Aplicar drogas em humanos sem sua autorização lembra Mengele

Foi o que fez a Prevent Senior, uma das maiores operadoras de Saúde do Brasil, em estudo sobre o uso da cloroquina contra a Covid

atualizado 17/09/2021 8:30

cloroquina Divulgação/Ministério da Defesa

Nada se compara aos horrores nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, nada. Mas feita a ressalva, alguns casos guardam uma remota e preocupante semelhança.

Josef Mengele foi um oficial alemão da SS, organização paramilitar do Partido Nazista, e médico no campo de concentração de Auschwit onde foram mortos milhares de judeus.

Ele escolhia as vítimas a serem mortas nas câmaras de gás, separando-as das outras que seriam submetidas a experimentos humanos e que depois acabariam mortas também.

Nunca foi preso. Fugiu para a Argentina, o Paraguai, e de lá para o Brasil onde entrou em 1960 e morreu 19 anos depois por afogamento de uma praia de Bertioga, cidade do litoral paulista.

Senadores se lembraram dele ao receber documentos sobre o uso de pacientes como cobaias em pesquisa realizada pela Prevent Senior para testar a eficácia da cloroquina contra a Covid.

A Prevent Senior é uma das maiores operadoras de saúde do Brasil. A cloroquina foi aplicada a pacientes sem que eles ou suas famílias soubessem. Mortes foram ocultadas.

A CPI recebeu um farto material com denúncias para questionar o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior quando ele comparecesse para depor, mas ele não compareceu.

Entre as denúncias está a prescrição indiscriminada de cloroquina, azitromicina e ivermectina, o chamado Kit Covid, para pacientes que tinham o plano da empresa.

O senador Otto Alencar (PDS-BA) revelou que os médicos da operadora que se recusaram a prescrever o Kit Covid foram ameaçados de demissão.

Até hoje, segundo reportagem da GloboNews, a indicação para a prescrição de remédios do Kit Covid é mantida no guia da Prevent, contrariando uma recomendação do Ministério da Saúde.

A Prevent fez, na capital paulista, um estudo com 636 pacientes diagnosticados com casos leves e graves de Covid. O estudo começou em março do ano passado.

Na ocasião, o diretor da Prevent, Fernando Oikawa, deu uma ordem aos médicos que contraria as normas éticas: “Não informar o paciente ou familiar, sobre medicação e nem sobre o programa”.

Segundo uma planilha interna da Prevent Senior, nove pacientes monitorados morreram e seis deles haviam tomado hidroxicloroquina e azitromicina.

Em 18 de abril, citando o CEO da Prevent Senior, Fernando Parrillo, o presidente Bolsonaro publicou que, entre os pacientes que optaram pelo medicamento, “o número de óbitos foi zero”.

Na época, o coordenador do estudo, Rodrigo Esper, mandou um áudio para um grupo de médicos:

“A gente está revisando todos os 636 pacientes do estudo, já tem mais ou menos uns 140 revisados, mas a gente precisa fazer a força-tarefa para acabar amanhã. Esses dados vão mudar a trajetória da medicina nos próximos meses no mundo. Está bom? Didier Raoult, eu entrei em contato com ele ontem, ele citou o nosso trabalho no Twitter, eu respondi a ele e então a gente precisa ser perfeito o dado, tá? Até o presidente da República citou a gente. Esse áudio tem que ficar aqui, não pode sair.”

Didier Raoult é o médico francês que pregava o uso da hidroxicloroquina no combate à Covid. Ele já admitiu que estava errado e que a medicação não reduz o agravamento da doença.

Mesmo depois do recuo de Raoult, Bolsonaro seguiu insistindo no uso da cloroquina. Em junho último, no Espírito Santo, disse:

“Fui acometido do vírus e tomei a hidroxicloroquina. Talvez eu tenha sido o único chefe de Estado que procurou remédio para esse mal. Tinha que aparecer alguma coisa. Ouvi pessoas que tinham conhecimento sobre o caso, mas quando falei que aquilo poderia ser bom, a oposição abriu uma guerra contra a gente.”

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