CPI da Covid-19 perde seu tempo ouvindo o ministro da Saúde
O médico Marcelo Queiroga chega ao ponto de desmentir o que ele mesmo havia dito em depoimento anterior
atualizado
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O que esperar do depoimento a uma CPI de quem se acha devedor de quem lhe deu a maior oportunidade de sua vida? No mínimo, que não crie embaraços ao seu benfeitor.
Marcelo Queiroga, médico, contou à CPI da Covid-19 que deve ao presidente Jair Bolsonaro a indicação para ministro da Saúde, a maior oportunidade que teve até aqui em sua vida.
Resta-lhe, portanto, ser leal a ele na fala que se arrasta há mais de quatro horas. Queiroga anunciou a nomeação da epidemiologista Luana Araújo para a secretaria de combate ao vírus.
Da vez anterior que depôs na CPI, havia dito que a nomeação fora suspensa porque faltou “validação política”. Leia-se: Bolsonaro desaprovou a nomeação. Hoje, Queiroga…
Queiroga disse que foi ele próprio, e mais ninguém, que decidiu revogar a nomeação de Luana, embora o Ministério da Saúde precise de epidemiologistas e não tenha nenhum.
Como enfrentar uma pandemia sem a orientação de epidemiologistas? Bem, isso não foi perguntado a Queiroga, nem ele esclareceu e ficou por isso mesmo. Aqui também ficará.
Perguntou-se o que ele acha das aglomerações provocadas país afora pelo presidente da República. Resposta: não cabe a ele julgar Bolsonaro nem atuar como seu censor.
Então o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, exibiu um vídeo em que Bolsonaro aparece sem máscara, cercado por muita gente, e pediu que Queiroga o comentasse.
O ministro comentou: “As imagens falam por si só”. E o que mais? Nada mais, afinal não cabe a ele julgar o presidente nem atuar como seu censor. Adiante.
A senadora Eliziane Gama (CIDADANIA-MA) perguntou: “O senhor já orientou o presidente a visitar um hospital durante a pandemia?” Queiroga calou-se. Bolsonaro nunca visitou.
O que levou à conclusão tirada pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE): “Uma campanha [pelo distanciamento social] tem efeito quando seu líder faz o contrário?”
Queiroga fez de conta que não era com ele. Disse apenas: “As recomendações não farmacológicas são para todos, sem exceção”. Renan interveio: “Só o presidente é exceção?”
De novo Queiroga: “Não sou censor do presidente. Já conversei com ele. Comigo, ele usa máscara”. O ministro continua chamando o tratamento precoce de “divergência médica”.
A certa altura, o depoimento de Queiroga foi ofuscado por uma declaração feita pelo deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, e por uma notícia de última hora.
Em debate na Confederação Nacional da Indústria, Barros simplesmente afirmou:
“O Judiciário vai ter que se acomodar nesse avançar nas prerrogativas do Executivo e Legislativo. Vai chegar uma hora em que vamos dizer [para o Judiciário] que simplesmente não vamos cumprir mais. Vocês cuidam dos seus que eu cuido do nosso, não dá mais simplesmente para cumprir as decisões porque elas não têm nenhum fundamento, nenhum sentido”.
A notícia: a Polícia Federal diz que o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), recebeu propina de R$ 10,4 milhões quando foi ministro no governo Dilma (PT).
Ele e seu filho, o deputado Fernando Bezerra Coelho Filho (DEM-PE), foram indiciados pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e falsidade ideológica eleitoral.


