Domiciliar de Bolsonaro é caso de memória curta e editoriais de ocasião
Da “escolha difícil” ao “gesto de sensatez”: a memória curta dos editoriais sobre Bolsonaro tenta lavar a biografia de um golpista
atualizado
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Há uma coincidência curiosa nas páginas de opinião dos grandes jornais essa semana: Tanto O Globo quanto o Estadão decidiram que é hora de o Supremo Tribunal Federal ter um “gesto de sensatez e humanidade” e transferir Jair Bolsonaro para a prisão domiciliar. O argumento é o quadro clínico sensível. É a mesma música cantada pela família e pelos advogados de defesa, agora com o coro da dita imprensa tradicional.
Engraçado que essa súbita onda de humanitarismo parece ter destino certo.
Não se lê nos mesmos editoriais uma linha sequer sobre os milhares de presos que sofrem de doenças graves, muitas vezes piores que as de Bolsonaro, e que continuam mofando e morrendo nos presídios brasileiros sem qualquer “extrema cautela” das instituições. Para esses, a legislação que admite a domiciliar em casos de saúde incompatível com o cárcere parece não existir.
O Estadão fala em “dever de maturidade” e lembra que a prisão de um ex-presidente nunca é um fato trivial. De fato, não é. Bolsonaro é o primeiro ex-presidente condenado por tentativa de golpe. Mas onde estava essa mesma sensibilidade institucional quando Lula, preso em Curitiba, foi impedido de ir ao velório do próprio neto? Onde estavam os editoriais pedindo “serenidade” e “humanidade” naquele momento?
O que guardamos na memória é o editorial de 2018 que classificava a escolha entre a democracia e o golpismo como uma “escolha difícil”.
A tentativa de comparar o caso de Bolsonaro ao de Fernando Collor – que obteve a domiciliar alegando males como Parkinson – ignora o essencial: o comportamento do réu. Bolsonaro sempre foi um desrespeitador contumaz das ordens judiciais. Foi para a Papudinha justamente porque não sabe conviver com os limites da lei.
Dar a Bolsonaro o benefício da domiciliar agora, sob o pretexto de um quadro que o Estado já se provou capaz de tratar com 144 atendimentos em um mês, não é humanidade. É privilégio. É tratar um cidadão comum como se ainda estivesse acima da lei por conta do cargo que ocupou e que tentou manter no grito.


