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Trump e Netanyahu abrem a caixa de Pandora no Irã (Tiago Luz Pedro)

A morte de Khamenei fecha um ciclo no Irã, mas a ofensiva de Washington e Jerusalém pode abrir outro mais instável

atualizado

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Evelyn Hockstein – Pool/Getty Images
Donald Trump e Benjamin Netanyahu
1 de 1 Donald Trump e Benjamin Netanyahu - Foto: Evelyn Hockstein – Pool/Getty Images

A morte de Ali Khamenei na primeira vaga de bombardeamentos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel encerra um ciclo de quase quatro décadas de poder absoluto no Irã. Mas abre outro, potencialmente mais perigoso, e mostra que a guerra lançada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, mais do que responder a uma ameaça iminente demonstrável, visou acima de tudo o derrube do regime iraniano.

Desde os ataques de 7 de Outubro de 2023, perpetrados pelo Hamas, aliado de Teerã, que Israel vinha desmantelando metodicamente a rede de influência regional construída pela República Islâmica ao longo de décadas. Em 2025, Washington juntou-se à ofensiva e Trump apressou-se a declarar “aniquilado” o programa nuclear iraniano. A realidade era mais ambígua: fragilizado, sim; eliminado, não. Ainda assim, dificilmente se podia falar de uma ameaça imediata que justificasse uma guerra aberta.

Esta é, por isso, uma ofensiva deliberada. E tem uma data fundadora: 8 de maio de 2018, quando Trump retirou os EUA do acordo nuclear negociado por Barack Obama. Ao rasgar um compromisso que impunha limites verificáveis ao programa atómico iraniano em troca do levantamento de sanções, Washington enfraqueceu os setores mais moderados do regime e reforçou a ala dura em torno de Khamenei. A promessa de um “acordo melhor” revelou-se ilusória, e o que se seguiu foi a espiral previsível: mais isolamento, mais repressão interna, mais radicalização. As ruas iranianas pagaram o preço com sangue.

Nada disto absolve o regime. Khamenei governou com brutalidade, exportou instabilidade e esmagou a dissidência. Poucos lamentarão o seu desaparecimento. Mas a História recente da região aconselha prudência, e o colapso de regimes autoritários no Médio Oriente raramente produz democracias estáveis. O Iraque pós-2003 permanece como advertência. E o Irã é um país complexo, multiétnico, com 90 milhões de habitantes e uma poderosa elite militar que não desaparecerá por decreto.

Como lembrava por estes dias o Le Monde, Trump entrou na política a denunciar o aventureirismo de George W. Bush no Iraque. Hoje, assume uma aposta de alcance comparável, sem mandato das Nações Unidas, sem uma coligação internacional robusta, sem um plano claro para o dia seguinte. A tentação de declarar vitória e seguir em frente será grande. Mas as guerras no Médio Oriente raramente obedecem ao guião de quem as inicia.

A queda de um tirano pode ser um alívio. Mas quando a estratégia se resume à decapitação e à fé na espontaneidade da mudança, o vazio tende a ser ocupado pelo caos e pela fragmentação. Esta pode ser a guerra que satisfaz, por agora, a lógica de poder de Washington e Jerusalém. Mas poderá transformar-se na herança tóxica de uma região ainda mais instável — e de um mundo mais perigoso.

 

(Transcrito do PÚBLICO)

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