Um gato chamado João (por Tânia Fusco)
João conseguiu a proeza de quebrar a resistência canina. Era o começo de um reinado que durou 15 anos e seis meses
atualizado
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João veio ao mundo no corpo de um gato, mas foi gente de primeira qualidade. Legítimo vira-lata, malhado de amarelo e branco, lorde de corpo e alma. Rei da rua, imbatível caçador, doce figura na alegria e na tristeza.
Nas horas tristes, fazia o palhaço e inventava poses, posturas, caras e bocas, pulos e saltos, até provocar risos. Fez isso nas dores de muitas lágrimas pelo impeachment de Dilma, no triste circo da prisão de Lula, na tragédia da eleição do Jair Messias. Repetia a tática em cada dor familiar percebida.
Compenetrado, do seu posto no sofá da sala, acompanhou gritos, vuvuzeladas, danças e lágrimas na alegria da vitória do Lula. Fiel à sua origem, João foi, sem dúvida, de esquerda e Lulista. Posições que deixava claras na distância mantida do verde e amarelo.
Na vida, João gostava de chamar atenção, de ganhar carinho e de aplausos. Era um “aparecido”. E como tal, um dia, apareceu na porta de casa. Orelhudo, pequeno e magro, miava e se jogava aos pés de quem saísse. Barriga pra cima, despido de medo, meio que exigia atenção e carinho.
Impossível resistir. Ganhou carinho, ganhou comida. Ganhou também confiança para trazer o restante da família felina. Todos famintos, mas ariscos. Só ele era oferecido.
Foi a pelagem de três cores dos parentes que entregou: ali estavam a mãe e duas irmãs do João. (Para quem não sabe, só gatas têm três cores nos pelos).
De onde veio aquela família inteira? A imaginação fez supor que foi deixada pra trás, como sobra da mudança de alguém da vizinhança. (Triste, mas há gente capaz disso… e de muito mais que possa alcançar nossa simplória imaginação, né não?).
Enfim, talvez tenha sido o instinto de sobrevivência do grupo que fez com que aportassem no jardim da casa onde já havia dois outros felinos. Pequena, a rua inteira acabou se condoendo e, além da alimentação solidária, houve empenho para adoção do grupo bichano.
Sobrou o orelhudo carente, também o mais feinho da família. E foi pelas mãos de um neto que o malhado ganhou nome de João e o direito e trocar a porta por acomodação no melhor sofá da casa. Espaço que ocupou, sem cerimônia, meia hora depois de admitido na família.
Rapidinho, o filhote abusado ganhou peso, belezura e mando. Mesmo sendo o mais novo dos animais da casa, virou chefe da tribo. Respeitado inclusive pelo cão de guarda – Rubirosa, um vira-lata invocado, meio preto, meio caramelo, que não gostava de gatos.
João conseguiu a proeza de quebrar a resistência canina. Era o começo de um reinado que durou 15 anos e seis meses, com renovação dos parceiros gatos e cães. Morreram uns, vieram outros.
Jovem ou velho, o gato João foi imbatível caçador. Oficio que exercia em distintos horários, sem abrir mão de trazer a caça, meio despedaçada, para a aprovação dos moradores da casa. Gatos têm natureza exibicionista. Costumam apresentar suas caças – vivas ou mortas – aos seus donos. (OBS.: Mudou a nomenclatura. Agora, “donos” são chamados de “cuidadores”. Questão de respeito. Dizem).
Verdade que, mesmo sempre muito bem alimentado, João comia quase todas as suas presas – muito variadas. Os passarinhos, adultos ou filhotes, eram caçados e devorados ao alvorecer. Não sobrava uma pena, uma mancha de sangue. Gatos são muito limpos.
Coelhos, criados por um vizinho, foram todos caçados e comidos durante o dia. Aqui, João fez uma gentileza ao amigo cão. Caçou e trouxe a coelha chefe inteira para o deleite agradecido do companheiro Rubirosa. Comeram juntos.
Há violência nestes relatos? Sorry. Gatos costumam ser caçadores. Embora doesse na gente da família, João exercia sua natureza. Seletivo, só comia carnes nobres. Saruês e lagartixas, por exemplo, matava só para apresentar à família seus dotes de caçador. O mesmo valeu para um rato – único caçado nos 15 anos de vida. Para manter o ritual, abandonou o mouse inteiro sobre a cama da cuidadora chefe.
Diferentes dos cães, gatos são independentes, autoritários e vingadores. No evento gato-sobre-a-cama, a cuidadora vinha chegando muito tarde, praticamente a semana toda. Com o rato, na madrugada de sábado, João deu seu recado. Vê se para em casa!
Mesmo compreendendo o recado, é difícil não pensar em assassinato quando, na madrugada, sobre sua cama lindamente arrumada há um ratinho morto.
Esperto, o autor da proeza, só apareceu no dia seguinte, com o “presente” já devidamente despachado ao lixo e a parte boa do feito registrada. Era também um aviso: tem rato no pedaço. Hora de alertar a vizinhança e providenciar a desratização coletiva. O gato foi perdoado.
João foi perdoado N vezes. Era danado, abusado, mas sempre grande parceiro. Levantando as orelhas, avisava: tem gente estranha chegando. Miando loucamente, informava: Tô com bicho morto na boca. Correndo pra porta da frente da casa, sinalizava: Tá chegando seu filho/filha, com os netos.
Seletivo, só dividia espaço no sofá com uns poucos. Os netos da tribo, de preferência. Não abria mão de seu pedaço na mesa próxima ao computador, onde sua cuidadora/amiga exerce o ofício de escrever.
João recebia sua parentada humana sempre na porta. Não gostava das viagens longas da decana da família. Assim, na volta, era preciso atenção redobrada com a mala, ou ele a marcava com o tal do indelével xixi de gato. Ossos do ofício.
Só quem teve, tem e curte gatos é capaz de entender o universo mágico e lúdico que une pessoas e felinos em laços amorosos eternos.
A minha longa vida de gateira é povoada de boas e belas histórias com felinos. Cada um com suas peculiaridades. Nenhum submisso. Ou burrinho. Todos inteligentes, espertos e engraçados. João foi hors concours. Adorava festas e visitas. Fazia amizade com todos os convidados da casa.
Se rejeitasse alguém – convidado ou prestador de serviços -, barbas de molho. Não era boa figura, não tinha bom astral. Batata. Causaria dissabores.
Saudável a vida inteira, aos 15 anos, João teve câncer de pele. Passou por cirurgia e tratamento oncológico, parecia curado. Um dia, amanheceu morto. Na porta. Exatamente onde havia começado sua parceria com aquela tribo de humanos. O coração parou. Ficaram as histórias.
Amados, gente ou bichos, deveriam ficar pra semente.
Tânia Fusco é jornalista


