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Bolsonaro, um presidente que merece ser mais bem compreendido

Ele é um espelho de um país conservador por natureza e onde o futuro está sempre atrasado

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Presidente Bolsonaro participa do lançamento do programa do Banco do Brasil, Antecipa Frete. Ele olha para o lado e é possivel ver pessoas o acompanhando atrás - Metrópoles
1 de 1 Presidente Bolsonaro participa do lançamento do programa do Banco do Brasil, Antecipa Frete. Ele olha para o lado e é possivel ver pessoas o acompanhando atrás - Metrópoles - Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Empatia, segundo os dicionários, “é a capacidade psicológica de sentir o que sentiria outra pessoa, caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. É tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar o que sente outro indivíduo”.

De Jair Messias Bolsonaro, o 38º presidente do Brasil, diz-se que carece de empatia, e é verdade. Mas para compreender melhor o seu comportamento em determinadas circunstâncias e a forma como toma decisões, é preciso pôr-se no lugar dele.

Por que quando a mancha da corrupção espalha-se por seu governo, Bolsonaro insiste em dizer que o seu é o governo mais honesto da história? Porque acredita nisso, como acredita que empregar funcionários fantasmas em gabinetes é só um pecadilho.

Nem pecadilho seria. Qual o parlamentar que não se valeu do mesmo expediente, ele pergunta. Pergunta, não, pensa. Pecadilho ou pecado deixa de sê-lo se a prática se generaliza. De resto, depois de Deus vem a família, e custa caro provê-la de tudo.

Foi por isso que ainda soldado, e à revelia dos seus superiores, Bolsonaro foi garimpar. Descoberto, foi repreendido. Começava ali a curta carreira daquele que mais tarde seria chamado de um “mal militar” pelo general e ex-presidente Ernesto Geisel.

Bolsonaro destacou-se nos quartéis como um bom corredor de curtas distâncias. Ganhou o apelido de “Cavalão”. Foi elogiado por ter salvado um amigo de morrer afogado. Mas foi por causa do dinheiro curto que ele planejou detonar bombas em quartéis.

Não queria mais dinheiro para si, mas também para seus companheiros de caserna. Acabou excluído do Exército por conduta antiética, coisa que até hoje não consegue entender o que seja. E, para sobreviver, entrou na política. Foi um início difícil.

Elegeu-se vereador no Rio e, em seguida, deputado federal. Foi proibido de frequentar ambientes militares. A punição estendeu-se aos seus filhos. As portas dos colégios militares se fecharam para eles. Por quase 30 anos, foi deputado do baixo clero.

Trocou de partido oito vezes, sempre à procura de algum protagonismo que jamais alcançou, e de vantagens materiais. O que mais se leva da vida, ou se deixa para os filhos? Não foi tão feliz como desejou nos seus casamentos. Traiu e foi traído.

Até que um dia, decidiu bater em retirada da Câmara e desfrutar da pequena fortuna que acumulara. Desejava curtir a nova mulher, Michelle, que lhe dera uma filha. Seu último ato, para alavancar a carreira política dos filhos, seria se candidatar a presidente.

Não contava em se eleger. Tampouco seus colegas na Câmara imaginavam que ele se elegeria. Na noite de sua vitória no segundo turno, depois de ter sido anfitrião de um churrasco em sua casa no Rio e de ter visto os convidados irem embora, chorou muito.

Sabia que não estava pronto para governar, que não tinha com quem governar, que sequer soubera governar seus gabinetes e a própria família repleta de conflitos. Como todas as famílias, não só a dele. Governar é ouvir, compor, tomar decisões e ir em frente.

Ora, isso não se aprende em quartéis. Por lá, aprende-se a dar ordens e a obedecer. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Ele nunca teve a oportunidade de dar ordens e foi desobediente para além do tolerável. Nunca foi treinado para o diálogo.

Cercou-se de oficiais para governar porque os conhecia e conhecia seus códigos. Montou um ministério medíocre, com poucas exceções, porque sempre foi um homem medíocre, e ainda por cima desconfiado dos que são muito inteligentes.

Saudoso da ditadura de 64 de que ouvira falar, sem nunca ter lido um livro, nem mesmo o de memórias do torturador Brilhante Ulstra, pobre de ideias além das que lhe sopram, foi surpreendido por uma pandemia que só aqui matou mais de 650 mil pessoas.

Se Paulo Guedes lhe dizia que o importante era salvar a economia para salvar o governo, por que Bolsonaro não lhe daria ouvidos? Se médicos farsantes recomendavam drogas ineficazes contra o vírus, quem era ele para não acreditar? Era o que queria ouvir.

Essa talvez seja a pior doença de que possa padecer um governante: acreditar só naquilo que reforça suas impressões, certas ou erradas. Poucos ousam dizer-lhe a verdade. Poucos ousam contrariá-lo. Os que o contrariam são dispensados.

Notável é que o pior presidente da história do Brasil, que faz o pior governo da história, chega ao fim do mandato com chances de se reeleger. O que explica? Bolsonaro espelha um país conservador por natureza, socialmente injusto e onde o futuro nunca chega.

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