pesquisas de pé.

“A camaradagem de colegas e amigos permite que a gente não pare. Alguns colegas meus estão em universidades onde tem uma fundação mais atuante, com mais recurso, então, eles conseguem tocar uma parte do trabalho que eu não consigo. A gente acaba ajudando neste processo.”

Para ela, a sociedade como um todo, perde com a falta de investimento. “Veja a questão da vacina [da Covid]. Tantos grupos se dedicaram a estudar, a entender essa doença nova. Foi desenvolvida uma vacina praticamente do zero em poucos anos. Então, se nós não tivéssemos pesquisadores habilitados, a gente ainda estava usando máscara e morrendo por aí. A pandemia mostrou o poder da ciência. Só que nós temos que ter pessoas capacitadas. E a capacitação vem com investimento”, defende.

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