O Agente Secreto chega a Brasília (por Marcos Magalhães)
Alguma coisa aconteceu no coração de Kleber Mendonça ao chegar a Brasília, onde apresentaria ao Lula seu último filme, O Agente Secreto
atualizado
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Alguma coisa aconteceu no coração de Kleber Mendonça Filho ao chegar a Brasília, onde apresentaria ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva seu último filme, O Agente Secreto. As linhas serenas da capital acenderam em sua memória uma brasilidade criativa que andou muito ameaçada.
“Em Brasília nos colocaram num projeto de Oscar Niemeyer”, escreveu nas redes sociais o diretor pernambucano, que visitou o Palácio da Alvorada e se hospedou no Brasília Palace, o primeiro hotel erguido no coração do cerrado.
“Não é papo patriótico não, só uma impressão”, prosseguiu. “Tem uma coisa muito ‘Brasil’ nesse estilo, e não exatamente fácil de copiar. O Palácio da Alvorada e mesmo esse hotel são espaços construídos distintos de qualquer outra coisa que já vi”.
Brasília tem passado por momentos difíceis. Uma ameaça de bomba perto do aeroporto, ônibus incendiados na Asa Norte, cenas de vandalismo em janeiro de 2023 que levaram imagens da cidade ao mundo inteiro. Palco de ameaça de mais um golpe de estado.
Já havia sido, entre 1964 e 1985, a capital de um regime autoritário que ofuscou, no imaginário popular, a identidade da nova cidade com o sonho de um país ligado no futuro.
Antes de tudo isso, porém, Brasília foi um símbolo de otimismo. Ao decidir construir a nova capital, o presidente Juscelino Kubitschek não se cercou apenas de construtores. Chamou ao Planalto Central artistas como Tom Jobim e Vinicius de Morais e ganhou o apelido de presidente bossa nova.
Compartilhou o cotidiano da construção com milhares de candangos de todas as partes do país e com dois arquitetos sintonizados com aquele sonho de modernidade: Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.
De lá para cá, além da triste memória da ditadura militar, a cidade foi marcada por escândalos de corrupção e pela resiliente manipulação de verbas públicas, agora especialmente sob a forma de duvidosas emendas parlamentares ao Orçamento.
Mas quem tem olhos mais sensíveis pode perceber que ainda existem, no Planalto Central, ecos de um sonho. Um sonho de país democrático, inclusivo, pronto para o crescimento e aberto a todas as formas de arte e cultura.
Assim foi que Mendonça viu na cidade algo “muito Brasil”, alguma coisa difícil de copiar e mais ainda rara de encontrar em outras partes do mundo.
O filme que ele apresentou se passa na sua cidade natal, Recife, em 1977, quando ainda se esboçava uma lenta e gradual abertura do regime militar.
Do enredo ainda pouco se sabe. Mas o personagem principal da trama, um professor especializado em tecnologia, troca São Paulo por Recife, onde pretende reiniciar a vida. Mas começa a ser espionado pelos vizinhos e percebe que não havia encontrado seu refúgio desejado.
Algo bem 1977, como se lembrará quem viveu aquele período. E muito semelhante ao clima do regime autoritário que a extrema-direita brasileira ainda sonha em reconstruir, agora com a ajuda de amigos em Washington.
O Agente Secreto foi ovacionado por oito minutos no Festival de Cannes em maio, quando Kleber Mendonça foi premiado como melhor diretor e Wagner Moura como melhor ator. E chega às telas brasileira em setembro. No dia 10, em duas sessões no Recife. No dia 12, abre o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
O festival construiu, ao longo dos últimos anos, forte reputação de local de encontro entre o cinema e a política. O clima tenso e paranoico de O Agente Secreto tende a ser um catalisador da reação ao movimento de extrema-direita que insiste em se manter à tona.
E Brasília poderá dar ao diretor do filme mais um motivo para reconectar essa cidade ao sonho de sua criação. Sonho que contou com o entusiasmo de pessoas como o educador Darcy Ribeiro, criador de sua universidade, e o paisagista Burle Marx, autor de obras de arte como os jardins do Palácio do Itamaraty.
Talvez, como advinha Mendonça, seja o momento de buscar nas curvas e nas memórias de Brasília a inspiração para um novo momento de otimismo com o Brasil.
Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.


